Tragédia em Brumadinho pode dificultar licenças da Vale para projetos em Carajás

Ações da empresa caíram fortemente ontem e analistas preveem tempos difíceis para a mineradora, especialmente do ponto de vista ambiental. Serra Leste, Salobo e Gelado podem virar dúvida.
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“Seria preciso um cataclisma para abalar o cenário da Vale.” Essa forte declaração, que virou manchete nos principais veículos do país, foi dada pelo presidente da mineradora multinacional Vale, Fabio Schvartsman, há exatos seis meses. No dia 26 de julho, ele participou de uma teleconferência com investidores e divulgou as conquistas pujantes da maior produtora de minério de ferro de alto teor do globo durante o trimestre encerrado em junho, bem como externou as expectativas para os trimestres seguintes.

Mas se era preciso um evento dantesco para abalar a manda-chuva do Pará, cujo valor de mercado é de R$ 291 bilhões, a tragédia ocorrida no início da tarde de ontem (25) no município de Brumadinho, estado de Minas Gerais, em razão do rompimento de uma barragem de rejeitos de minério da Vale, é o lamentável cataclisma que vai sujar para sempre a imagem da mineradora. O Ministério do Meio Ambiente fala no rompimento de três barragens, mas a Vale não confirma. De qualquer modo, é uma hecatombe que acontece após três anos do rompimento de outra barragem, no município de Mariana, também no estado de Minas, de uma empresa controlada parcialmente pela Vale.

Desta vez, a tragédia tem proporção maior, do ponto de vista humano, em relação ao evento de Mariana, cuja repercussão foi majoritariamente ambiental. Em Brumadinho, a falta de informações, até o momento, sobre o que aconteceu com quase 300 pessoas — entre funcionários da Vale e de terceirizadas e moradores das cercanias da barragem — causa desespero e comoção nacional, com cobertura “full time” pela imprensa brasileira e destaque agressivo nos principais noticiários do mundo.

A Vale, que começou a sexta-feira com papéis valorizados em 3% no mercado internacional, chegou a despencar 13% minutos após a constatação do rompimento da barragem e fechou o seu dia de cão com desvalorização de 8%, que só não foi pior em razão, até aquele momento, sobre incertezas de causas do desastres e, principalmente, de vítimas fatais.

Com imagem terrivelmente abalada, a multinacional, sempre muito ágil e ativa em interação pelas redes sociais, tem se mostrado perdida e frágil na comunicação corpo a corpo, tanto no acompanhamento do evento de que é autora quanto no tratamento às centenas de famílias de trabalhadores, que têm usado a imprensa televisiva para disparar mísseis ácidos contra a postura “omissa” da empresa e de sua assessoria.

Blog divulgou relatório de barragens no Pará

Há informação de desaparecidos que já teriam residido em Parauapebas e em Marabá e que estariam no refeitório da empresa, almoçando, quando a lama chegou e invadiu o prédio. Muita especulação e muita desinformação foram disparadas nas redes sociais e até mesmo pela imprensa em razão de o rio atingido em Brumadinho chamar-se Paraopeba, nome que se aproxima demais do município paraense de onde a Vale extrai seu maior volume global de minério de ferro.

Ainda assim, para além das coincidências e ilações, a tragédia em Brumadinho chama a atenção para a segurança das barragens de rejeito das operações da Vale no Pará. No final do ano passado, precisamente no dia 20 de novembro, o Blog do Zé Dudu divulgou de forma inédita e com exclusividade o “Relatório de Segurança de Barragens 2017” produzido pela Agência Nacional de Águas (ANA) (veja aqui: Parauapebas tem 3 barragens de “risco alto” e 7 com “alto potencial de dano”).

O Blog detalhou a situação das barragens paraenses, com destaque para as de minério e sob a batuta da Vale. Alguns “haters” e defensores da empresa usaram as redes sociais para criticar, dizer que o texto não contribuía e endeusar as tecnologias empregadas pela Vale em seus empreendimentos na região de Carajás. Vociferavam como se, por mais impensável, uma tragédia nos moldes de Mariana não pudesse repetir-se.

O Blog do Zé Dudu levantou que, das 790 barragens de rejeitos de mineração dos país, 109 estão no Pará, 20 das quais com dano potencial associado. O município de Parauapebas possui quatro barragens da mineradora multinacional Vale classificadas com alto potencial de dano associado e que, se romperem, podem causar o caos. A Vale também marca presença com barragens de alto potencial de dano nos municípios de Canaã dos Carajás (Sossego) e Marabá (Finos 2 de Salobo), conforme indicado no relatório da ANA.

Municípios do Pará podem sofrer efeito cascata

Além de os municípios de Carajás ficarem com a barba de molho, já que a tragédia em Brumadinho reacende velhas chamas de suposições do tipo “pode acontecer aqui?”, o impacto maior, a ser sentido pela região, é na economia e nos rumos futuros de projetos mineradores em Carajás. Como as finanças e o mercado de trabalho de municípios como Parauapebas, Canaã dos Carajás e Curionópolis dependem sobremaneira da atuação da Vale, pode ser que os projetos perspectivos sejam comprometidos.

Isso porque haverá considerável aumento da pressão sobre a concessão de licenças ambientais e operacionais, inclusive dificultando os planos do presidente Jair Bolsonaro de flexibilizar o licenciamento ambiental para destravar grandes empreendimentos. Com isso, projetos previstos no radar da própria mineradora Vale (expansão de Serra Leste, expansão de Salobo, expansão de S11D, implantação de Gelado e abertura das cavas de N1 e N2) podem ter dificuldade para conseguir avançar.

Muitos desses projetos, como a mina SL1 em Serra Leste, no município de Curionópolis, e as minas de N4 e N5, em Serra Norte, no município de Parauapebas, podem encerrar a presença da Vale nesses municípios caso não recebam reforço com autorização de novas frentes de lavra. Parece tudo muito distante, mas num horizonte de dez anos, os atuais corpos em questões poderão perder fôlego e, mediante a redução da produção, trazer consequências drásticas às finanças das prefeituras em questão.

Além de problemas com licenças ambientais — que, aliás, podem se estender, como efeito cascata, para outros empreendimentos de mineração do país assinados por outras empresas —, a Vale pode ter de desembolsar milhões caso as autoridades resolvam aumentar os padrões de segurança para o processamento de resíduos de minas, além do que terá despesas de capital para a reconstrução da barragem que se rompeu e oferecer compensação bilionária pelos danos causados pelo acidente, sem contar a cobertura negativa na mídia nacional e internacional de que já é alvo. O Governo de Minas gerais já conseguiu, por meio da justiça, o bloqueio de R$ 11 bilhões das contas da Vale. Outras demandas judiciais certamente vão prosperar e encrencar a multinacional.

Essas consequências futuras não vão, entretanto, impactar seu balanço financeiro, que está previsto para ser divulgado no próximo dia 13 de fevereiro e é referente ao exercício de 2018. Por outro lado, o mercado financeiro estava animado, aguardando o provável lucro pomposo que a mineradora deve anunciar, mas a partir de segunda-feira (28) a Vale deve sentir os efeitos econômicos da tragédia na Bolsa de São Paulo, que não funcionou ontem em razão do feriado do aniversário de São Paulo. O resultado bilionário da Vale será fatalmente ofuscado pelo cataclisma apocalíptico incomensurável, que jogou na lama meio ambiente, pessoas e a própria empresa.

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