Eleições marcada por atrasos na apuração e recordes de abstenção

Falha técnica no sistema do TSE após tentativa de ataque hacker prejudicou totalização dos votos em todo o Brasil
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Brasília – As eleições municipais de 2020 ficaram marcadas pelo atraso na apuração por causa de um problema técnico no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e números recordes de abstenção nos maiores colégios eleitorais do país. Em comparação com 2016, o atraso foi significativo, naquele pleito, até as 19h do domingo, o resultado já havia sido divulgado em oito capitais, entre vitórias de candidatos e definição da disputa para o segundo turno. Os resultados de domingo (15) apontam que 57 grandes cidades terão disputa em 2º turno para escolha de prefeitos.

O número é exatamente o mesmo que nas eleições municipais de 2016, quando também 57 municípios precisaram da realização do 2º turno. Dentre eles, 17 eram capitais. Neste ano, serão 18.

Quatro horas depois do encerramento da votação, o presidente da Corte, ministro Luís Roberto Barroso, ainda dava explicações sobre a demora. Barroso explicou que este ano, a forma de apurar os votos mudou. Até 2018, cada um dos 27 Tribunais Regionais Eleitorais computava os votos de seu estado e depois enviava ao TSE. Este ano, ficou tudo centralizado no TSE. “Um dos núcleos de processadores do computador que faz a totalização em Brasília falhou e foi preciso repará-lo, atrasando a totalização e a divulgação dos votos”, justificou o presidente da corte eleitoral.

Barroso disse que o TSE ainda está apurando, mas uma linha de investigação está sendo seguida. Após um ataque hacker ao sistema do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no começo do mês, o TSE, como medida para reforçar sua segurança, desligou um dos dois principais servidores. Com isso, o outro servidor ficou sobrecarregado, levando a algumas falhas, como problemas para justificar a ausência do domicílio eleitoral pelo aplicativo e-Título. Barroso esclareceu que o tribunal ainda está analisando se o desligamento contribuiu para o atraso na contagem. Ele afirmou ainda que, por ser uma novidade, a centralização pode estar na origem da demora. Entretanto, de acordo com o ministro, “a tentativa frustrada de derrubar o site do TSE ontem não tem relação com a demora na divulgação dos resultados.”

Mudanças

O TSE decidiu centralizar a apuração dos votos e o ministro Edson Fachin, vice-presidente do TSE, explicou que a principal razão para isso foi uma questão de segurança. Barroso também afirmou que os estados precisavam renovar seus equipamentos de apuração e que, ao fazer tudo no TSE, foi possível ter um custo menor. No sábado (14), o secretário de Tecnologia da Informação da Corte, Giuseppe Janino, disse que, com a centralização da apuração no TSE, foi possível baixar os custos e reduzir a vulnerabilidade.

Fachin disse que a experiência da centralização será avaliada por ele, por Barroso e pelo ministro Alexandre de Moraes. Durante a eleição de 2022, Fachin e Moraes serão respectivamente o presidente e vice-presidente do tribunal.

Ataque hacker

O presidente do TSE confirmou em coletiva de imprensa realizada no domingo (15), em Brasília, que o site da Corte foi alvo de ataque hacker que tentava derrubar a página. O que ocorreu foi uma orquestração de acessos simultâneos para tirar o sistema do ar, o que foi neutralizado e não produziu impactos, segundo o ministro. Questionado sobre eventuais novas investidas, em especial durante a apuração dos votos, o presidente do TSE garantiu que “não houve risco para o resultado fidedigno das eleições”, uma vez que as urnas não estão ligadas em rede e quaisquer problemas apenas atrasariam a transmissão de dados, sem comprometê-la. Barroso defendeu que o tribunal fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar problemas e que as equipes da Corte permanecem atentas. Ainda segundo Barroso, “está quase certo” que o ataque partiu de fora do país, sem, no entanto, apontar de qual país.

Vencedores e perdedores

Partido dos presidentes da Câmara dos Deputados (Rodrigo Maia) e do Senado (Davi Alcolumbre), o DEM conseguiu vitórias em cidades estratégicas (veja abaixo). Ex-partido do presidente Jair Bolsonaro, o PSL sequer foi para o segundo turno nas capitais. O PT não conseguiu eleger nenhum candidato em capital e foi para o segundo turno em Vitória (ES), com João Coser, e no Recife (PE), com Marilia Arraes. O PSDB elegeu três prefeitos: Alvaro Dias, em Natal (RN); Hildon Chaves, Porto Velho (RO); e Cinthia Ribeiro, em Palmas (TO), e segue na disputa em São Paulo.

Curitiba, Florianópolis e Salvador: DEM “ressuscita” no cenário nacional

Na capital paranaense, Rafael Greca (DEM), que liderava com folga as pesquisas, foi reeleito com 60% dos votos. O partido Democrata também se sobressaiu na capital catarinense, com Gean (DEM), que teve 53,5% dos votos, e na capital da Bahia: Bruno Reis (DEM) foi eleito em Salvador com quase 65% dos votos. Vale lembrar: o presidente do DEM, ACM Neto, é da Bahia, e o partido articula com o PSDB e MDB uma união para a disputa presidencial em 2022.

São Paulo: Boulos debuta no 2º turno contra Covas

A cidade de São Paulo teve, pela primeira vez, um candidato do Psol (Guilherme Boulos) classificado para o segundo turno, reforçando a divisão tradicional no município de que, geralmente, leva um candidato da direita e um da esquerda para a definição do pleito. O primeiro colocado foi Bruno Covas (PSDB), o que já era indicado nas pesquisas e reforçado pela pesquisa de boca de urna do Ibope.

Rio de Janeiro: Eduardo Paes, do DEM, disputa com Crivella apoiado pelo presidente

Na capital fluminense, as pesquisas de intenções de voto acertaram em “cravar” Eduardo Paes (DEM) no segundo turno, deixando a disputa pela segunda vaga entre três candidatos: Marcelo Crivella (Republicanos), Martha Rocha (PDT), Benedita da Silva (PT). Crivella levou a melhor, apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro – diferente do que aconteceu com o candidato do presidente em São Paulo, Celso Russomano, que chegou a liderar as pesquisas, mas derreteu até a eleição, ficando apenas em quatro lugar.

Porto Alegre, Belo Horizonte e Vitória

Na capital gaúcha, a ex-candidata à vice-presidente Manuela D’avila (PCdoB) ficou praticamente empatada com Sebastião Melo (MDB), respectivamente com 29,6% e 30,7% dos votos, ainda com destaque para o índice de votos do terceiro colocado, Nelson Marchezan (PSDB), com 20%, e que pode ser decisivo no segundo turno em uma declaração de apoio.

Em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, Alexandre Kalil (PSD) foi reeleito com ampla margem, superior a 63% dos votos, e com a promessa de que não fará governo “nem de direita nem de esquerda”. Já Vitória (ES) é uma das poucas capitais em que o PT vai para o segundo turno, com o candidato João Coser, que irá enfrentar Delegado Pazolini (Republicanos), vencedor do primeiro turno.

Nordeste: PT só vai para o segundo turno em 1 dos 9 estados

O PT foi o grande derrotado das eleições de 2018. Além de Salvador (citada acima), em Fortaleza, capital do Ceará (reduto dos pedetistas Ciro e Cid Gomes), vão para o segundo turno Sarto (PDT) e Capitão Wagner (Pros).

No Recife, a disputa entre os primeiros colocados foi “voto a voto”: João Campos (PSDB), Marilia Arraes (PT), que são primos, polarizaram a disputa não dando chance a Mendonça Filho (DEM). Durante a apuração, se alternaram nas primeiras colocações. Ao final, Mendonça ficou de fora do segundo turno. O Recife, aliás, foi a única capital nordestina com um integrante do PT no 2º turno, apesar de ter sido a única região, em 2018, que elegeria Fernando Haddad (PT) na disputa com Jair Bolsonaro (então PSL). Em todas as demais capitais, o partido naufragou.

Norte: partidos pequenos dão o tom

Nas duas maiores cidades da região, Manaus e Belém terão segundo turno. No Norte, partidos com menos força no cenário nacional se destacaram. Em Manaus, se classificaram Armando Mendes (Podemos) e David Antonio (Avante). Em Belém, Edmilson Rodrigues (Psol) e Delegado Eguchi (Patriota). No Tocantins, uma mulher foi reeleita: Cinthia Ribeiro (PSDB). Vale lembrar: as eleições em Macapá (AP) foram adiadas para dezembro devido ao apagão no estado.

Confira na ilustração abaixo como ficou o quadro dos partidos políticos no país após a totalização dos votos.

As eleições do domingo (15), apontam que o MDB, que na eleição de 2016 conquistou 1049 municípios, ontem, foi o maior derrotado do Brasil, elegeu prefeitos em 454, perdendo 595 prefeituras.

Quem também “derreteu” foi o PSDB. Segundo maior derrotado em 2020, o PSDB conquistou 356 prefeituras, quando em 2016 governou em 805 municípios, desidratando seu poder e            449 municípios.

PT caminha a passos largos para se tornar um partido nanico. Em 2016 detinha 257 prefeituras sob seu comando, e ontem, após a finalização da contagem, obteve a vitória em 129 municípios, perdendo          o controle em 128.

O partido que mais cresceu no pleito de 2020, foi o AVANTE que possuía em 2016 apenas 12 prefeituras, e ontem conquistou 49, somando 61 prefeituras.

O DEM não ficou atrás. Em 2016 tinha 272 prefeituras, conquistou 41 e agora detém 313 prefeituras.


* Val-André Mutran – É correspondente do Blog do Zé Dudu em Brasília.