O Caçador de Latinhas da PA-160

Sob o sol escaldante de Carajás, Raimundo e Maria lutam todos os dias pela sobrevivência
O Caçador de Latinhas da PA-160

Enquanto milhares de veículos cruzam uma das rodovias mais movimentadas da região de Carajás, um casal transforma aquilo que muitos jogam fora em sustento, dignidade e esperança.

Todos os dias, logo pela manhã, quando o sol começa a surgir sobre a região de Carajás, o senhor Raimundo Lima e sua esposa, Maria Lima, deixam sua casa em Parauapebas e iniciam mais uma longa jornada de trabalho.

Montados em uma motocicleta adaptada para transportar o material recolhido, os dois percorrem extensos trechos da rodovia PA-160, entre Parauapebas e Canaã dos Carajás, recolhendo latinhas de alumínio e outros materiais recicláveis descartados às margens da estrada.

É um trabalho silencioso, cansativo e incessante.

Sob o sol escaldante do verão amazônico, Raimundo e Maria seguem quilômetros e quilômetros pela rodovia. Enquanto ele recolhe as latinhas de um lado da pista, ela trabalha do outro. Assim, juntos, enfrentam diariamente o calor, a poeira, o cansaço e os riscos de trabalhar às margens de uma rodovia de intenso movimento.

Não existe horário confortável. Não existe sombra garantida. O almoço é preparado em casa e levado na motocicleta. A pausa acontece onde for possível. Depois, a caminhada continua.

E é justamente daquilo que muitos motoristas descartam pelas janelas dos veículos que o casal consegue retirar parte essencial do sustento da família.

Segundo Raimundo, a falta de qualificação profissional dificultou o acesso dele e da esposa aos empregos gerados pelos grandes projetos de mineração existentes na região de Carajás. Diante dessa realidade, o casal encontrou na coleta de materiais recicláveis uma alternativa de trabalho e sobrevivência.

Raimundo não demonstra vergonha da atividade. Ao contrário: fala do trabalho com a dignidade de quem sabe que, por trás de cada latinha recolhida, existe esforço, suor e a responsabilidade de colocar comida dentro de casa.

Ele também faz questão de reconhecer a importância da companheira nessa batalha diária.

“Minha esposa me ajuda de sol a sol. Percorremos diariamente a PA-160 para garantir o nosso sustento. Talvez, sem a ajuda dela, eu não conseguiria ter os mesmos resultados. Eu recolho as latinhas de um lado e ela recolhe do outro lado da rodovia. Nosso almoço já levamos de casa. No final do dia, retornamos para nossa casa, em Parauapebas, para o merecido descanso. No dia seguinte, começa tudo de novo”, relata Raimundo.

A rotina se repete dia após dia.

Segundo ele, o intenso fluxo de veículos na PA-160 e a movimentação de pessoas que frequentam balneários e outros pontos de lazer da região fazem com que uma quantidade considerável de latinhas seja descartada irregularmente às margens da estrada.

Para muita gente, é simplesmente lixo.

Para Raimundo e Maria, é sobrevivência.

Há também uma enorme contradição social nessa história. Raimundo e Maria vivem em uma das regiões minerais mais importantes do Brasil, onde grandes projetos movimentam bilhões de reais e geram milhares de postos de trabalho. Mas, sem a qualificação exigida para disputar muitas dessas oportunidades, encontraram nas margens da PA-160 a própria forma de enfrentar as dificuldades da vida.

Enquanto caminhões, ônibus e automóveis passam apressados pela rodovia, o casal segue devagar, observando cada pedaço do acostamento à procura das pequenas latas de alumínio que podem significar alguns reais a mais no final do dia.

Não esperam facilidade.

Não reclamam do trabalho.

Trabalham.

Raimundo e Maria representam milhares de brasileiros que, mesmo diante das dificuldades, recusam-se a desistir. Transformam o descarte dos outros em renda, o esforço em alimento e a necessidade em força para continuar.

Quando o dia termina e o sol começa a desaparecer no horizonte de Carajás, eles colocam na motocicleta o resultado de mais uma jornada e retornam para Parauapebas.

Descansam algumas horas.

Porque, na manhã seguinte, tudo recomeça.

A motocicleta volta para a estrada. O sol amazônico volta a castigar. Os quilômetros novamente serão percorridos.

E Raimundo e Maria estarão outra vez às margens da PA-160, procurando latinhas e escrevendo, com suor e dignidade, mais um capítulo de sua incessante luta pelo trabalho e pela sobrevivência.

Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627