Confirmado por Bolsonaro indicação de “terrivelmente evangélico” para vaga no STF

O AGU André Mendonça já teria 50 votos no Senado
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on print

Continua depois da publicidade

Brasília – Há semanas o ritual de beija-mão no Senado Federal é intenso. O candidato “terrivelmente evangélico” prometido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), foi confirmado na terça-feira (6). O escolhido é o atual ministro da Advocacia Geral da União, o pastor e advogado André Mendonça, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, que pleiteia a vaga aberta com a aposentadoria do decano Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF).

Muitos dos apoiadores de Bolsonaro criticaram — e alguns chegaram ao extremo de retirar o apoio ao presidente após a escolha de Kássio Nunes Marques que assumiu no lugar de Celso de Mello. “Foi um erro que não deve se repetir”, disse reservadamente, um dos líderes do governo no Senado.

Confirmação

Bolsonaro confirmou na terça, em reunião com ministros no Palácio da Alvorada, que vai indicar o advogado-geral da União, André Mendonça, para a vaga no STF. São dois os objetivos, na avaliação de integrantes do governo. O presidente acenou publicamente às lideranças religiosas que está disposto a manter a palavra de que indicará para a Corte um ministro “terrivelmente evangélico” e respaldou Mendonça para que ele consiga diminuir a resistência no Senado. Interlocutores do presidente afirmam que o advogado-geral já contabiliza apoio de mais de 50 senadores. Para ser aprovado, ele precisa ter votos de pelos menos 41 senadores.

A fala de Bolsonaro na reunião, que contou com a participação do vice-presidente Hamilton Mourão, foi entendida também como um recado para integrantes do governo trabalhem por Mendonça no Senado. Nos próximos dias, Mendonça vai intensificar o beija-mão aos senadores que vão sabatiná-lo. Ministros e aliados de Bolsonaro também foram convocados para ajudar a diminuir as resistências ao advogado-geral da União.

Logo após a reunião no Alvorada, Mendonça almoçou com senadores de PL, DEM, PSDB, Progressistas e PSC. O encontro foi organizado pelo senador Wellington Fagundes (PL-MT). O senador paraense Zequinha Marinho (PSC-PA), estava presente.

Segundo participantes do almoço, o chefe da AGU, logo após o anúncio de Bolsonaro, demostrou autoconfiança e estava à vontade. Na conversa, sinalizou que, caso confirmado no STF, se pautará pela moderação. Disse que não é um “terrivelmente evangélico”, mas um cristão. Parlamentares admitem que o gesto do presidente deverá ajudar Mendonça a abrir as portas.

Discreto

Até algumas semanas atrás o Planalto vinha demonstrando receio de a indicação de Mendonça ser barrada. Senadores reclamavam que o advogado-geral da União é muito reservado e que tem pouco traquejo político.

A reclamação acendeu o alerta no governo pelo fato de a votação ser secreta, o que torna a possibilidade de rejeição se confirmar, pois impede o Palácio do Planalto de ter clareza sobre com quem poderá contar. Nas últimas semanas, diante da resistência, Bolsonaro passou a reavaliar a estratégia para garantir que seu escolhido não fosse rejeitado. O presidente chegou avaliar deixar para agosto a apresentação do nome para que o chefe da AGU ganhasse mais tempo para virar votos. O ex-presidente do Senado Davi Acolumbre (DEM-AP) é um dos mais resistentes à indicação de Mendonça.

Em conversa reservada com o presidente do Supremo, Luiz Fux, no último dia 8 de junho, Bolsonaro já havia informado sobre a decisão de indicar André Mendonça. Fux pediu, então, que o presidente aguardasse para fazer o anúncio oficialmente apenas após a aposentadoria do decano Marco Aurélio Mello, no dia 12 de julho — diferentemente do que ocorreu com o nome de Kássio Nunes Marques, tornado público quando o então decano Celso de Mello ainda estava na Corte.

Entre os ministros do Supremo, o advogado-geral da União não enfrenta, de modo geral, grandes resistências, mas sua imagem ficou arranhada sobretudo neste segundo período em que comandou a AGU, com exercícios jurídicos para acomodar as vontades de Bolsonaro contra as medidas de restrição de combate à pandemia e o uso da Lei de Segurança Nacional contra detratores do presidente.

Já para lideranças evangélicas, o anúncio de Bolsonaro ontem não foi uma novidade. Em viagem a Belém do Pará no mês passado, o presidente reafirmou a intenção de indicar um evangélico durante evento de comemoração aos 110 anos da Assembleia de Deus.

“Fiz um compromisso com os evangélicos do país. Indicaremos um evangélico para que o Senado aceite seu nome e encaminhe para o STF um irmão nosso em Cristo”, reiterou Bolsonaro.

Pastores na comitiva

Mendonça, que estava na viagem, não foi citado nominalmente no evento. Porém, no avião, durante o trajeto, Bolsonaro disse aos líderes religiosos que o acompanhavam à vista ao Pará que o advogado-geral da União já estava escolhido e que ele não correria o risco de faltar com a palavra com umas das suas bases mais fieis. Estavam presentes o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e os deputados evangélicos Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) e Marco Feliciano (Republicanos-SP) e ao senador Zequinha Marinho (PSC-PA).

André Mendonça é pastor presbiteriano, mas se licenciou ao ingressar no governo Bolsonaro como AGU. O ministrou ganhou a confiança do presidente após ter assumido, em abril de 2020, o Ministério da Justiça, e tem o apoio da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Reportagem: Val-André Mutran – Correspondente do Blog do Zé Dudu em Brasília.