Como um ex-vereador sem diploma universitário, oriundo de um dos estados mais pobres do Brasil, sem projeto claro e sem identidade ideológica, se transforma no político mais poderoso da República?
A resposta não está apenas em Davi Alcolumbre — está no próprio sistema que sustenta figuras como ele.
Nascido em Macapá, em 1977, Alcolumbre tentou caminhos fora da política: trabalhou como instalador de áudio, não prosperou; iniciou um curso de economia, não concluiu. Aos 24 anos, ingressou na política — e venceu. Primeiro vereador, depois deputado federal apenas um ano depois.
Mas foi em Brasília que ele fez sua escolha mais decisiva: entendeu rapidamente que existem dois tipos de políticos — os que aparecem, discursam e ocupam manchetes, e os que operam nos bastidores, controlando o verdadeiro poder.
Alcolumbre escolheu o silêncio estratégico.
Durante três mandatos consecutivos na Câmara, sua atuação pública foi praticamente inexistente: sem protagonismo, sem grandes projetos, sem relevância no debate nacional. Mas, longe dos holofotes, construiu algo muito mais valioso: relações de poder, domínio de bastidores e conhecimento profundo do funcionamento interno do Congresso.
Aprendeu onde está o verdadeiro poder: no controle da pauta, na distribuição de recursos e na capacidade de travar ou destravar decisões estratégicas.
Em 2014, chegou ao Senado. Em 2019, surpreendeu o país ao derrotar Renan Calheiros e assumir a presidência da Casa. A imprensa falou em renovação. Mas o que veio foi o oposto.
Alcolumbre não venceu por ideias. Venceu por método.
Promessas calibradas, acordos silenciosos e uma engenharia política baseada em atender interesses individuais sem permitir confronto entre eles. Um modelo clássico de poder concentrado e opaco.
O auge dessa engrenagem se deu com o chamado orçamento secreto. Entre 2019 e 2022, ao lado de Arthur Lira, Alcolumbre ajudou a operar um mecanismo que permitia a distribuição de bilhões de reais sem transparência, sem critérios técnicos e sem identificação dos autores das indicações.
Foram cerca de R$ 28 bilhões em três anos.
Recursos públicos transformados em moeda política.
Mas talvez o instrumento mais poderoso de Alcolumbre não seja o dinheiro — e sim o tempo.
Ao controlar a pauta, ele controla o ritmo do país.
E foi exatamente esse poder que ele utilizou de forma decisiva em um dos episódios mais graves e simbólicos da história recente da República: a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal.
Pela primeira vez em 132 anos de história, um indicado à Suprema Corte foi rejeitado pelo Senado.
E isso não aconteceu por divergência jurídica, nem por incapacidade técnica do indicado.
Aconteceu por articulação política.
E, sobretudo, por empenho pessoal de Davi Alcolumbre.
Nos bastidores, o presidente do Senado atuou diretamente para construir o ambiente de rejeição. Trabalhou votos, influenciou senadores, operou silenciosamente para minar o apoio ao indicado e conduziu o processo até um desfecho histórico — e institucionalmente devastador.
Não foi um acidente.
Foi estratégia.
Ao transformar uma indicação ao STF em moeda de negociação, Alcolumbre elevou o nível de interferência política sobre uma das instituições mais importantes da República.
O recado foi claro: nenhuma decisão de Estado passa sem o aval de quem controla o Senado.
O país, mais uma vez, ficou em segundo plano.
Paralelamente, seu nome e seu entorno familiar aparecem, ao longo dos anos, em uma série de investigações, denúncias e suspeitas amplamente divulgadas por veículos de imprensa. Casos que vão desde supostas irregularidades com emendas parlamentares até denúncias de “rachadinha” e operações envolvendo familiares.
Nada disso, porém, resultou em consequências políticas efetivas.
E isso revela mais sobre o Brasil do que sobre o próprio Alcolumbre.
Porque, em um sistema onde quem controla a pauta controla o destino das investigações, o silêncio vale mais do que a verdade.
Em 2025, mesmo com todo esse histórico, Alcolumbre foi reeleito presidente do Senado com 73 votos. Apoiado por governo, oposição e Centrão.
Direita, esquerda e centro — todos convergiram.
Não por convicção. Por conveniência.
Cada grupo recebeu uma promessa. Mas apenas uma foi cumprida: a ampliação do fluxo de emendas parlamentares.
O resto? Ficou no discurso.
E assim se consolida um modelo político onde não importa ideologia, projeto ou compromisso com o país. Importa quem distribui recursos e controla a agenda.
Alcolumbre não é uma exceção.
Ele é um produto.
Um reflexo de um sistema que premia a articulação silenciosa em detrimento da liderança pública, que valoriza a negociação de bastidores acima da transparência e que transforma o interesse coletivo em moeda de troca.
No Brasil, o Executivo governa — mas quem define os limites desse governo é o Congresso. E quem controla o Congresso é quem domina o orçamento e a pauta.
Hoje, esse nome é Davi Alcolumbre.
Amanhã, será outro.
Porque enquanto o sistema continuar o mesmo, os nomes apenas se alternam.
O problema nunca foi apenas o personagem.
É o palco.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627
Canaã dos Carajás – PA







