ONG leva iluminação solar para comunidades ribeirinhas na Amazônia

Em três dias de ação, 173 famílias foram impactadas positivamente pela Organização Não Governamental Litro de Luz
A ONG prova que, com bons projetos, uma necessidade básica, como a iluminação, pode ser resolvida nos lugres mais isolados

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Brasília – Viver numa comunidade nos confins da Amazônia, isolado e sem luz elétrica é a realidade de milhares de amazônidas há décadas, no maior estado do Brasil. Em três dias de ação, a Organização Não Governamental (ONG) Litro de Luz, provou que bons projetos podem ser executados sem maiores problemas para “tirar das trevas” brasileiros que vivem na escuridão da maior floresta tropical do mundo.

A ONG, levou iluminação para quem precisa, com energia solar e materiais acessíveis, impactando positivamente a qualidade de vida de 173 famílias, de comunidades ribeirinhas que vivem às margens do Rio Negro, na Amazônia.

Leo é embaixador da Litro de Luz na sua comunidade, no litoral norte de São Paulo e veio para a Amazônia participar da instalação de iluminação solar no Rio Negro. Foto: Uatumã | Litro de Luz

Nas comunidades de Nova Canaã do Aruaú, Nova Jerusalém e Lindo Amanhecer, mais de 670 pessoas dependiam de geradores à diesel para ter algumas horas por dia de acesso à energia. Além da poluição, barulho e mal cheiro que produzem, estas máquinas quebram frequentemente e é comum que as comunidades fiquem sem eletricidade por meses. Essa realidade mudou nos dias 21, 22 e 23 de abril, e que só agora vem a público após a divulgação do trabalho pela ONG.

Gerador a diesel na comunidade de Lindo Amanhecer. As máquinas emitem poluentes, fazem muito barulho e quebram constantemente. Foto: Natasha Olsen | CicloVivo

“Que possamos transformar a vida dessas comunidades. Já acompanhei as ações da Litro de Luz e sei que vocês transformam a vida das pessoas”, foram as palavras de Alcinéia Lucena da Costa, no primeiro dia de ação. Néia, como é conhecida, é coordenadora de viagens de outra ONG, a Justiça e Misericórdia Amazon, responsável pelo barco que serviu de casa durante 4 dias para 37 pessoas que participaram da ação.

Poste instalado em comunidade ribeirinha. Foto: Uatumã | Litro de Luz

Com o apoio da Audi do Brasil e Audi Environmental Foundation, foram instalados 30 postes solares e mais de 150 lampiões foram entregues para os moradores das três comunidades — pessoas que vão ganhar mais autonomia e segurança para as mais diferentes tarefas. “Hoje temos que jantar bem cedo, porque comemos muito peixe e precisamos ver se tem espinha”, explica Edinelsa Braga Barros, moradora de Nova Canaã.

Edinelsa mora com o marido e dois netos e montou o próprio lampião solar com a ajuda dos voluntários da Litro de Luz. A montagem dos equipamentos por moradores da própria comunidade faz parte do processo de trabalho da ONG. “Quando eles montam os lampiões e postes, criam um senso de dono e passam a cuidar melhor de cada equipamento. É uma construção conjunta”, explica Samara Nogueira, voluntária que veio do Rio de Janeiro para esta ação.

Edinelsa fala da alegria de ter iluminação em casa e na comunidade. Foto: Uatumã | Litro de Luz

“Quando eu apertei o botão e acendeu a luz, foi uma alegria imensa! Nunca imaginei que poderia construir um lampião!” comemora Dona Edinelsa. Ela conta que com o lampião vai economizar o dinheiro que gastava com pilhas para lanterna e que os netos vão poder estudar em casa, mesmo depois que anoitece.

A possibilidade de crianças e jovens estudarem em casa, no período em que os pais estão disponíveis, e a possibilidade de preparar suas aulas no período da noite foram conquistas que os lampiões trouxeram para Augusta Ferreira, professora da Escola Municipal Estrela da Manhã, na comunidade de Nova Canaã do Aruaú.

Comunidades ribeirinhas do Rio Negro recebem iluminação solar – Imagem 4 de 11Foto: Uatumã | Litro de Luz

Além das mudanças que a iluminação traz para a vida dentro de casa, as comunidades vão também se tornar mais seguras. A criminalidade é uma ameaça que vem crescendo, mesmo nestes lugares mais afastados. Acostumadas a dormirem com portas e janelas abertas, as famílias passaram a trancar as casas, devido a casos de violência. “Agora vamos conseguir ver quem está vindo e quem está indo, vai ser muito importante”, finaliza Edinelsa.

O impacto da luz

Para quem tem acesso à energia elétrica a qualquer hora do dia, nem sempre é fácil entender o impacto que a iluminação traz, principalmente para quem vive em locais afastados. Conversando com os moradores das três comunidades que receberam postes e lampiões solares, fica fácil entender a emoção que sentem ao ver os postes acendendo pela primeira vez, sem o barulho e problemas dos geradores.

Valdemir Nascimento é diretor técnico do Posto de Saúde de Nova Jerusalém e conta que as picadas de cobra e escorpião durante a noite são comuns na comunidade, porque as pessoas não enxergam onde pisam.

Agora, com a luz do lampião, a segurança de quem precisa sair de casa à noite vai aumentar. Valdemir também vai poder organizar os dados dos atendimentos que faz depois de jantar com a mulher, Dona Maria da Graça. “É uma alegria para todo mundo! Vou poder trabalhar, vamos jantar com a luz do lampião, coisa que não fazemos com a luz de vela”, conta ele.

Maria da Graça lembra que a família passou o Natal no escuro e que, até então, nunca teve um poste em frente à sua casa, que fica na margem do Rio Negro. A falta de iluminação também era um problema para os barcos que circulam pela região. Quedas de passageiros que embarcam e desembarcam e erros de rota pela falta de visibilidade são frequentes, porque muitos barcos chegam e saem antes do amanhecer.

Antônio Calcagnotto, responsável por assuntos institucionais e Sustentabilidade na Audi do Brasil, participou de toda a ação e testemunhou pessoalmente a diferença que os postes fazem. “Acordei mais cedo com o barulho de um barco. Era o recreio, barco que chega de Manaus em Nova Jerusalém. Deu para ouvir a surpresa das pessoas: ‘Olha, agora tem luz!’. Foi emocionante”, relata.

Transformação e envolvimento

A ação nas comunidades ribeirinhas começou muito antes da presença dos voluntários e da chegada da luz solar. Cada comunidade recebeu visitas prévias onde foram decididos os locais de instalação de cada poste, as famílias que iriam participar da montagem dos equipamentos e selecionados os embaixadores e embaixadoras da Litro de Luz.

Dentro da proposta de envolver a comunidade em cada etapa do processo, pessoas que vivem nos locais atendidos passam por capacitação técnica e por um curso de liderança para atuar como uma ponte entre a ONG e a comunidade daqui para a frente.

Entre os embaixadores e embaixadoras, Davi Silva Vieira de apenas 15 anos se destaca. Não apenas por ser o mais jovem a se candidatar ao cargo, mas pela atitude e entusiasmo com que assumiu o papel de embaixador. “Me sinto muito importante! Antes eu sabia algumas coisas, agora sei bem mais”, garante.

O menino conta que participar das capacitações fortaleceu ainda mais o sonho que ele tem de ser engenheiro e arquiteto. O transporte para a escola vai ficar mais seguro, porque Davi estuda no período noturno e conta que sofreu muitas quedas saindo do barco e indo para sua casa por falta de iluminação.

“Conhecer o Davi nos faz pensar em todas as pessoas cheias de talento e vontade que existem no nosso país. Agora ele vai poder estudar e se desenvolver ainda mais”, comemora Camilla Hammes, coordenadora de projetos da ONG.

Em um dos momentos mais emocionantes da viagem pelas margens do Rio Negro, Davi mostrou aos voluntários as maquetes que fez usando papelão. Duas maquetes mostram a igreja e a escola da comunidade Lindo Amanhecer com a iluminação solar. Uma terceira, conta a história da Litro de Luz.

A ONG teve origem com Alfredo Moser, um engenheiro brasileiro que desenvolveu uma luminária com uma garrafa PET cheia de água e alvejante que, ao ser instalada em telhados, trazia a luz solar para dentro dos ambientes.

Esta solução inspirou o filipino Illac Diaz a criar os de postes e lampiões usados hoje pela ONG em diversos países. São soluções que usam materiais de fácil acesso, como canos de PVC e garrafas PET, e a energia de placas fotovoltaicas. No Brasil, a ONG já realizou ações em mais de 120 comunidades, melhorando a qualidade de vida de mais de 20 mil pessoas.

“Com esta ação na Amazônia sinto que estou cumprindo o meu propósito de vida, de ser uma empreendedora social, vendo o impacto do nosso trabalho na ponta”, revela Lais Higashi, presidente da Litro de Luz no Brasil.

A união faz a força

O que chama a atenção no trabalho desenvolvido pela ONG é o envolvimento real de todos os que estão presentes. Os voluntários se dividem entre atividades com as crianças (liberando os pais para a montagem de postes e lampiões), organização e pintura do material, checagem dos equipamentos que ficaram prontos, instalação de postes e realização de pesquisa com as famílias atendidas.

Tudo funciona perfeitamente e até quem não faz parte da rede de voluntários e funcionários da ONG acaba participando, como jornalistas e apoiadores. “Você acha que eu ia perder esta oportunidade? Foi uma alegria e satisfação ser um dos voluntários a levar melhoria de qualidade de vida e segurança para os moradores. Pudemos fazer um pouco de diferença para estas pessoas”, conta Calcagnotto.

Nos três dias de visitas e trabalho conjunto dos voluntários e das famílias, muitas histórias foram contadas. Embaixadores de comunidades atendidas pela Litro de Luz em outras ações estiveram presentes e falaram de suas experiências com os novos embaixadores.

“O bacana do trabalho da Litro de Luz é que eles não nos entregam a solução pronta. Eles fazem com a gente. Digo que eles não dão o peixe, eles ensinam a pescar”, explicou Vanderlea Rochumback, líder comunitária de uma colônia de pescadores com mais de 840 pessoas às margens da Represa Billings, em São Paulo.

Léia, como é conhecida, conta que a iluminação solar que a Litro de Luz trouxe para sua região mudou a vida das famílias. “Recebo muitos vídeos de crianças brincando na rua à noite. As mulheres podem ir e vir da igreja ou do trabalho mais seguras”.

Ação contínua

A atuação da Litro de Luz continua depois da montagem, instalação dos postes e entregas dos lampiões. Os embaixadores e embaixadoras foram capacitados para ajudar na manutenção e receberam equipamentos extras para possíveis trocas quando houver necessidade.

A coleta e o descarte correto das baterias também esta entre as ações posteriores ao trabalho dos voluntários. “Garantir que este material tenha o tratamento correto era uma das nossas preocupações. São baterias de alta performance e durabilidade, similares à que usamos nos nossos caros, mas em algum momento vão precisar ser trocadas”, explica Antônio Calcagnotto.

Para garantir a troca, todas as baterias precisam ser devolvidas para reciclagem. Os embaixadores e embaixadoras serão responsáveis pela coleta e a equipe da Litro de Luz vai trabalhar para a substituição. “A parceria entre Audi do Brasil, Audi Environmental Foundation e Litro de Luz nasce com um propósito bastante claro de levar luz para quem precisa por meio de soluções sustentáveis, sem emissão de CO²”, finaliza o executivo.

Mais do que energia limpa, a iluminação que a Litro de Luz leva para as comunidades promove um impacto extremamente positivo, na segurança e qualidade de vida destas pessoas. “Sou uma das primeiras pessoas da minha família a ter acesso a muitas coisas, como formação universitária. Quando vejo o sonho destas pessoas se realizando, eu também me realizo”, revela a coordenadora de projetos da Litro de Luz, Camilla Hammes.

Para encerrar  a reunião dos voluntários no último dia da ação, Camilla usou uma citação que resume um pouco o trabalho realizado pela ONG: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”.

Reportagem: Val-André Mutran – Correspondente do Blog do Zé Dudu em Brasília.