Parauapebas em números: riqueza e pobreza num só casamento

Confira indicadores demográficos, sociais e econômicos exclusivos e atuais ostentados pelo maior produtor nacional de minério de ferro ontem e hoje, em alusão ao aniversário de 32 anos.
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on print

Continua depois da publicidade

Desde a Constituição de 1988, 1.370 municípios foram emancipados no Brasil. Parauapebas foi um deles. Diferentemente do que muitos imaginam, ele não é o que mais cresceu populacionalmente nestas pouco mais de três décadas e passa longe, muito longe, de ser o que mais se desenvolveu. Leva o troféu, ainda assim, de ser, entre esses 1.370, aquele cuja prefeitura atualmente mais arrecada.

Aliás, neste 10 de maio, data em que celebra seu 32º aniversário de emancipação político-administrativa em meio à pandemia do novo coronavírus, que distanciou seus munícipes para comemoração festiva de mais uma primavera, Parauapebas bate um quarto das capitais brasileiras em receitas correntes e, no país, só 45 prefeituras conseguiriam ter seu fôlego para arrecadar tanto.

Exatamente hoje, a regionalmente conhecida “Capital Nacional do Minério de Ferro”, filha mais ilustre de Marabá e mãe do triunfal Canaã dos Carajás, cruza a cifra de R$ 13 bilhões em arrecadação nestes 32 anos de vida. O Blog do Zé Dudu calculou que, de 1º de janeiro de 2010 para cá, a prefeitura local acumula R$ 11,238 bilhões.

O negócio é tão bom que apenas este ano, desde o primeiro dia até hoje, são cerca de R$ 600 milhões, quantia com a qual 97% dos 5.570 municípios brasileiros sequer dão conta de sonhar, porque vão se bater durante o ano inteiro e mesmo assim não alcançarão essa marca, muitos deles bem mais populosos que Parauapebas, como o paulista Carapicuíba, o pernambucano Paulista e o mineiro Ribeirão das Neves, todos os quais com mais de 300 mil moradores.

Riqueza concentrada que infla pobreza

A riqueza exacerbada em Parauapebas, no entanto, é superconcentrada nas mãos do ente governamental, de uma mineradora e de poucos riquíssimos, o que parece ser a sina de municípios que crescem tão rápido de que dependem de uma fonte de renda exclusiva e intensiva, como a mineração de ferro.

Enquanto a receita arrecadada pela prefeitura cresceu 237% entre 2010 e 2019, a população em situação de pobreza disparou 36%, de acordo com dados do Cadastro Único do Governo Federal. E mesmo crescendo menos que a receita, a pobreza não foi controlada e hoje afeta um quarto dos moradores, que se expandiram em ocupações irregulares pelas periferias e subúrbios e não raramente passam fome, completamente alheios à dinheirama que se diz correr aqui e invisíveis às políticas públicas de amparo à vulnerabilidade social que, em tese, deveriam existir e, caso existam, funcionar.

Um aniversário sem festa é propício à reflexão, e Parauapebas talvez seja o município que mais precise ser pensado, repensado e repensar a si mesmo, já que depende de recursos esgotáveis, por mais abundantes que hoje sejam. O gigante do minério precisa fazer do isolamento causado pelo invisível o momento propício para dar visibilidade a ações que possam resgatar 55 mil da linha da pobreza e fazê-los sentar-se à mesa da bonança que, hoje, só chega a muito poucos ilustres e iluminados.

Os recursos públicos bilionários, que fazem sua fama e tornam sua prefeitura tão cobiçada, precisam ser funcionais e se pulverizarem em medidas práticas, que alcancem analfabetos ignorados nas periferias, moradores de rua abandonados, doentes nos hospitais, cidadãos sem banheiro em moradias precárias e, de forma geral, à maioria que, por exemplo, em pleno século 21 e num dos municípios mais ricos do Brasil, convivem com odor fétido de esgoto a céu aberto bem debaixo do nariz.

Parauapebas precisa acertar, acelerar o passo e desapegar-se do discurso de ser “jovem” porque o acúmulo de suas misérias afronta e intimida lugares seculares do Centro-Sul do país e que, mesmo com muito pouco recurso, esbanjam indicadores de desenvolvimento sólidos e expoentes. A propósito, dos 1.370 lugares que emanciparam de 1988 para cá, Parauapebas não está sequer na metade entre os mais bem colocados em desenvolvimento e qualidade de vida, um claro sinal de que o atalho tomado não lhe abriu o melhor dos horizontes.

É, portanto, hora de mudar a direção para se orgulhar e ser orgulho de tantos milhares já nascidos aqui ou que escolheram esta terra para concluir seus dias. Os sinais estão postos. E o futuro das gerações vindouras um dia cobrará seu preço.

Publicidade