Pela primeira vez, Canaã dos Carajás ultrapassa Parauapebas na balança comercial

Queda brusca de Parauapebas em fevereiro vai derrubar royalties de sua prefeitura no próximo mês em pelo menos 15%. Enquanto isso, compensação de Canaã vai aumentar em torno de 24%.
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O Blog do Zé Dudu vem, há algum tempo, informando que Canaã dos Carajás é a maior prioridade da mineradora multinacional Vale e, embora a empresa jamais confirme, Parauapebas vai acabar ficando para depois, mais cedo ou mais tarde. Sem especulação, os números da balança comercial de fevereiro confirmam, pela primeira vez, o que até então parecia teórico demais ou possível de acontecer num futuro muito distante.

No mês passado, Canaã dos Carajás exportou mais commodities minerais que Parauapebas, algo inédito na história da mineração do Pará e do Brasil. Desde 2003 (há, portanto, 16 anos), um município minerador nacional não desbancava Parauapebas na exportação de produtos primários de origem mineral. Os dados consolidados por município foram divulgados nesta terça-feira (12) pelo Ministério da Economia.

Canaã dos Carajás (que há três anos era apenas o 100º maior exportador do país) foi o 5º principal emissário de produtos brasileiros ao mundo em fevereiro. A “Terra Prometida”, alvo de tantas especulações econômicas e profecias financeiras que têm se cumprido com sucesso, exportou 366,61 milhões de dólares, mais que os 363,41 milhões de dólares transacionais a partir de Parauapebas.

A diferença é pequena, mas sinaliza a grandiosidade que Canaã dos Carajás tem assumido — e vai continuar a assumir com mais força — nos planos da mineradora Vale, que está encrencada pelos efeitos nefastos do rompimento da barragem de rejeitos da mina de Córrego do Feijão, no município de Brumadinho (MG). O projeto S11D, da multinacional em Canaã, virou referência global e de imagem pela moderna tecnologia com que opera, dispensando água, e pela alta produtividade com supimpa retorno financeiro.

Enquanto a produção em Canaã avança aproximadamente 25%, passando de 294,74 milhões de dólares exportados em janeiro para 366,61 milhões de dólares em fevereiro, a de Parauapebas está em franco declínio. A “Capital Nacional do Minério de Ferro” assistiu suas exportações despencarem de 412,75 milhões de dólares em janeiro para 363,41 milhões de dólares em fevereiro, retração de 12%.

Em fevereiro, Canaã levou vantagem por exportar, além do minério de ferro, o cobre em concentrado do projeto Sossego. Ainda assim, a sua produção física de minério de ferro saltou de 5,4 milhões de toneladas (Mt) para 6,68 Mt de janeiro para fevereiro, enquanto a de Parauapebas despencou de 8,64 Mt para 7,38 Mt. No jargão popular, ambos os municípios estão quase “pau a pau” no rali do minério.

Impactos econômicos

A ultrapassagem de Canaã sobre Parauapebas, por enquanto, não será constante. E, por enquanto também, não se dá em termos de produção de minério de ferro. Mas é sabido, dentro e fora da Vale, que ela acontecerá, haja vista ser o projeto S11D, na Serra Sul, um empreendimento com melhor custo-benefício em relação às minas localizadas em Parauapebas, na Serra Norte de Carajás. Isso por si só justificam investimentos, prioridades e buscas por ampliação da produção em S11D, não sem antes serem esgotadas as reservas nas quais a multinacional já trabalha em Parauapebas, lavrando minério de ferro de mais alta pureza do globo.

Não obstante, os impactos decorrentes dessa baixa verificada na capital do minério em fevereiro terá seus efeitos práticos, para muito além de comparações com Canaã. Os royalties de mineração serão derrubados em abril como consequência da redução da produção física de minério, que, por outro lado, precisa ser compreendida considerando-se o período de inverno chuvoso, quando sempre a Vale desacelera em Serra Norte.

Os royalties que a Prefeitura de Parauapebas devem receber em abril (em função da atividade mineral de fevereiro) devem vir 15% menores que os R$ 43,43 milhões creditados este mês. Matematicamente, serão R$ 6,5 milhões a menos, que poderiam ser destinados a resolver gargalos nas áreas de educação, saúde e saneamento básico, entre outras. O Blog apurou extraoficialmente junto a interlocutores da Prefeitura de Parauapebas que a possibilidade de queda de royalties este ano é certa e que, da atual casa dos R$ 40 milhões mensais, a compensação deve ficar no patamar entre R$ 30 milhões e R$ 35 milhões, o que não é pouca coisa.

Se a Vale mantiver o pique de redução da produção, Parauapebas poderá sofrer ainda mais porque, atualmente, 64% de suas receitas são conformadas a partir de compensações, impostos e taxas que têm na indústria mineral protagonizada pela Vale seu sustentáculo. Qualquer retração mais intensa da atividade da Vale, se duradoura ou permanente, pode quebrar a prefeitura local e causar problemas fiscais, financeiros, econômicos e sociais sem precedentes.

Por outro lado, a Prefeitura de Canaã deve continuar a rir para as paredes, já que os royalties sobre o minério de ferro vão aumentar aproximadamente 24% na partilha do mês de abril. E devem seguir crescendo, com o otimismo do aumento programado da produção em S11D e, no médio prazo, com a possível expansão do empreendimento, que já nasceu gigante e rendendo muito orgulho a sua gestora, que deve tirar dele os lucros para cobrir despesas, rombos e traumas em Brumadinho. São dois velhos lados de uma mesma moeda.

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