Quando os farsantes falam a verdade

Por Inácio França – Blog Caótico.com.br

Jornais, internet, TV, rádio são instrumentos que fazem o mundo parecer menor, nos fazem crer que tudo que acontece de relevante mundo afora chega ao nosso conhecimento rapidamente. Ainda ontem, por exemplo, li em algum desses grandes portais na internet que uma ovelha subiu num telhado na Inglaterra. Sem falar na contínua e permanente torrente de notícias de trocas de namorados entre atrizes, jogadores do futebol e celebridades de menor prazo de validade.

Alguém decide o que é relevante. E esse alguém não é o dono da empresa de mídia, já que ele tem coisas mais importantes a fazer. Para isso, ele escala diretores ou gerentes de jornalismo, gente de sua confiança paga para adivinhar os desejos do patrão. Esses escalam editores para decidir o que eu e você iremos ler.

Há um mês, um dono de jornal, de emissora de TV que retransmite a Globo, de rádios e de um portal na web, resolveu ele mesmo fazer o serviço.

Rômulo Maiorana Júnior, herdeiro do maior grupo de comunicação do Norte do Brasil, enfrentou o teclado do computador e redigiu um artigo contra o tristemente famoso Jáder Barbalho, ex-governador, ex-senador pelo Pará e dono do grupo de comunicação concorrente.

Num texto sofrível, mas muito, muito, muito ruim, usou palavras que raramente aparecem nas páginas dos jornais para se referir a um adversário, principalmente se esse jornal for o seu e você tem um mínimo de preocupação com a credibilidade da sua publicação. O título? Um safado e sua safadeza. Dá para imaginar o que vem, não dá?

Logo no primeiro parágrafo “é por todos conhecido: um ‘ficha-suja’, canalha, sem-vergonha, safado, chantagista, corrupto e ladrão”. Na lata, sem cuspe e sem estilo. Maiorana ainda sapecou um “estórias” no início, provavelmente para o leitor perceber imediatamente seu escasso conhecimento do idioma.

Se as mídias realmente fossem capazes de fazer o mundo ficar menor, bastava esse início para que o assunto se transformasse em notícia nacional. Nada disso. Nem os blogs ditos progressistas, independentes ou de esquerda (Nassif, Vi o Mundo, Escrevinhador ou Paulo Henrique Amorim) registraram o ineditismo do tom das acusações.

Convenhamos, essa cegueira para tudo que não está no Rio, São Paulo ou Brasília – ou para tudo que não é parido nas redações dessas capitais – chega a ser cômica. A disputa por audiência entre Luciano Huck e um tal de Faro não-sei-o-quê mereceu amplos espaços.

Júnior, contudo, guardou o melhor para o miolo do seu, digamos, texto. Em péssimo português, ele garantiu que seu pai costumava trocar cheques sem fundo de Jáder Barbalho, cheques que até hoje estariam guardados no baú dos Maiorana.

Em seguida, um tiro no pé constrangedor, desses que dá vergonha alheia: “Dizem que meu pai era contrabandista. Ora, se ele foi contrabandista, foi para dar comida a sete pessoas, a sua família”. Esse era um assunto proibidíssimo nas Organizações Rômulo Maiorana, a ORM. Se o sujeito fosse pego falando disso no elevador com o ascensorista era demitido no ato, sem choro nem vela.

Foi por causa dessa acusação que o jornalista Lúcio Flávio Pinto levou uma surra de Ronald, irmão de Rômulo, e sua turma, além de tomar cinco processos nas costas. Há alguns anos, Lúcio ousou publicar em seu Jornal Pessoal, cuja capa da quinzena passada reproduzo acima, o que era público e notório em Belém: a origem da fortuna de Papai Maiorana era o contrabando. Apanhou e foi processado. Agora, ri por último.

Lúcio Flávio, por sinal, se pergunta: se tem os cheques sem fundo de Jáder, por que não os escaneou e publicou na primeira página do jornal?

E por que tanta ira de Júnior? Porque, na véspera, o Diário do Pará, de Jáder, publicou na primeira página que ele, Júnior, disse em depoimento à Justiça Federal que não tinha nada a ver com a fraude de R$ 4 milhões na Sudam, que era tudo culpa do irmão Ronald. Explico: os Maiorana pegaram um empréstimo na Sudam para investir numa fábrica de sucos artificiais, mas tinham que investir valor idêntico na indústria. Eles deram uma contrapartida de mentirinha, segundo o Ministério Público.

A resposta de Jáder também foi grotesca, apesar de ser assinada pelo Diário do Pará. Menos corajoso, o ex-tudo preferiu compartilhar a autoria da sua grosseria com a equipe de profissionais que trabalham no seu jornal.

O texto ditado por Jáder Barbalho é machista e absurdamente preconceituoso, culpando a TPM de Júnior pelo seu “comportamento de profunda irritação”. As insinuações sobre a sexualidade do inimigo são de um profundo mau gosto. Numa delas, afirma que trata-se de “um ser com fortes características femininas”, como se isso pudesse reduzir a personalidade e o caráter de alguém.

Em seguida, Jáder (ou o Diário, vá lá) lista delitos, crimes e deslizes éticos do clã dos Maiorana. Ao mencionar os cheques sem fundo, tem seu melhor momento usando fina ironia: “Contrabandista, sim, se sabia. Agiota, é a primeira vez que a sociedade toma conhecimento”. Essa foi boa.

O mais espantoso nessa história toda é que nada ultrapassou as fronteiras do Pará. Por desencargo de consciência, acabo de pesquisar no Google e nos mecanismos de busca dos blogs acima mencionados. As menções a esse episódio aparecem apenas em blogs e páginas locais, como o de Thaís Gentile, moça que teve a sensibilidade de reproduzir as duas agressões na íntegra. Nas páginas nacionais, só encontrei textos antigos, a maioria relacionada à agressão sofrida por Lúcio Flávio.

No final das contas, esse capítulo do conflito autofágico envolvendo mídia e poder é excelente, pois revela as armadilhas e os mecanismos ideológicos de dominação. Já não há máscaras e disfarces que caibam nessa dupla, afinal, tenho certeza que, finalmente, os dois jornais estão publicando a verdade.

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