Prefeitura de Canaã dos Carajás é a que mais enriqueceu no Brasil

Painel inédito elaborado pelo Blog do Zé Dudu revela e compara arrecadação dos municípios brasileiros que cruzaram faturamento líquido de R$ 1 bilhão em 2020. Blog saiu na frente com balanço que Frente Nacional de Prefeitos consegue divulgar somente no segundo semestre.
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O ano era 2010 e o prefeito era Anuar Alves. Naquela época, Canaã dos Carajás, que estampou o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como um dos municípios que mais cresceram nos dez anos anteriores, sobrevivia às expensas da produção de minério de cobre do projeto Sossego, da mineradora multinacional Vale, iniciado em 2004. A arrecadação liquida da prefeitura local? R$ 85,74 milhões, uma Curionópolis de hoje.

Na década passada, que se encerrou em 2020, grandes transformações sacudiram aquele pedaço de chão cujo nome remonta à simbologia bíblica de Terra Prometida. Outro grande projeto da mineradora Vale, o S11D, interveio na rotina do pacato município e, mais uma vez, colocou-o nos holofotes do país. A começar pela envergadura de S11D, alardeado globalmente como o maior projeto da história da mineração.

Tanta propaganda em cima da nova mina, que hoje se tornou, também, o maior sucesso comercial da indústria de minério de ferro, não poderia deixar de ter efeitos à altura para Canaã dos Carajás. Desde que começou a operar, no apagar das luzes de 2016, o S11D tem enriquecido a prefeitura local de forma alucinante, com impostos, taxas e, principalmente, compensação financeira pela atividade extrativa do ferro.

Resultado: em 2020, o município que arrecadava R$ 85,74 milhões dez anos antes encerrou a década ostentando faturamento líquido absurdamente escandaloso, na ordem de R$ 1,014 bilhão. Para quem tem dificuldade em dimensionar o que significa R$ 1 bilhão em conta durante um ano, basta entender o seguinte: o Brasil tem 5.570 municípios e 5.568 prefeituras (Brasília-DF, por ser capital federal, e Fernando de Noronha-PE, por ser distrito estadual, não contam). Destas 5.568 prefeituras, só 88 conseguiram ajuntar mais de R$ 1 bilhão durante o ano inteiro de 2020, e a de Canaã dos Carajás foi uma dessas “abençoadas” abastadas.

E detalhe: Canaã está longe, mas muito longe mesmo, de ser um dos 88 municípios mais populosos do Brasil. No ranking nacional, utilizando-se o dado populacional que o IBGE jura de pés juntos existir no município (38 mil moradores), Canaã seria apenas o 901º. Se a base populacional for a que a prefeitura local acredita haver (64 mil residentes), Canaã seria o 515º.

Mais rica que capitais brasileiras

Nem Anuar teve culpa no cartório de a receita de Canaã ter sido R$ 85 milhões em 2010 nem tampouco o ex-prefeito Jeová Andrade a teve pelos R$ 1,014 bilhão processados em 2020. É a Vale a grande titã por fazer a receita local disparar 1.079% na década e alçar a Terra Prometida ao pelotão das mais poderosas do país, ao menos do ponto de vista financeiro. Municípios famosos e populosos do país, com mais de 500 mil habitantes, não têm a bala na agulha de Canaã. E até capitais como Rio Branco-AC e Macapá-AP teriam de pedir bênção, se o confronto fosse o de qual prefeitura tem mais dinheiro.

O Blog do Zé Dudu, que sempre anunciou as riquezas das prefeituras paraenses, resolveu ir além e fazer o levantamento mais completo sobre a arrecadação das administrações municipais brasileiras, com base em dados oficiais informados por elas mesmas e referentes ao fechamento do ano passado. O Blog comparou a receita de 2020 com a de 2019 num trabalho minucioso e isolou absolutamente todas as prefeituras do país que apresentaram faturamento líquido superior a R$ 1 bilhão.

Num listão com representantes das cinco regiões do Brasil, dominado por nomes do estado de São Paulo e do qual só as capitais do Acre e do Amapá ficaram de fora, quatro prefeituras paraenses encontram lugar ao sol. Belém (R$ 3,177 bilhões), capital do estado, teve a 17ª prefeitura mais rica do Brasil, enquanto o governo de Parauapebas (R$ 1,952 bilhão) ocupou o 39º lugar, sua melhor posição na história. Na 83ª colocação está a Prefeitura de Marabá (R$ 1,02 bilhão), separada por “míseros” R$ 6 milhões da administração de Canaã, que ocupa o 87º lugar no ranking.

Maior per capita e maior crescimento

A Prefeitura de Canaã dos Carajás ostenta dois postos de primeiro lugar no Brasil que ninguém conseguiu sequer passar perto: apresentou a maior arrecadação por habitante, R$ 26.619, quase o dobro da segunda colocada, a Prefeitura de Maricá-RJ (R$ 15.299); e apresentou a maior taxa de crescimento de receita de um ano para outro, saltando sem pudor extravagantes 60%, quase duas vezes e meia a segunda colocada, a Prefeitura de Uberlândia-MG (26,5%).

Se as previsões do Blog do Zé Dudu estiverem corretas para 2021, a Prefeitura de Canaã deve atropelar 11 a sua frente e avançar ainda mais nesse ranking seleto de bilionárias até 31 de dezembro. O massacre já começou por Marabá, a quem a Terra Prometida já deixou para trás no primeiro bimestre deste ano.

As próximas vítimas serão São Vicente, Taubaté e Santana de Parnaíba, no estado de São Paulo; Cascavel, Foz do Iguaçu e São José dos Pinhais, no estado do Paraná; Campina Grande, na Paraíba; Angra dos Reis, no Rio de Janeiro; Rondonópolis, no Mato Grosso; e Pelotas, no Rio Grande do Sul. A arrancada da princesa do minério desrespeita as funções social e econômica das concorrentes, algumas das quais famosas por serem cidades turísticas (como São Vicente, Foz do Iguaçu e Angra dos Reis), industriais (São José dos Pinhais e Taubaté), universitárias (Campina Grande e Pelotas) e celeiros de agronegócio (como Rondonópolis).

O Blog disponibiliza o painel inédito com as finanças das 88 prefeituras mais ricas em 2020, cuja fonte de dados é a receita líquida que consta do Relatório de Gestão Fiscal (RGF) do 3º quadrimestre emitido pelos próprios governos no início deste ano. É possível verificar o desempenho de cada prefeitura no confronto com 2019 e concluir: a década foi mesmo, e indiscutivelmente, de Canaã dos Carajás. E tende a continuar sendo.