Há acontecimentos na vida que desafiam qualquer explicação lógica. São momentos que só podem ser compreendidos pela fé. Para mim, existe apenas uma resposta: Deus.
Como explicar que um menino nascido em Santa Luzia, no interior do Maranhão, criado até os nove anos em uma cidade que sequer possuía telefone ou televisão, pudesse um dia entrar no vestiário da Seleção Argentina de Futebol e acompanhar, lado a lado, entrevistas exclusivas de Lionel Andrés Messi e Juan Román Riquelme?
Naquela época, o mundo chegava à nossa casa apenas por um rádio de pilha. As emissoras de São Luís e Teresina eram nossa ligação com o Brasil. A Rádio Pioneira de Teresina dominava a programação, misturando música, notícias e transmissões esportivas. Era através daquele pequeno aparelho que eu imaginava os grandes estádios do futebol brasileiro. Fechava os olhos e sonhava em conhecer o Maracanã, o Mineirão, o Morumbi e tantos outros que os narradores descreviam com tanta emoção.
Em 1972, minha família mudou-se para o Pará. Fomos morar às margens da então empoeirada Rodovia Transamazônica. A vida continuou difícil. Para estudar, caminhava cerca de oito quilômetros por dia entre a ida e a volta da escola. Muitas vezes não havia merenda. As dificuldades eram enormes, mas nunca deixei de acreditar que Deus tinha um propósito para minha vida.
Os anos passaram. Com muito esforço, perseverança e dedicação, tornei-me jornalista. Especializei-me em grandes coberturas nacionais e internacionais, acompanhando visitas de presidentes dos Estados Unidos e de outras nações, visitas de papas, reuniões de cúpulas internacionais e grandes eventos esportivos – minha paixão desde a adolescência vivida na Transamazônica.
No dia 18 de junho de 2008, vivi uma experiência que jamais esquecerei.
Brasil e Argentina se enfrentariam no Mineirão, em Belo Horizonte, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo FIFA de 2010. Meu credenciamento para a cobertura chegou a ser negado pelo responsável da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), J.B. Teles. Humanamente, ali parecia terminar um grande sonho.
Mas Deus abriu outra porta.
Após a intervenção de Rodrigo Paiva, então assessor de comunicação da CBF, meu credenciamento foi finalmente autorizado.
No dia 17, acompanhei o treinamento da Seleção Brasileira. A Argentina não realizou o tradicional reconhecimento do gramado. Na manhã seguinte, visitei rapidamente o Mercado Central de Belo Horizonte e, logo após o almoço, segui para o Mineirão. Cheguei por volta das 14h30 para um jogo marcado apenas para as 21h.

Era minha primeira cobertura de uma partida da Seleção Brasileira válida pelas Eliminatórias de uma Copa do Mundo. Caminhando pelos corredores do Mineirão, via chegando jornalistas que eu conhecia apenas pela televisão. Pela primeira vez eu estava ali, usando a mesma credencial que eles.
O jogo terminou empatado em 0 a 0. A torcida mineira protestou contra o técnico Dunga, chamando-o de “burro”. Depois da partida, ele concedeu entrevista coletiva. O treinador argentino, Alfio Basile, também falaria à Imprensa, mas desistiu após esperar por muito tempo.
Foi então que aconteceu algo completamente inesperado.
Os jornalistas argentinos perceberam que Basile não iria mais à coletiva e decidiram seguir diretamente para a porta do vestiário da Seleção Argentina.
Sem pensar duas vezes, resolvi acompanhá-los.
Naquele instante eu não imaginava que aquela simples decisão me proporcionaria uma das experiências mais extraordinárias de toda a minha carreira.
Ao chegarmos ao vestiário, havia um forte esquema de segurança. Permanecemos aguardando por alguns minutos. Eu observava tudo em silêncio e me perguntava se os jogadores ainda estariam ali.
De repente, começaram a sair.
Os jornalistas acompanharam os atletas em direção ao ônibus, mas eu permaneci próximo à entrada do vestiário.
Foi nesse instante que percebi um repórter da Fox Sports Argentina entrevistando um jogador argentino. Aproximei-me discretamente e permaneci ao lado da equipe, respeitando o trabalho deles.

Poucos segundos depois aconteceu o inimaginável: chegou para conceder entrevista exclusiva à Fox Sports ninguém menos que Lionel Andrés Messi. O repórter era uma verdadeira lenda do jornalismo esportivo argentino: Marcelo Benedetto.
Peguei imediatamente o gravador do meu programa de rádio, Canaã Notícia, e comecei a registrar toda a entrevista. Não fiz perguntas, porque sabia que aquela entrevista pertencia exclusivamente à Fox Sports. Minha função era apenas viver aquele momento histórico com respeito e profissionalismo.
Confesso que senti um calafrio.
Minhas pernas tremeram.
Eu olhava para Messi a poucos metros de distância e, ao mesmo tempo, lembrava daquele menino pobre que caminhava quilômetros para estudar e sonhava ouvindo futebol em um simples rádio de pilha.
Naquele momento, perguntei a mim mesmo: “Meu Deus… isso está realmente acontecendo? Ou estou vivendo um sonho?”.
Naquela noite de 18 de junho de 2008, eu ainda não tinha a dimensão da grandeza histórica daquele momento. Estava diante de um jovem craque argentino que, anos mais tarde, conquistaria o mundo e seria reconhecido como um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos.
Hoje, 18 anos depois daquele encontro inesquecível, Lionel Messi prepara-se para disputar a terceira final de Copa do Mundo de sua extraordinária carreira, diante da Seleção da Espanha. Nesta Copa do Mundo, também tornou-se o maior artilheiro da história dos Mundiais, quebrando um recorde que durante décadas parecia inalcançável.
Naquele instante eu não poderia imaginar que estava frente a frente com um jogador que escreveria definitivamente seu nome entre os maiores atletas da história do esporte mundial. Deus permitiu que eu registrasse aquele momento quando tudo ainda fazia parte do início de uma trajetória que se transformaria em uma verdadeira lenda do futebol.
Quando a entrevista terminou, Messi saiu acompanhado pelos seguranças.
Pouco depois chegou outro gigante do futebol mundial: Juan Román Riquelme.
Novamente permaneci acompanhando toda a entrevista realizada pela Fox Sports, registrando cada detalhe daquele momento inesquecível.
Naquela época, Riquelme já era um dos maiores ídolos da história do futebol argentino. Com o passar dos anos, tornou-se presidente do Boca Juniors, dando continuidade à sua história de amor com o clube mais tradicional e um dos mais vitoriosos da Argentina.

Mas Deus ainda havia reservado mais uma surpresa.
Depois das entrevistas, tive autorização para entrar no próprio vestiário da Seleção Argentina.
Ali, pude observar a equipe da Associação do Futebol Argentino (AFA) organizando uniformes, equipamentos e todo o material da delegação para o retorno à Argentina. Outros jornalistas também entraram.
Ao final, integrantes da AFA distribuíram as frutas que haviam sobrado no vestiário. Peguei duas maçãs e as trouxe comigo para Canaã dos Carajás como lembrança daquele dia inesquecível.
Pode parecer um detalhe simples, mas, para mim, aquelas duas maçãs representavam muito mais do que um souvenir. Elas simbolizavam a prova concreta de que Deus havia conduzido meus passos desde os tempos difíceis da infância até um lugar onde eu jamais imaginei estar.
Voltei para a sala de Imprensa completamente emocionado.
Fiquei sentado durante muito tempo, em silêncio.
Olhava para minha credencial, fechava os olhos e tentava compreender tudo o que havia vivido.
Parecia um sonho.
Naquele instante compreendi que Deus escreve histórias que nenhum ser humano seria capaz de imaginar.
Quem diria que aquele menino pobre de Santa Luzia, no Maranhão, criado ouvindo futebol em um rádio de pilha e caminhando quilômetros pelas estradas da Rodovia Transamazônica para estudar, pisaria um dia no vestiário da poderosa Seleção Argentina, acompanharia de perto entrevistas exclusivas de Messi e Riquelme e viveria uma das experiências mais extraordinárias de sua carreira?
Quando deixei o Mineirão naquela noite, olhei para o céu de Belo Horizonte e agradeci a Deus em silêncio.
Dentro da minha mochila estavam duas simples maçãs trazidas do vestiário da seleção argentina. Para muita gente, eram apenas duas frutas. Para mim, eram o símbolo de uma promessa cumprida por Deus.
Enquanto caminhava em direção ao estacionamento, lembrei-me daquele menino de Santa Luzia, no Maranhão, que sonhava através de um rádio de pilha. Naquele instante compreendi que Deus jamais havia perdido aquele menino de vista.
Se alguém me contasse essa história quando eu caminhava pelas estradas de chão da Rodovia Transamazônica, certamente eu diria que era impossível, mas Deus transforma o impossível em realidade.
Aprendi que os sonhos não pertencem apenas aos ricos, aos famosos ou aos privilegiados.
Eles pertencem àqueles que trabalham com honestidade, perseveram diante das dificuldades, mantêm a humildade e jamais perdem a fé. Porque, quando Deus decide abrir uma porta, não existe homem algum capaz de fechá-la.
Hoje, ao recordar aquele dia histórico, tenho a absoluta convicção de que não fui ao vestiário da seleção argentina apenas como jornalista.
Fui como testemunha de um milagre que Deus realizou na vida de um menino humilde, que saiu do interior do Maranhão, atravessou as dificuldades da Transamazônica e descobriu que, para Deus, não existem limites quando Ele decide escrever a história de um filho Seu.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627








