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Pará

Exclusivo: Entrevista com Helder Barbalho, governador do Pará

Políticas para a segurança, educação, saúde, infraestrutura e finanças foram os temas tratados pelo governador

O governador Helder Barbalho abriu ontem (18) espaço em sua agenda para conceder entrevista exclusiva ao Blog do Zé Dudu. Durante quase uma hora, demonstrando conhecimento da atual situação socioeconômica e do panorama fiscal do Pará, bem como disposição para resolvê-los, Helder respondeu aos questionamentos do Blogger e informou que neste primeiro momento a prioridade é o combate à insegurança pela qual o estado passa. Confira a íntegra da entrevista!

Zé Dudu – O governo anterior alardeava que estaria entregando um Pará em situação de equilíbrio fiscal, contas em dia, pagamento de servidores sem atraso e sem dívidas. Passava isso adiante como mérito retumbante. O senhor, porém, depois que assumiu, tem dito o contrário: que o Pará está com as contas engessadas. E mais: o senhor esteve esta semana em Brasília para, entre outras questões, pedir socorro porque o Pará estaria com rombo nas contas de R$ 1,5 bilhão. Dito isso, e considerando-se que a visão de finanças do governo que entrou (o seu) não bate com o resultado do governo que saiu, o senhor poderia esclarecer de onde provém essa dívida bilionária e esse desequilíbrio nas contas do Governo do Estado? Em que área está esse rombo (folha de pagamento, previdência, resultado primário, restos a pagar)? E se assim está, por que o senhor não decretou o chamado estado de calamidade financeira, como já o fizeram outros governadores?

Helder Barbalho – Primeiro, esses dados são oficiais e proferidos pelo Tesouro Estadual com acompanhamento do Tesouro Nacional, que fechou as contas de 2018 e detectou um déficit fiscal primário de R$ 1 bilhão e 543 milhões. Isto significa dizer que, em 2018, o Governo do Estado gastou muito além do que deveria e do que declarou ter gasto. Em razão desse déficit, inclusive já formalizado na última quinta-feira [dia 17], pelo Tesouro Nacional, o estado do Pará muito provavelmente deva perder sua atual nota de classificação para capacidade de pagamento [o chamado rating] de “B” para “C”, o que, de imediato, fará com que o nosso estado esteja impedido de contratar empréstimos.

Zé Dudu – O senhor pode precisar em que área que foi esse rombo?

Helder Barbalho – Foi generalizado. Em todas as áreas. Principalmente naquilo que cabe à receita própria do Estado e naquilo onde foram exigidos planejamento e investimento do Estado.

Zé Dudu – Sobre o estado de calamidade financeira, o senhor pretende decretar?

Helder Barbalho – A princípio, não. Nós vamos buscar alternativas que possam permitir ao estado reconstruir a sua saúde fiscal, com equilíbrio, e fazer com que o Pará possa readequar as suas ações, primando pelo gasto com qualidade, com reticência, diminuindo a máquina pública para que nós possamos priorizar o custeio e ampliar o percentual de investimento.

Zé Dudu – Todos sabem que o Pará é “mestre” em insegurança e as estatísticas de homicídios, de qualquer entidade que as elabore, retratam isso. Temos de tudo: assassinatos de cidadãos, de policiais, assaltos da pesada a bancos, guerrilhas urbanas, bangue-bangue, arrastões, um cenário de caos. Na sua proposta de governo, inclusive, havia dados detalhando a situação. Na semana passada, o Blog do Zé Dudu divulgou com exclusividade a taxa de homicídios dos municípios paraenses e seu enquadramento no decreto do presidente Jair Bolsonaro para a liberação da posse de arma de fogo. Pouquíssimos municípios, na verdade nove, têm taxa inferior a dez assassinatos por 100 mil habitantes no Pará. E o senhor já começou indo atrás do presidente para garantir a presença de homens da Força Nacional no estado. O que, de prático, o senhor pretende fazer para tirar nossos municípios da vergonhosa situação de “mais violentos” ou “entre os mais violentos do Brasil” e, principalmente, garantir a sensação de segurança e paz em todo o Pará, para além de pedir apoio da Força Nacional?

Helder Barbalho – Desde o início do governo, nós colocamos isso [o combate à criminalidade] como pauta principal da nossa gestão. Já iniciamos com a Operação Gênesis, que ampliou – na Região Metropolitana de Belém, especialmente nos bairros estatisticamente mais violentos – a presença da polícia. Por meio dessa iniciativa, nestas duas semanas de governo, alcançamos redução de 37% no número de homicídios e queda de 43% no número de roubos. Paralelamente, fizemos a solicitação da Força Nacional de Segurança. Estamos deslocando policiais que estavam em funções administrativas para que possam ir para atividades de presença e suporte às ações de segurança. Deslocamos, ainda, 60 viaturas que estavam na atividade administrativa da polícia para o patrulhamento, principalmente no horário entre cinco da tarde e meia-noite, que registra a maior taxa de violência no dia. Estamos trabalhando com foco e estratégia nos bairros mais violentos, nos quais os índices estatísticos mostram criminalidade mais elevada. Iniciamos um processo de diálogo para diminuir a escalabilidade de policiais, tanto na Casa Militar quanto na Governadoria e Vice-Governadoria, reduzimos em 50% o efetivo e abrimos diálogo com o Tribunal de Justiça e Tribunais de Contas para que os cerca de mil militares que estão nessas atividades possam retomar às ruas e ampliar a sensação de segurança. Fizemos na quinta-feira [dia 17] reunião com as 31 guardas municipais para envolver os cerca de 5 mil profissionais dessa categoria e queremos motivar outros municípios paraenses a implantar suas guardas a fim de que possamos ter a presença dos agentes de segurança locais trabalhando de forma integrada com as polícias do estado. Almejamos fazer a transversalidade da presença do Estado com políticas de cidadania nas áreas de maior conflito, com investimentos em saúde, educação, infraestrutura e geração de emprego.

Zé Dudu – Só para complementar: em relação a essa movimentação de pessoal das forças de segurança, ela se dá na Região Metropolitana de Belém, né?

Helder Barbalho – Nós estamos fazendo pelos bairros das cidades que, estatisticamente, têm maior percentual de violência. Para você ter ideia, Zé Dudu, a média do Brasil é de 30 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes; a média do estado do Pará é de 51 mortes para 100 mil; a média de Belém, 77 por 100 mil. E, dentro de Belém, temos quatro bairros onde a taxa de homicídios chega a absurdas 123 mortes para cada 100 mil habitantes.

Zé Dudu – No Pará, só há nove municípios com taxa inferior a 10 assassinatos por 100 mil.

Helder Barbalho – Então, nós estamos nesse critério, entendeu? O nosso critério é absolutamente técnico, no sentido de poder fazer um enfrentamento a partir dos números estatísticos dos registros de violência, independentemente da região ou município.

Zé Dudu – O Governo do Pará oferta o 2º pior ensino médio público do país. E nos municípios paraenses oferta-se um dos cinco piores ensino fundamental. Este ano, teremos avaliação de nível nacional para apuração do famoso e temido Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Eu sei que o senhor vai pegar o bonde andando, ou seja, terá pouco ou nenhum tempo para produzir as mudanças estruturais de que a educação precisa. Mas também poderá passar vergonha quando o Ideb sair ano que vem, afinal, o resultado a ser mensurado pela educação oferecida este ano já está sob a sua batuta. Então, quais as mudanças estruturais, do ponto de vista técnico e pedagógico, o senhor pretende implementar para qualificar e mudar a cara do ensino médio público, que hoje é motivo de elevada taxa de evasão e prepara mal adolescentes e jovens do estado?

Helder Barbalho – Em primeiro lugar, na avaliação que a cada ano ímpar é feita, nós não estaremos sendo avaliados. Na verdade, ela [a avaliação da qual se extrai o Ideb] será consequência de ações da gestão anterior que retratam justamente a falência da educação, fruto do descaso absoluto de um governo que não teve a capacidade, a responsabilidade e a sensibilidade de entender o quanto a educação é estratégica e fundamental para o desenvolvimento. Acabei de vir de Barcarena, onde a escola tecnológica, que há mais de nove anos iniciou a sua edificação, foi abandonada pelo governo anterior. Parauapebas é outro exemplo porque também tem aí o início de esqueleto de uma escola tecnológica. Cito esses exemplos, mas poderia ficar a tarde inteira apresentando outros, frutos de descaso para com a educação que resultou no cenário que nós estamos vivendo atualmente.

Zé Dudu – E qual a sua estratégia para reverter esse quadro?

Helder Barbalho – Primeiro: construir um plano de educação que possa retratar a realidade de cada região. Nós temos 22 Unidades Regionais de Educação (UREs); nós vamos fazer 22 planos de educação para implementar nessas UREs, empoderando, portanto, as unidades regionais e tirando o protagonismo do núcleo central. Para garantir qualidade e eficácia na aplicação desses planos, nós estamos tirando o papel da indicação política para as UREs e fazendo, pela primeira vez na história, um processo seletivo para a escolha dos gestores das Unidades Regionais. Nós estamos contratando a Fundação Lemann, junto com entidades que têm expertise, para preparar o processo seletivo e, a partir daí, implementar o conceito educacional e pedagógico que nós desejamos. Em paralelo a isso, nós já iniciamos o processo de diálogo com o Sintepp [Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará] e com os professores para resgatar a credibilidade do relacionamento, inclusive tratando do planejamento para as melhorias de remuneração. Estamos, com afinco, lutando para que o mais rápido possível nós possamos reestruturar a rede física das escolas estaduais, bem como para unificar o calendário educacional. Com relação ao transporte escolar, nós estamos avaliando possibilidades de melhorar o repasse para o serviço nos municípios, com vistas a diminuir a evasão escolar e melhorar a qualidade do transporte oferecido. Portanto, são diversas as iniciativas que estão sendo construídas por nós para revertermos o quadro de uma educação precária.

Zé Dudu – Na Lei Orçamentária deste ano, que o Blog do Zé Dudu já detalhou e fez publicação sobre, consta que o Pará estima arrecadar da Região de Integração de Carajás cerca de R$ 2 bilhões em receitas próprias. Entretanto, o Blog levantou que apenas R$ 5 milhões e 200 mil serão retornados em forma de serviços ao município de Parauapebas, que é uma das forças da região. É muito pouco diante do retorno que Parauapebas dá ao Governo, principalmente em forma de royalties de mineração e da taxa de fiscalização da atividade minerária. Ano passado, o Governo do Estado faturou das costas do município nessas duas frentes mais de R$ 300 milhões. Assim, o que o senhor fará para corrigir essas distorções, que historicamente penalizam municípios do interior, que sustentam um Governo do Estado notadamente ausente? O senhor fará valer o “Helder Presente!” com obras em nossa região, diminuindo a distância virtual que nos separa da capital? O que os seus 46.426 eleitores parauapebenses e os 210 mil habitantes do município podem esperar, em termos de serviços sociais básicos como forma de retorno pela contribuição do município à economia do Pará?

Helder Barbalho – Eu sempre pautei o meu comportamento buscando estar próximo da população. Agora mesmo, nestes 18 dias à frente do governo, eu tive a oportunidade de fazer a posse não apenas na capital, mas fazendo em Santarém e também em Marabá. Já tive a oportunidade de visitar os municípios de Barcarena, Capanema e Santa Luzia do Pará. E neste final de semana já vou a outros dois municípios, da ilha do Marajó. Então, rapidamente, em duas semanas, eu já estive presente em pelo menos dez municípios do estado. É claro que as pessoas não querem a presença física apenas do governador, querem a presença do Estado e a presença do Governo. O que eu desejo? Desejo, primeiro, que cada município possa, dentro do seu diagnóstico, ter um planejamento e uma prioridade. Parauapebas, particularmente, sente muita ausência do Governo, seja em investimentos, seja em equipamentos públicos. Inclusive, nós estamos muito preocupados com a rede escolar em Parauapebas porque boa parte das escolas funciona em prédios alugados ou cedidos pela prefeitura ao Governo do Estado, em condições precárias. Mas acho, Zé Dudu, que nós temos a responsabilidade de não pensar apenas nessa relação do que Parauapebas oferece ao Pará e o que o Pará oferece a Parauapebas. Eu acho que nós temos que avaliar o seguinte: o que Parauapebas oferece para o Pará e o que o Pará pode oferecer para Parauapebas e para o interior do estado? Parauapebas, seguramente, apesar de todos os problemas que possui, graças à riqueza do seu subsolo, é um município que tem a oportunidade de conviver com uma receita per capita absolutamente diferenciada comparada com outras localidades. Então, a minha atenção será por Parauapebas e por todos os municípios do estado. Lembro que é necessário que cada um tenha a sua prioridade, já que nós não temos recursos suficientes e a condição de atender a todos os lugares, em todas as suas demandas. Portanto, esse planejamento para concentrar naquilo que é estratégico, naquilo que é fundamental, é o que eu buscarei pautar. Por exemplo, tem município cuja prioridade é segurança pública; há aqueles onde a prioridade é titulação de terra; em outros há visível escassez de serviços de saúde. Então, para cada região, em face à grandiosidade do nosso estado, nós vamos levar em conta uma prioridade.

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Zé Dudu – O senhor tem um plano específico para captar essa informação nos municípios, as necessidades de que fala?

Helder Barbalho – Nós estamos dialogando, mas acho que o fundamental nessa relação é que cada município apresente as suas demandas. Estou estimulando cada prefeito, com as câmaras municipais e as entidades de representação da sociedade local, a apresentar as suas pautas, em ordem de prioridade, com as justificativas das razões pelas quais se chegou à determinada prioridade. Paralelo a isso, já orientei a Sedeme [Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia] a dialogar com a UFPA [Universidade Federal do Pará], e esta se comprometeu, inclusive, em interagir com a Unifesspa [Universidade do Sul e Sudeste do Pará] e a Ufopa [Universidade do Oeste do Pará] para, juntas, apresentarem um plano vocacional de cada município do estado. Esse plano vocacional será a minha bússola para o planejamento das ações de desenvolvimento. Assim, quando tiver de fazer qualquer investimento que esteja vinculado ao desenvolvimento, vou primar pela análise técnica, seguindo a vocação local e regional.

Zé Dudu – Carajás é uma das regiões que mais produzem riquezas no Brasil e, disparado, a que mais gera divisas, ou superávit, na balança comercial. Temos uma tabela periódica inteira em recursos minerais, gado, cacau, soja, milho, mandioca, pão, leite e mel. E, também, uma mão de obra potencial, jovem e ociosa. No entanto, temos também uma pobreza crescente, que avança em taxa maior que a da produção de riquezas. O Ministério do Desenvolvimento Social contabiliza mais de 250 mil pessoas de baixa renda espalhadas nas microrregiões de Parauapebas e Marabá, apenas. São cidadãos abaixo da linha da pobreza, que sobrevivem com menos de meio salário mínimo por mês. Esse contrassenso, de muita pobreza às margens de zonas de riqueza, é típico do Pará e não é exclusividade de Carajás, embora aqui se reflita com mais força por ser uma região sabidamente rica. Que políticas públicas o senhor pretende implementar para gerar emprego, renda, oportunidades de negócios, diminuir as desigualdades sociais e livrar a cara de seu governo? Isso porque ano que vem, 2020, é período de censo demográfico, e o recenseamento pode encontrar — ou revelar — um Pará em estado de miséria e de deterioração social, que vem sendo construída por décadas. Todo esse resultado fatalmente vai acabar no seu colo, e o senhor tem tempo curto para mudar o curso dessa história. Como o senhor vai enfrentar esse conjunto de questões: oferecer políticas públicas de engajamento social e se preparar para receber os resultados do censo, os quais, diga-se de passagem, vão gerar o IDH, que há décadas envergonha o Pará?

Helder Barbalho – Eu não tenho expectativa alguma de livrar a cara nem do meu governo, nem de ninguém. Eu tenho responsabilidade em trabalhar para melhorar a realidade do nosso estado, mas sabendo que nós estamos recebendo uma herança que traz problemas gravíssimos ao nosso estado. Acho que as soluções passam por ações do Estado e, também, por ações que envolvam o Governo Federal, mas nesse caso particular, Zé Dudu, o município tem um papel muito importante. Quando falamos, por exemplo, sobre os municípios do Marajó, o Estado tem uma responsabilidade muito maior de garantir uma boia de salvação, porque esses lugares pobres não têm qualquer alternativa, seja de receita, seja de perspectiva econômica. Com relação aos municípios que você citou, Parauapebas e Marabá, acho que o problema não é dinheiro. O problema deles é estratégia, é planejamento, é gestão, é interação com a atividade econômica, e o Estado vai participar como ator parceiro dos municípios para liderar esse processo. Agora, imaginar que o problema para o desenvolvimento econômico de Parauapebas é injetar mais recurso público em Parauapebas, desculpe-me, mas eu discordo disso. Acho que o problema não é dinheiro, não. Dinheiro tem. E sobrando.

Zé Dudu – Concordo, mas todo esse dinheiro tem gerado 250 mil pessoas desempregadas, só nessas duas cidades.

Helder Barbalho – E o que que está sendo feito com a maior renda per capita do Brasil, que é o caso de Parauapebas, para mudar isso?

Zé Dudu – Eu tenho questionado muito o prefeito a respeito disso, ele é seu parceiro de partido.

Helder Barbalho – Seguramente, se eu colocar mais alguns milhões aí, não vai mudar, se continuar na regra que hoje está. Porque o problema não é dinheiro. Não é porque é meu aliado que está há dois anos na prefeitura — e aí não quero desconsiderar quem tenha estado antes, mas estou citando particularmente esse mandato — que eu possa imaginar que o problema seja recurso. Não adianta eu arrumar milhões do Estado para Parauapebas se não tiver uma estratégia de planejamento, inclusive, chamando a Vale e compreendendo o seguinte: “Olha, nós vamos ficar só nesse ciclo vicioso de ‘eu pago meus tributos, e tudo certo’? Mas e aí, vai para onde isso? Desse dinheiro vai ser feito o quê? Como é que a gente gera emprego, como é que a gente faz com que isso chegue à base da sociedade?” Eu só acredito em solução que seja pautada na construção com base em planejamento que passe por diversas agendas, que gerem emprego e que gerem desenvolvimento. Então, particularmente aí, na região de Parauapebas e entorno, nos próximos quatro anos, nós teremos algumas agendas profundamente estratégicas. Não tenho dúvida de que nós vamos conseguir a verticalização mineral para região de Marabá e entorno. Inclusive, vamos ter a construção de termelétricas nessa região. Nós vamos ter muito replantio para reflorestamento, inclusive para as termas. Isso tudo são pautas extremamente significativas e que vão gerar emprego. Agora, se o município não se preparar e não se planejar, vai reviver um ciclo. Eu tenho batido muito nessa tecla. Por exemplo, a região de Tucuruí — fugindo um pouquinho aí do raio de Parauapebas. Em Tucuruí, por exemplo, nós vivemos alguns ciclos. Nós vivemos o ciclo da hidrelétrica, a cidade explodiu; acabou a hidrelétrica, a cidade… o efeito sanfona. Aí veio o ciclo da eclusa: novamente, a cidade explodiu; aí acabou a obra da eclusa, a cidade novamente murchou. Qual é o meu pensamento? Nós temos que aproveitar o espelho d’água de Tucuruí e transformar aquilo num grande polo de piscicultura, porque aí não é uma coisa cíclica. Você estabelece efetivamente uma economia que gera emprego para o piscicultor, gera verticalização com a indústria da cadeia produtiva e aí você acha uma vocação. Por isso que eu lhe disse que pedi ajuda à Universidade: quero em mãos a vocação de cada região do estado. Porque as coisas estão acontecendo aqui — e aí não quero aqui nominar o culpado —, muito mais pela espontaneidade da vocação regional do que por meio de um planejamento vocacional que construa as condições para que isso dê certo e seja sustentável. E isso, esse planejamento vocacional, eu acho que é estratégico para que nós possamos construir um novo ambiente para o estado.

Zé Dudu – Governador, seus antecessores foram muito subservientes à multinacional Vale. Pouco cobraram da Vale que ela trouxesse, além do recurso que paga, alguma coisa para o estado, para as regiões onde ela minera. Como é que vai ser a sua relação com a Vale?

Helder Barbalho – Minha relação com a Vale será de altivez, de respeito ao ente privado. Agora, primeiro, a minha orientação é de que haja absoluto monitoramento de competência para fazê-lo, com relação às questões fiscais e tributárias, no que diz respeito à operação, seja da Vale, seja de qualquer outra empresa no estado. Esse é um lado. Segundo, cobrar que haja maior interface, seja da Vale, seja dos demais, para com o desenvolvimento regional e social das áreas do estado onde está localizado o empreendimento. Terceiro, a verticalização do produto da atividade mineral. Acho que estes três pontos são o alvo de cobrança. Por outro lado, estarei oferecendo segurança jurídica, previsibilidade e agilidade naquilo que couber ao Estado, para que nós possamos ter um ambiente acolhedor para investimentos.

Zé Dudu – Como dito anteriormente, o Pará parece esquecido pelas autoridades federais, apesar de tanto contribuir com o país. Um grande exemplo disso é a pavimentação da Rodovia Transamazônica (BR-230), que entra ano, sai ano é prometida, colocada no orçamento, mas jamais saiu do papel. Acredito que boa parte da culpa disso acontecer é a falta de pressão política da bancada paraense no Congresso Nacional. O senhor passou boa parte dos últimos anos como ministro em Brasília e deve ter recebido muita pressão de políticos de vários estados, então é sabedor, como poucos, de como funcionam as coisas na capital do Brasil. Assim sendo, o senhor pretende trabalhar junto à bancada do Pará para mudar esse tratamento do Governo Federal com o estado? Como isso será feito?

Helder Barbalho – Primeiramente, eu, inclusive, recebi o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, aqui com a bancada, sinalizando a pauta que nós desejávamos que houvesse solidariedade e, entre elas, algumas questões que são relevantes. Primeiro, a Lei Kandir é algo absolutamente central e prioritário da nossa parte. Além disso, a revisão do processo tributário que envolve energia. Não é possível que um estado produtor de energia, exportador de energia, tenha uma energia tão cara e de tão baixa qualidade e não receba qualquer benefício por isso. Pelo contrário, o ICMS acaba sendo cobrado no destino, e não na origem. Isso é uma distorção absolutamente prejudicial e equivocada. A outra questão que acho que é relevante — e eu faço justiça à bancada — é o tamanho da nossa representatividade. Nossa bancada é uma bancada aguerrida. Agora, claramente, nós temos uma representação que acaba nos fragilizando. Nós temos 17 deputados e solicitamos ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que ele colocasse como prioridade na sua reeleição a votação que está parada na Casa, com a decisão já do TSE, que paute a nossa representação parlamentar para que possa estar efetivamente de acordo com a proporcionalidade da nossa população, o que nos daria 21 deputados federais. Isso é fundamental porque aumenta a nossa representação e nos dá força política. Entendo que o estado do Pará deve, em paralelo a isso, enxergar parceiros para pautas comuns para se associar, para que nós possamos ter voz e que as nossas vozes possam ecoar e sensibilizar um colegiado de 513 parlamentares, em que cada um está ali para lutar pelas conveniências e interesses dos seus estados. Portanto, se nós não tivermos esta articulação, ficaremos apenas com os nossos 17, por mais aguerridos que sejam, sem que reverberem as suas posições.

Zé Dudu – Certo, mas o senhor não tem nenhum plano, assim, para gerir essa intermediação entre o Governo Federal e o Pará, por intermédio da nossa bancada?

Helder Barbalho – Nós já conversamos com a bancada. Inclusive, esta foi uma pauta comum da bancada. Reunimos com o presidente Rodrigo Maia, já finalizamos com a nossa pauta. Quando ele veio aqui para pedir o voto da bancada, já levou daqui a pauta do nosso estado, assumindo compromisso com o Pará, e eu estarei muito próximo da bancada por entender que o comportamento equivocado da gestão anterior, de isolamento, é prejudicial. Nós temos muitas agendas, e agendas que são absolutamente vitais para o estado, que dependem dessa interlocução com Brasília.

Zé Dudu – Apesar de ser lido em todo o Pará, o blog tem sede em Parauapebas, no sudeste paraense. Quero agradecer por ter aberto uma brecha em sua agenda para responder a estas perguntas e, finalizando, quero que o senhor deixe uma mensagem ao povo da região de Carajás, sofrido pela ausência do governo. Carajás foi muito citada pelo senhor durante a campanha.

Helder Barbalho – Queria agradecer a oportunidade, desejar muito sucesso a todos e reafirmar meu compromisso de trabalhar por toda a nossa região. Que as regiões sul e sudeste do Pará tenham absoluta convicção e certeza de que eu serei um governador atento e que buscarei fazer com que o governo esteja próximo da população. Trabalharei muito para diminuir as desigualdades e garantir um futuro melhor a todos os paraenses.