O futuro de Eugênio Gadelha na Alepa

Carlos Magno reflete sobre os próximos passos do primeiro deputado estadual de Canaã dos Carajás

No último domingo, 4 de outubro, Eugênio Pacelli Furtado Gadelha entrou para a história política de Canaã dos Carajás ao conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa). Eleito deputado estadual pelo MDB com 52.726 votos, Eugênio passa a representar uma conquista inédita para um município que, apesar de sua crescente importância econômica para o Pará, nunca havia conseguido eleger um representante diretamente ligado à sua vida política para o Parlamento estadual.

A eleição, porém, encerra apenas a primeira etapa. A partir de fevereiro de 2027 começará um desafio muito maior: transformar votos em representação política, influência parlamentar e resultados concretos para os municípios que confiaram em seu nome.

E é justamente aí que começa o verdadeiro teste de Eugênio Gadelha.

O mandato começa pela escolha da equipe

Uma das primeiras e mais importantes decisões do deputado eleito será a composição de seu gabinete.

Um parlamentar pode ter votação expressiva, prestígio político e boas intenções, mas dificilmente construirá um mandato eficiente se estiver cercado por uma assessoria despreparada. Gabinete parlamentar não pode ser simplesmente espaço para acomodação política. Precisa funcionar como uma estrutura técnica de elaboração, acompanhamento e cobrança de resultados.

Eugênio Gadelha deverá procurar profissionais com conhecimento de processo legislativo, orçamento público, Direito Constitucional e Administrativo, elaboração de projetos, políticas públicas, comunicação, articulação institucional e acompanhamento de convênios e investimentos estaduais e federais.

Especial atenção deverá ser dada à assessoria responsável pelo orçamento.

É necessário conhecer profundamente o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). É nesses instrumentos que estão boa parte das oportunidades para transformar demandas políticas em recursos e políticas públicas.

A própria Alepa demonstra a dimensão dessa tarefa. A LOA de 2026 fixou o orçamento estadual em mais de R$ 54,2 bilhões e recebeu centenas de emendas durante sua tramitação. A Comissão de Fiscalização Financeira e Orçamentária é justamente uma das instâncias fundamentais para a discussão das peças orçamentárias e das emendas apresentadas pelos deputados.

Portanto, uma assessoria parlamentar que não conhece orçamento limita enormemente a capacidade de atuação do deputado.

Emendas precisam virar resultados

Outro ponto fundamental será o tratamento dado às emendas parlamentares.

Não basta distribuir recursos entre municípios. É preciso estabelecer critérios, identificar prioridades, acompanhar projetos, verificar documentação, cobrar execução e fiscalizar o resultado final.

A discussão das emendas impositivas ganhou ainda mais importância nos últimos anos, inclusive pelas exigências de transparência e rastreabilidade. A própria Alepa promoveu discussões entre parlamentares, Casa Civil e órgãos estaduais sobre os procedimentos para apresentação e execução desses recursos.

Por isso, Eugênio Gadelha deveria criar dentro de seu gabinete uma espécie de núcleo técnico de projetos, orçamento e acompanhamento de emendas. Esse núcleo poderia receber as demandas dos municípios, analisar sua viabilidade, estabelecer prioridades e acompanhar cada solicitação desde sua apresentação até a eventual execução.

O deputado eleito precisa saber onde colocou cada recurso, qual município foi beneficiado, qual obra ou serviço recebeu a indicação, em que estágio está o processo e qual resultado chegou à população.

Relação com o novo governo

Eugênio Gadelha terá ainda diante de si uma nova realidade política.

Sua candidata ao governo do estado, Hana Ghassan, também do MDB, não venceu a eleição. Daniel Santos, do Podemos, foi eleito governador do Pará no primeiro turno, enquanto ela ficou em segundo lugar.

Isso exigirá capacidade de diálogo institucional.

Um deputado não precisa abandonar suas convicções políticas para conversar com o Governo. Ao contrário: independência parlamentar e capacidade de articulação podem caminhar juntas.

Eugênio terá de construir canais de interlocução com o governador, Casa Civil, secretarias estaduais, autarquias e demais órgãos responsáveis pela execução das políticas públicas.

No interior do Pará existe uma velha expressão segundo a qual um deputado que fica completamente distante do governo “come na tábua como papagaio”. A frase é popular, mas traduz uma realidade da política: sem diálogo institucional, muitas demandas legítimas dos municípios podem encontrar mais dificuldades para avançar.

Isso não significa submissão ao Executivo.

Deputado estadual também existe para fiscalizar o Governo, cobrar resultados, propor leis, discutir o orçamento e defender os interesses da população. A relação institucional precisa ser construída com independência, responsabilidade e capacidade de negociação.

Conhecer o Regimento para não ser conduzido pelo gabinete

Existe outro aprendizado indispensável: Eugênio Gadelha precisa estudar profundamente o Regimento Interno da Alepa.

Um parlamentar que domina o Regimento conhece seus instrumentos de atuação, sabe apresentar proposições, requerimentos e emendas, entende o funcionamento das comissões e sabe utilizar adequadamente as possibilidades regimentais disponíveis.

O assessor deve orientar o parlamentar. Nunca substituí-lo na compreensão do mandato. Esse cuidado será ainda mais importante para alguém que chegará à Alepa para exercer seu primeiro mandato eletivo.

Há profissionais experientes e extremamente qualificados no Parlamento. Mas também existem, como em qualquer ambiente de poder, pessoas que passam legislatura após legislatura oferecendo supostas facilidades, influência e acesso aos recém-eleitos.

Eugênio precisará separar experiência verdadeira de oportunismo.

Assessor parlamentar precisa reunir três características fundamentais: confiança, competência e conhecimento técnico.

Confiança sem competência produz ineficiência. Competência sem confiança produz insegurança.

E proximidade política sem nenhuma das duas pode produzir problemas.

A tribuna precisa ser uma marca do mandato

Outro instrumento que Eugênio Gadelha não poderá desprezar é a tribuna da Assembleia Legislativa.

O deputado deve estabelecer presença constante no plenário e utilizar a tribuna para apresentar propostas, defender os municípios que representa, cobrar investimentos, discutir problemas regionais e posicionar-se sobre os grandes temas do Pará.

Considero importante que Eugênio procure ocupar a tribuna com regularidade — se possível, mais de uma vez por semana quando a dinâmica das sessões permitir —, sempre com pronunciamentos preparados, dados concretos, propostas positivas e, quando necessário, críticas responsáveis.

A tribuna é uma das grandes vitrines políticas do mandato parlamentar. Quem tem mandato, mas não apresenta suas ideias, corre o risco de desaparecer politicamente no meio de outros 40 deputados.

Não basta estar na Alepa. É preciso ser ouvido dentro e fora dela.

Brasília também precisa entrar no mapa

Existe ainda outro desafio.

Embora um deputado estadual não tenha como atribuição institucional executar políticas federais, um mandato politicamente articulado pode funcionar como ponte entre os municípios e a bancada federal, ministérios e órgãos da União.

Por isso, seria importante que Eugênio mantivesse uma estrutura preparada para orientar municípios na organização de demandas e projetos que possam ser apresentados aos canais institucionais competentes em Brasília.

Prefeitos e lideranças precisam chegar ao gabinete não apenas com pedidos, mas, sempre que possível, com demandas tecnicamente estruturadas.

O gabinete parlamentar moderno precisa transformar pedido político em demanda tecnicamente organizada.

Fiscalizar também é trabalhar

Muitas vezes a atuação de um deputado é medida apenas pela quantidade de obras ou recursos anunciados. Essa visão é incompleta.

Uma das funções essenciais do Poder Legislativo é fiscalizar o Executivo.

Eugênio deverá acompanhar a execução do orçamento, cobrar secretarias, solicitar informações, participar das comissões, analisar projetos encaminhados pelo governo e verificar se os investimentos anunciados realmente chegaram aos municípios.

Um deputado estadual não pode funcionar apenas como despachante de demandas. Ele é legislador, fiscalizador, representante político e articulador dos interesses da sociedade dentro do estado.

Um gabinete de portas abertas

Há ainda um aspecto que considero decisivo: acessibilidade.

O gabinete precisa atender: telefone precisa ser respondido; mensagem precisa receber retorno.

Prefeito, vereador, liderança comunitária, empresário, trabalhador, dirigente sindical, representante de associação ou cidadão comum precisa saber que sua demanda foi recebida — mesmo quando a resposta for negativa.

Uma das piores práticas de determinados gabinetes é criar uma muralha de assessores entre o parlamentar e as pessoas. O assessor não pode existir para impedir o acesso ao deputado. Deve existir para organizar esse acesso.

E o próprio Eugênio terá de reservar parte de sua agenda para conversar diretamente com prefeitos, vereadores e lideranças dos municípios onde recebeu votação.

A velha resposta de que “o deputado está em reunião” não pode se transformar em expediente permanente para afastá-lo de quem ajudou a colocá-lo na Assembleia Legislativa.

O tamanho da responsabilidade

Eugênio Gadelha chega à Alepa carregando uma responsabilidade maior do que simplesmente exercer um mandato de quatro anos.

Ele chega como representante de uma região que deseja ampliar sua participação nas decisões políticas do Pará e como o primeiro deputado estadual diretamente identificado com a trajetória política de Canaã dos Carajás.

Isso aumenta a cobrança.

A eleição abriu a porta.

A partir de fevereiro de 2027, serão o trabalho parlamentar, a qualidade da equipe, o domínio do orçamento, a atuação nas comissões, a presença no plenário, a fiscalização, a articulação institucional e a capacidade de ouvir os municípios que definirão os resultados de sua passagem pela Alepa.

Mandato parlamentar não se constrói apenas com prestígio. Constrói-se com método, conhecimento, equipe, presença política e capacidade de transformar demandas em resultados.

Se Eugênio Gadelha compreender isso desde o primeiro dia, terá à sua disposição os instrumentos necessários para construir uma atuação parlamentar consistente e capaz de responder às expectativas depositadas nele pelas urnas.

A vitória de 4 de outubro colocou Eugênio Gadelha na história política de Canaã dos Carajás.

O mandato que começa em 2027 dirá qual será o próximo capítulo dessa história.

Carlos Magno
Jornalista — DRT/PA 2627
Profundo conhecedor dos bastidores da Alepa desde 1979