Entrevista: Breno Augusto dos Santos, descobridor do ferro de Carajás

Há 54 anos, o geólogo bateu com o martelo em uma pedra e saiu um pó vermelho. Encontrou uma reserva de 18 bilhões de toneladas de minério de ferro!
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Neste sábado, dia 31 de julho de 2021, faz 54 anos que o geólogo Breno Augusto dos Santos, hoje com 81 anos de idade, descobriu a maior jazida de minério de ferro do Brasil, uma das maiores reservas geológicas do mundo, com 18 bilhões de toneladas do mineral. Ele, porém, não estava em busca de ferro e sim de manganês, acabando por também descobrir a Serra Buritirama, uma das maiores minas de manganês do planeta.

Mais de meio século depois, porém, Breno, que hoje vive no Rio de Janeiro e concedeu entrevista exclusiva ao Blog do Zé Dudu, faz um alerta a Marabá, Parauapebas, Curionópolis e Canaã dos Carajás: mina acaba e esses municípios não estão se preparando para esse momento. “Se esses municípios não formarem uma competência local, para ter uma solução futura, a história vai ser muito triste”, vaticina.

Em 1967, Breno Augusto Santos, então com 27 anos de idade, era gerente de uma equipe de pesquisadores da empresa norte-americana United States Steel, na época a maior siderúrgica do mundo.  À frente do grupo de geólogos, ele estava encarregado de encontrar manganês, mineral escasso nos EUA, que travavam a chamada Guerra Fria com a União Soviética, esta com bastante manganês, muito estratégico para a produção de aço.

” Bati o martelo numa pedra e saiu um pó vermelho”

No dia 31 de julho, ele retornava, de helicóptero, da Ilha de São Francisco, na região do Xingu, para a Serra do Cinzento, em seu “primeiro voo de helicóptero, morrendo de medo”, e resolveu traçar uma rota sempre sobrevoando sobre os rios, “porque, se o helicóptero caísse, cairia no rio”.

Assim, sempre que havia um pedral, o piloto descia, abastecia o helicóptero, e seguiam em frente. Na época, na floresta não havia clareiras, lembra o geólogo. Então, quando sobrevoavam esta região do sudeste do Estado, Breno Santos notou que as cabeceiras dos igarapés Carapanã e Cateté quase se encontravam, unindo a bacia do Rio Xingu com a do Rio Tocantins.

“Entre as duas cabeceiras estava Serra Arqueada, onde havia uma pequena clareira. Quando o helicóptero pousou, tudo era preto no solo. Logo imaginei que era manganês. Bati o martelo numa pedra e saiu um pó vermelho, típico de minério de ferro. O chefe disse que ferro não interessava”, conta Breno, que deveria continuar procurando manganês.

“A agulha do magnetômetro chegava a sair escala, de tanto ferro que havia”

Ele resolveu voltar à região, mas o helicóptero havia sofrido um acidente. Breno, então, veio em uma pequena aeronave Cessna, de um piloto conhecido como Adão. Ao sobrevoaram Serra Norte, ele viu que o solo era igual ao da primeira clareira. “Estava mais ou menos comprovado de que ali havia, de fato, minério de ferro”.

Porém, na busca pelo manganês, o chefe da empresa norte-americana, mesmo assim, não mostrou interesse e contratou um avião de pesquisas para sobrevoar Carajás e o Amapá. “Ele queria ver se havia alguma camada magnética, associada ao manganês do Sereno, que já havia sido descoberto”.

“Não havia nenhuma no Amapá nem no Sereno, mas, quando o avião passou sobre a clareira de Serra Norte, a agulha do magnetômetro chegava a sair escala, de tanto ferro que havia. No final de agosto, três geólogos visitaram as clareiras e constataram que era tudo ferro”, narra o geólogo.

“Feita a pesquisa, criaram uma companhia chamada Amazônia Mineração”

Paralelamente, como estava encarregado de procurar manganês, ele buscou uma serra de acesso mais fácil de barco, saindo do Igarapé do Sereno, e escolheu a Serra Buritirama para trabalhar. “Uma equipe saiu de barco para abrir a clareira para o helicóptero. Foi só quando o chefe veio, pois estava interessado no manganês, não no ferro. Mas, quando viu o tamanho que era, ficou espantado. ‘Isso aqui é muito grande e a minha empresa não vai ter competência política para ficar com isso aqui’, exclamou”.

A Vale [então estatal] só entra na história, a partir de 1970, em pleno regime militar, quando houve pressão do governo para que ela se associasse à United States Steel. “Feita a pesquisa, criaram uma companhia chamada Amazônia Mineração, com 51% da Vale e 49% da United Steel. A associação era tão importante que foi celebrada no gabinete do presidente Emílio Garrastazu Médici”.

Breno lembra que, em relação ao manganês, foi feita uma pesquisa muito pequena, quando a United Steel se associou com a Vale, que não se interessou em comprar o mineral, ficando a área abandonada por muito tempo. “Hoje, a Buritirama é uma das maiores minas de manganês do mundo, já produziu mais do que Serra do Navio e a mina do Azul”.

“Na época, o que não se imaginava era que na região pudesse ter também tanto cobre a tanto ouro”

A reserva geológica descoberta há 54 anos, guardava na época 18 bilhões de minério de ferro, sendo a maior jazida de ferro de alto teor do mundo. “Existem reservas maiores, mas não com o mesmo teor”.

“Na época, o que não se imaginava era que na região pudesse ter também tanto cobre a tanto ouro. Se tivesse só ferro e manganês, já estaria de bom tamanho”, diz o geólogo, detalhando: “Quando começou a exploração, em 1985, a previsão era da retirada de 20 milhões de toneladas/ano. Ou seja, daria para mais de 400 anos. Hoje Carajás produz 200 milhões de t/ano. Em 1985, o total do mercado interoceânico, isto é, que os navios transportavam anualmente, era de 400 milhões t/ano. Hoje Carajás já produz metade disso, com o surgimento da China. O mercado da Vale naquela época era somente Japão, Coreia e Alemanha. Hoje, o maior cliente da Vale é a China”.

Ele afirma que, “com uma previsão otimista, a extração de minério de ferro rico, deve se estender por mais de 100 anos”; e, a continuar nesse ritmo de valorização, “mais uns 100 anos com minério pobre”. A produção mineral em si, avalia Breno Santos, está sendo bem feita, tanto pela Vale quanto pelas empresas menores, “a tecnologia usada é de ponta, não só pela Vale quanto pela Buritirama”.

“O Projeto Grande Carajás foi para inglês ver”

“Mas a região é tão rica, que é muito pouco produzir só minério. A ocupação ao redor foi feita só pela pecuária, que dá pouco emprego e faz um grande desmatamento. Então, não houve um plano de governo para que a ocupação fosse feita com maior controle ambiental e melhor resultado social também”, observa Breno.

“O Projeto Grande Carajás, segundo ele, em verdade “foi para inglês ver, não cumpriu nada”. “A única coisa que saiu do projeto foram algumas guseiras, e nem todas deram certo, foi algo muito mal planejado. É o grande mal que se fez. Não se pode culpar as companhias de mineração, elas estão fazendo papel delas.”

“Nós, como sociedade, é que fomos incompetentes para encontrar melhor solução para Carajás. Faltou inovação, o que tem em Carajás? Uma grande reserva mineral. A maior reserva mineral do Brasil hoje está em Carajás, não só de ferro, mas de cobre também. A maior mina de cobre do Brasil está em Carajás. A mina do Salobo é uma mina de importância mundial, outras estão sendo descobertas, a região vai ser sempre uma produtora de cobre também, cobre com ouro junto, todo cobre de Carajás tem ouro junto”.

“Mina acaba. Os municípios têm de se preparar para esse momento”

Breno Augusto Santos diz que, além da riqueza de Carajás, temos, ainda, água à vontade, de grandes rios, duas das maiores hidrelétricas brasileiras, “somos uma região rica em energia”, a melhor ferrovia no Brasil, rodovias razoáveis e dois portos importantes, São Luís e Vila do Conde.

“E nós não sabemos fazer nada com isso. Esse é o problema, faltou inovação. O que acontece? Marabá, Parauapebas, Curionópolis e Canaã, estão recebendo agora, bastante royalties, bastante impostos. Esses três municípios, em 2022, vão receber um terço do ICMS de todo o Pará. E Parauapebas vai receber mais que Belém”.

Ele destaca que a mineração está trazendo benefícios para os municípios, diz toda uma atividade que gira em torno dela. “Como gera empregos de qualidade, o empregado vai comprar no comércio local”, exemplifica.

“Agora, mina acaba, o oeste norte-americano sofreu, após a corrida do ouro, com as cidades-fantasmas. Então, os municípios de Marabá, Parauapebas, Canaã e Curionópolis têm de saber que um dia o minério vai acabar, pode ser daqui a 40, 50, 100 anos. Enquanto isso, eles têm de se preparar para esse dia. Não está havendo essa preparação”, alerta.

“Não adianta ficar culpando a Vale, a Buritirama e outras companhias”

Para o geólogo descobridor do ferro de Carajás, os municípios não têm de ficar com o pires na mão, esperando ajuda de fora. Têm de criar uma competência local. “E a melhor maneira de se criar competência local é com educação de qualidade, para as crianças de hoje, porque elas é que vão defender os municípios. Se não formar uma competência local, para ter uma solução futura para esses municípios, a história vai ser muito triste”, afirma.

Na opinião dele, não adianta ficar culpando a Vale, a Buritirama e outras companhias. “Elas estão fazendo seu papel, tirando minério para ganhar dinheiro e pagar os acionistas. Esse é o papel delas, não adianta chorar. Fecha a mina e não tem mais dinheiro nas cidades, ou alguém tira o minério. Cabe aos governos investirem esse dinheiro, cabe à sociedade cobrar dos governos e cabe também à sociedade se capacitar, para fazer o papel dela”.

Por Eleuterio Gomes – de Marabá