MPF recomenda suspensão de expedição da Funai em área de indígenas isolados no Pará

O MPF recomenda que não seja realizada qualquer expedição à Terra Indígena Ituna Itatá, área interditada por causa da presença de indígenas isolados, na região do médio Xingu
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O Ministério Público Federal (MPF) enviou recomendação à Fundação Nacional do Índio (Funai) para que sejam suspensas imediatamente quaisquer expedições à Terra Indígena Ituna Itatá, área interditada por causa da presença de indígenas isolados, na região do médio Xingu. O MPF diz que tomou a decisão após receber informações de que a Fundação planeja enviar servidores ao local.

A recomendação foi enviada no último domingo (29) ao presidente da Funai, Marcelo Augusto Xavier da Silva, e o diretor de Proteção Territorial, César Augusto Martinez. Na avaliação do MPF, qualquer entrada na área de isolados somente pode ser realizada após a desintrusão e regularização fundiária, com retirada dos invasores que atualmente ocupam a terra indígena e representam ameaça à vida e à integridade física dos servidores públicos que adentrarem ao local.

Para o Ministério Público Federal, após a total retirada de invasores da Terra Indígena Ituna Itatá, a Funai poderá planejar expedições ao local, mas apenas se forem observadas as medidas destinadas à prevenção do contágio por Covid-19. De acordo com o Plano de Ações em Terras Indígenas da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da própria Funai, a entrada de funcionários em áreas como a Ituna podem ocorrer somente após rigorosa quarentena.

O MPF informa que recebeu informações de que o início da expedição é iminente e uma equipe da Funai já estaria em Altamira se preparando para a incursão na área dos isolados. A Ituna Itatá está interditada desde 2010 para proteger a vida de indígenas isolados dos quais já foram encontrados vários vestígios.

A interdição faz parte também das condicionantes da usina de Belo Monte, por conta da atração de migrantes provocada pela obra. Ainda segundo o MPF, “a possível incursão da Funai na terra indígena teria sido provocada por articulação política do senador Zequinha Marinho (PSC)”.

Na recomendação, o MPF destaca que o senador “atua notoriamente em desfavor da proteção aos povos e territórios indígenas e enviou ofício ao ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República se posicionando contrariamente à interdição da área para os indígenas em isolamento voluntário”.

“Em sua atuação política, o referido senador nega a existência de povos indígenas isolados na TI Ituna-Itatá e manifesta intenções contrárias à política de não contato que orienta o trabalho da Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, contrariando ainda a metodologia de base científica desenvolvida há anos por indigenistas especializados, bem como o compromisso do estado brasileiro com a proteção aos povos indígenas isolados”, enfatiza a recomendação.

A expedição agendada pela Funai, no entendimento do MPF, ameaça a existência dos indígenas isolados – eles poderiam não sobreviver ao contato durante a pandemia de Covid-19; viola a legislação nacional que protege os povos indígenas; representa risco aos servidores pela possibilidade de conflito com os invasores do território; e carece de qualquer justificativa técnica.

O MPF observa ainda que, na semana passada, o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) encaminhou ao órgão em Altamira relatório denunciando a grave violação de direitos territoriais com a possível redução dos limites da Terra Indígena Ituna Itatá pela Funai sem nenhuma fundamentação técnica. “De acordo com a denúncia, a redução foi uma iniciativa do diretor de proteção territorial da Funai, atendendo a demanda do senador Zequinha Marinho”, diz o MPF.

No documento, o MPF alerta que qualquer ato administrativo para reduzir os limites de terra indígena sem fundamentação técnica representa violação da Constituição e, se praticado pela Funai, contraria a própria missão institucional, já que a autarquia indigenista foi criada pelo Estado brasileiro expressamente para defender os direitos indígenas, sobretudo, os territoriais.

Em nota divulgada à imprensa, o senador Zequinha Marinho defende que “caso não se comprove a existência de indígenas, a terra deverá ser finalmente desbloqueada, amenizando os conflitos rurais na região”.

Ele ressalta, ainda, na nota, que, desde a primeira interdição da área indígena, “não foram feitos estudos complementares de natureza etno-histórica, sociológica, jurídica, cartográfica, ambiental e o levantamento fundiário para a limitação”.

(Tina Santos)