Poucos homens simbolizam tão bem a epopeia de Serra Pelada quanto Francisco Osório Nery, conhecido nacionalmente como Chico Osório. Sua trajetória reúne todos os ingredientes que transformaram o maior garimpo a céu aberto do mundo em uma verdadeira lenda: pobreza extrema, coragem, trabalho incansável, riqueza inimaginável, perdas milionárias e uma esperança que permanece viva até os dias de hoje.
Durante muitos anos, eu alimentava o desejo de registrar essa história. Como jornalista, sempre considerei que a trajetória de Chico Osório precisava ser contada com profundidade, porque ela representa não apenas a vida de um homem, mas também a história de milhares de brasileiros que abandonaram tudo em busca do sonho dourado de Serra Pelada. Finalmente, tive a oportunidade de ouvi-lo longamente e conhecer detalhes inéditos de sua extraordinária caminhada.
Das dificuldades do sertão ao sonho de uma vida melhor
Francisco Osório Nery nasceu em 28 de dezembro de 1952, em Ipaumirim, no Ceará. Filho de Edvaldo Nery Sá Silva e Josefa Osório Nery, viu o pai abandonar a família quando tinha apenas cinco anos de idade.
Criado pela mãe e pelos avós maternos, enfrentou desde cedo a dura realidade do sertão nordestino. A seca castigava a região, e muitas vezes a família dormia sem ter o que comer. Dona Josefa, entretanto, jamais perdeu a esperança. Convencida de que somente a educação poderia mudar o destino do filho, enviou Chico para estudar em Fortaleza, onde passou a morar com parentes.
Aos 18 anos, serviu ao Exército Brasileiro no Quartel da Barreira do Inferno, em Natal (RN). Depois da baixa militar, trabalhou em diversas atividades até reencontrar o pai, que havia se estabelecido em Imperatriz (MA) como empresário.
Das grandes obras ao nascimento de Serra Pelada
Em 1977, Chico Osório participou das obras da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, trabalhando inicialmente na Construtora Estrela e, posteriormente, na Encobal.
Com a implantação do Projeto Carajás, foi transferido para a construção do Núcleo Residencial de Carajás, onde exerceu função de encarregado e participou da construção da famosa casa de hóspedes da mineradora.
Concluída a obra, retornou a Imperatriz. Casou-se com Conceição Osório e passou a trabalhar como vendedor nas Lojas Liliane. Sua esposa era contadora da Distribuidora Brahma e possuía salário superior ao dele, fato frequentemente utilizado pela sogra para humilhá-lo.
Tudo mudaria em 1980.
A corrida do ouro
Quando foi anunciada a descoberta de Serra Pelada, Chico Osório fez o mesmo que milhares de brasileiros: abandonou o emprego e partiu rumo ao garimpo.
Chegou praticamente sem recursos, carregando apenas uma pequena mochila de roupas. Começou trabalhando no único britador existente no garimpo, observando diariamente centenas de homens formando enormes filas para beneficiar o cascalho retirado da cava.
Foi então que percebeu uma oportunidade de negócio.
Convenceu a esposa a vender o único patrimônio da família, um Chevette 1979, comprou um britador e conseguiu um sócio para adquirir o motor da máquina. O empreendimento prosperou rapidamente. O movimento era intenso, o faturamento cresceu e, pouco tempo depois, Chico já possuía três britadores funcionando.
A descoberta que mudou sua vida
Algum tempo depois, assumiu um barranco praticamente abandonado, comprometendo-se a arcar com todas as despesas em troca de 90% da produção.
Durante oito meses, o prejuízo foi enorme.
Chegou a vender um veículo para quitar salários atrasados depois de ser chamado pela Polícia Federal, responsável pela administração do garimpo.
Parecia o fim.
Mas, exatamente trinta dias depois da reorganização da equipe, ocorreu o episódio que entrou para a história de Serra Pelada.
Por volta das 11 horas de uma quarta-feira, um cavador teve sua picareta presa em uma pedra incomum, semelhante a uma palha de aço — material conhecido entre os garimpeiros como “bombril”.
A pedra foi levada ao barraco e cuidadosamente limpa.
Sem imaginar o que tinha nas mãos, Chico Osório levou o material para avaliação na Caixa Econômica Federal, único órgão autorizado a comprar ouro no garimpo.
Após a limpeza, a pedra revelou 2,6 quilos de ouro puro.
Era apenas o começo.
Os impressionantes 647 quilos de ouro
Depois daquela primeira descoberta, o barranco revelou um dos maiores filões já registrados em Serra Pelada.
Ao final da exploração, Chico Osório contabilizou a extraordinária marca de 647 quilos de ouro retirados de seu barranco.
Uma quantidade praticamente inimaginável.
Em valores atuais, essa produção representaria uma fortuna estimada em bilhões de reais, transformando Chico Osório em um dos homens mais ricos que passaram por Serra Pelada.
Sua riqueza tornou-se lendária.
Comprou aviões, dezenas de veículos, máquinas e equipamentos. Transportava grandes quantidades de dinheiro em espécie, cena comum no auge do garimpo, quando muitos garimpeiros carregavam verdadeiros sacos de dinheiro pelas ruas de Serra Pelada.
O dinheiro que desapareceu
A riqueza chegou tão rapidamente quanto foi embora.
Como aconteceu com inúmeros garimpeiros milionários de Serra Pelada, Chico Osório jamais recebeu orientação financeira.
Em uma época marcada por hiperinflação, deixou grandes somas depositadas em bancos sem qualquer aplicação financeira. O dinheiro perdia valor diariamente.
Continuou investindo pesado em um barranco que já não produzia ouro, vendeu seus britadores — que garantiam renda constante — para insistir na mineração, perdeu aeronaves e viu parte de seu patrimônio desaparecer.
Sua história revela uma realidade comum entre muitos dos grandes milionários do garimpo: homens simples, sem qualquer preparo para administrar fortunas gigantescas, que enriqueceram da noite para o dia e perderam quase tudo em poucos anos.
O homem que nunca desistiu
Hoje, Chico Osório vive em um simples barraco de madeira nas proximidades da cava principal de Serra Pelada.
Mesmo assim, continua acreditando que encontrará um novo filão.
Dentro do próprio barraco escavou um túnel de aproximadamente 70 metros em busca de um veio de ouro que, segundo acredita, ainda existe sob seus pés.
Durante nossa entrevista, falou com serenidade sobre o passado.
Disse que não se arrepende de nenhuma decisão tomada.
Tem apenas uma certeza:
“Vou ficar milionário de novo.”
Uma lenda viva de Serra Pelada
Ao longo dos anos, Chico Osório tornou-se uma das maiores personalidades vivas da história de Serra Pelada.
Sua trajetória já foi retratada por grandes veículos de comunicação nacionais. O jornalista Roberto Cabrini contou sua história para milhões de brasileiros, e profissionais de imprensa de todas as regiões do país já passaram por Serra Pelada para entrevistá-lo.
Até o minerador americano Parker Schnabel, do Discovery Channel, esteve na região para conhecer de perto sua impressionante trajetória.
Entre os inúmeros personagens que marcaram a história do garimpo, poucos despertam tanta admiração quanto Chico Osório.
Sua vida resume a própria história de Serra Pelada: um lugar onde homens comuns desafiaram o impossível, encontraram riquezas inimagináveis, enfrentaram perdas igualmente gigantescas e, mesmo depois de tudo, jamais deixaram de acreditar que o próximo golpe de picareta poderia mudar novamente suas vidas.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627








