Aurélio Ramos de Oliveira Neto, mais conhecido como Aurélio Goiano, é natural de Sobradinho, cidade satélite do Distrito Federal, mas foi criado em Água Fria do Goiás – de onde surgiu o apelido. Atual prefeito do município de Parauapebas, no sudeste do Pará,
Antes de entrar para a política, construiu carreira como locutor de rodeios, passando também pelo rádio e TV. Ainda em Água Fria, foi eleito o vereador mais jovem da história do município, com apenas 18 anos de idade, exercendo o cargo entre 2005 e 2008. Chegou a Parauapebas em 2010, onde continuou atuando com locução de rodeios, carro de som e rádio, passando por emissoras como Terra FM, Arara Azul, Correio FM e Liderança FM.
Após uma década na cidade, concorreu a vereador e foi eleito com 1.508 votos em 2020. Eleito em meio à pandemia de covid-19, teve um mandato conturbado e polêmico, marcado por embates com a gestão do então prefeito Darci Lermen e críticas às medidas tomadas em resposta à crise sanitária, chegando a ser afastado do cargo por alguns meses.
Concorreu ao cargo que hoje ocupa nas Eleições de 2024, pelo Avante, ao lado do pioneiro e ex-prefeito Chico das Cortinas (PRD). Com 58,52% dos votos válidos – 92.073 votos, ao todo – tornou-se o prefeito mais votado da história de Parauapebas.
Em entrevista exclusiva para o Blog do Zé Dudu, ele responde às titulares cinco perguntas acerca das suas promessas de campanha, além de analisar o desempenho da sua gestão, faltando menos de 900 dias para o fim do mandato.
- Você venceu a eleição de 2024 em Parauapebas, vindo de uma campanha que prometia mudança na forma de fazer política – e o eleitor clamava por isso após os quatro mandatos de Darci Lermen. Quais foram as mudanças implantadas pela sua gestão e que ganhos reais elas trouxeram para a população?
Na verdade, quando entrei na campanha para prefeito, a minha visão era idealista e a mais entusiasmada possível, no sentido de trazer qualidade de vida para todos nós, moradores de Parauapebas. Às vezes, na empolgação, fazemos promessas que, em grande parte, não dependem só da gente. Depois que eu me sentei na cadeira é que eu fui ver a encrenca que eu estava me metendo.
Recebi um município com mais de 60% da população recebendo água através de carro-pipa; crianças que não iam pra escola porque não havia transporte público; farmácias das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e Policlínica sem nenhum medicamento; crianças indo pra escola e recebendo apenas bolacha com ki-suco como merenda escolar; milhares de pessoas sendo atendidas debaixo de sol e chuva para conseguir realizar seu Cadastro Único (CadÚnico); e tantos outros problemas que eu não irei lembrar aqui.
Mas, ao longo desses 19 meses de gestão, eu posso destacar, na saúde: implantação da neurocirurgia; o retorno da mamografia na Policlínica e das ações da Carreta da Mulher; a entrega do novo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS); a ampliação da estratégia da atenção básica, com mais de 80 novos agentes de saúde (ACSs) e mais 15 médicos para as equipes de saúde da família. Além das reformas das UBS do Liberdade I e II, reinauguração da UBS da Cidade Nova, e inauguração da UBS do Complexo Tropical.
Na educação, houve a aquisição de 100 ônibus escolares climatizados e ampliação do ensino integral para mais de 690 alunos. Ocorreu a inauguração da creche modelo no Bairro dos minérios, uma obra que estava há dez anos parada, e da Escola Municipal de Educação Infantil de Tempo Integral Joseane Silva, na Palmares Sul; a implantação da Escola Cívico-Militar e a melhoria da merenda escolar, proporcionando alimentação de qualidade para nossas crianças, jovens e adolescentes.
Na Assistência social, tivemos a inauguração do maior CadÚnico do Pará, ampliando benefícios para mais de 120 mil atendimentos, e do novo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do Vale do Sol e do Bairro dos Minérios; novo acolhimento para crianças e adolescentes, e o retorno do Forró dos Idosos, atendendo a mais de 500 pessoas.
Tivemos também a reinauguração da Escola de Música Waldemar Henrique, atendendo a mais de 500 alunos e a revitalização do Balé Municipal, com mais de 150 alunas.
Foram mais de 8 mil imóveis regularizados e mais de 5 mil já com títulos definitivos, com emissão pelo cartório. Inauguramos a Casa de Mainha, com mais de 1.800 mulheres atendidas e mais de 800 capacitadas para o mercado de trabalho, e o Serviço de Acolhimento Especializado de Avaliação e Risco Dayse Dayana, o primeiro do estado com o quarto conforto, uma estratégia inovadora no país.
A nossa maior satisfação foi ter levado água na torneira para 19 bairros que antes só recebiam água através de carros-pipas, mas que infelizmente foi entregue para uma empresa que o que se ouve é reclamações contra ela.
Mas, de tudo, acredito que a principal diferença entre o nosso governo e o governo anterior, é a preocupação que temos em fazer com que as políticas públicas cheguem até a ponta, para quem realmente precisa. Essa será a nossa missão até o meu último dia como prefeito dessa cidade.
- Em quase todos os seus pronunciamentos, você alega que recebeu de seu antecessor um município de terra arrasada, um caos financeiro e logístico. O que está sendo feito para melhorar a arrecadação, controlar gastos e, consequentemente, ampliar os investimentos no município?
Essa foi uma preocupação que tivemos desde o início do mandato, quando de fato me sentei na cadeira e vi o tamanho da encrenca que eu tinha me metido.
De início, nós reduzimos mais de R$ 5 milhões em gastos com combustíveis, e em mais de R$ 3 milhões os gastos com aluguéis, além de incentivarmos o pagamento do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) através do IPTU premiado.
Juntamente com a Vale, firmamos um protocolo de intenções no valor de mais de R$ 100 milhões, no qual pedimos que a própria mineradora realizasse as obras de infraestrutura, reafirmando que o nosso interesse nunca foi pedir dinheiro, mas levar qualidade de vida para nosso povo.
Nesse pacote, além de obras, recebemos também uma consultoria da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com a qual estamos realizando vários estudos. Entre eles, o de conformidade da folha de pagamento dos servidores, que hoje consome mais da metade da nossa receita mensal, de equilíbrio fiscal e da reforma administrativa.
Essa última tem por objetivo, não cortar direitos dos verdadeiros donos da prefeitura, mas sim corrigir desequilíbrios e alcançar, por meio dessa e de outras medidas, a saúde financeira do nosso município, porque isso sim vai garantir que nenhum dos direitos dos servidores seja retirado.
- Parauapebas é o que podemos chamar de um rico município pobre, já que tem uma arrecadação enorme, porém com gastos institucionais que chegam ao limite prudencial. Quais ações estão sendo tomadas no sentido de criar novas matrizes econômicas para o município, já que o minério de ferro é finito?
Desde que cheguei nessa cidade, ouço todo mundo falando em diversificar a economia, mas, até então, não vimos nenhuma iniciativa real com esse propósito.
Como havia dito, a parceria entre a Vale, a FGV e a prefeitura, atua sobre cinco eixos: Reestruturação Administrativa, que visa aprimorar a organização interna e fortalecer a gestão pública; Finanças Públicas, com o intuito de promover o equilíbrio fiscal e assegurar a conformidade no pagamento da folha; Gestão de Investimentos Municipais, para estruturar um modelo eficiente de planejamento e gestão dos recursos públicos; Capacitação de Profissionais, para atuar com excelência na formulação de projetos e na mobilização de recursos públicos e externos e, por fim, Vocações Econômicas, para identificar e potencializar novas matrizes econômicas de suporte, alinhadas com as vocações e aptidões locais e regionais.
No dia 9 de julho, realizamos o Fórum de Diversificação Econômica Parauapebas 2040, que reuniu dezenas de stakeholders de diversos segmentos para discutir as novas vocações econômicas da nossa cidade e região. Todas as opiniões e contribuições foram acolhidas e a FGV nos entregará um relatório que irá subsidiar nossa tomada de decisão sobre por onde devemos começar o processo de diagnóstico, implantação, investimentos e consolidação, para que Parauapebas possa evoluir na diversificação de receita e não depender apenas da mineração.
A diferença é que essa decisão não será tomada de forma individual, dentro de um gabinete fechado, mas com a participação popular e através da construção coletiva.
Sabemos que não é uma tarefa fácil, mas com a queda da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), a perda de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e todos os demais problemas que herdamos, esse é só mais um desafio que, em nome de Jesus, nós iremos superar.
- Você venceu a eleição sob a égide da mudança, mas o que se vê até o momento é a mesma forma de governar, onde vereadores, em sua maioria ultracrepidários, são verdadeiros donos de secretarias – assim como nas gestões anteriores, fato que era fortemente criticado pelo Aurélio Goiano candidato. O que deu errado para não ter conseguido implantar uma nova forma de gestão diferente dessa, aliada a vereadores, que já se mostrou ineficiente?
Não concordo com essa afirmação. Os vereadores foram eleitos pela população e têm um papel muito importante dentro da democracia. São eles que estão todos os dias nos bairros, ouvindo as pessoas, recebendo as demandas da comunidade, fiscalizando o Poder Executivo e apresentando propostas para melhorar os serviços públicos.
É natural que um prefeito mantenha diálogo permanente com a Câmara Municipal. Quem governa uma cidade não pode se fechar para quem representa a população.
Desde o início da nossa gestão, mais de 60% do nosso secretariado e dos cargos adjuntos foi composto por servidores de carreira da própria prefeitura. São profissionais que conhecem a administração pública, têm experiência no serviço público e contribuíram, e continuam contribuindo, para organizar e fortalecer a gestão municipal.
Cada Poder tem suas atribuições, e as decisões da gestão são tomadas pelo prefeito e pela equipe de governo, sempre observando a legalidade, os critérios técnicos e, principalmente, o interesse da população desse município.
Quando um vereador leva uma demanda de um bairro, de uma comunidade ou de uma categoria, ele está cumprindo o papel para o qual foi eleito. Cabe à gestão analisar essa demanda e, quando ela é viável e atende ao interesse público, transformá-la em ação de governo. É assim que entendemos a boa política: diálogo, respeito entre os Poderes e trabalho para entregar resultados à população.
- Em outubro, o senhor está há meses à frente da Prefeitura de Parauapebas. Pode fazer uma análise da sua gestão, se possível separando por pastas?
Ao longo dessa gestão, eu admito que devo ter cometido muitos erros; posso ter tomado algumas decisões precipitadas, por inexperiência. Antes de ser vereador e depois prefeito, eu era apenas um locutor de carro de som.
Acredito que demorei um pouco pra entender que serviço público não é igual a uma empresa privada – onde queima uma lâmpada e você vai lá no seu caixa, pega o dinheiro, compra e troca – ou uma máquina que quebra uma peça e você simplesmente vai lá, passa o cartão e manda consertar. Existem processos, prazos, cotações, contratos que precisam ser observados e seguidos à risca, e é aí, onde muitas vezes as coisas empacam e demoram pra acontecer.
Sabemos que a queda da Cfem, a perda de ICMS e a redução da receita de forma geral, dificulta o nosso trabalho, mas, além disso, a burocracia. E aí eu faço um adendo, porque tem que haver fiscalização sim, tem que haver controle sim, mas essa mesma burocracia que garante transparência e segurança, traz também atrasos, empecilhos, e às vezes é frustrante você saber o que tem que que fazer, saber como fazer e não poder fazer por questões burocráticas.
Por exemplo, na saúde, para onde mais de um terço da nossa receita é destinada, a nossa percepção e a das pessoas é de que ainda não é suficiente. Mas nós atendemos mais de 19 municípios, diversos serviços de média e alta complexidade, além de atender a atenção básica, que é o nosso papel enquanto município – por isso defendemos a regionalização do Hospital Geral de Parauapebas (HGP).
Hoje, eu entendo que é preciso construir mais UBSs, ampliar o alcance da atenção primária, mas também entendo que precisamos ter cautela com novos equipamentos, pois irão demandar mais profissionais, o que poderá onerar ainda mais a folha de pagamento, que já está super enforcada. Hoje, eu entendo que precisamos ampliar o número de vagas nas escolas, mas que precisamos também avaliar se é mais viável desapropriar áreas e construir novas escolas ou aproveitar áreas livres em escolas já existentes e construir novas salas. Essas são questões que precisamos tomar todos os dias, junto com os secretários, diretores, coordenadores, servidores, e com os próprios usuários dos serviços públicos.
Em relação às obras, acreditávamos que seria possível tapar todos os buracos em seis meses, mas hoje sabemos que a falta de saneamento básico – uma obra extremamente necessária, mas também extremamente cara – dificulta a pavimentação asfáltica. Sabemos que a água de uso doméstico despejada nas ruas danifica o asfalto e diminui sua vida útil. Sabemos que a limpeza da cidade é essencial, afinal de contas, a cidade é a casa das nossas casas, mas também sabemos que é preciso que a população se conscientize e entenda que ela precisa ajudar a cuidar, limpando seu lote vazio, não jogando lixo na rua, não depositando entulho nas calçadas e coisas do tipo.
Acredito que muita coisa foi feita, mas tenho a consciência de que ainda há muito por fazer. Tenho fé que, a partir desse segundo semestre de 2026, Parauapebas irá entrar numa nova fase, de gestão, de projetos, de obras e de resultados, e sigo acreditando diariamente que ainda é possível reconstruir Parauapebas.
