O que acontece quando um clássico do teatro francês encontra a irreverência, o humor e a liberdade da arte drag amazônica? Em “As Mal Criadas”, patroas, empregadas e relações de poder atravessam tempos e territórios até desembarcarem em uma versão em que Jean Genet encontra as Themônias do Pará.
O espetáculo chega a Canaã dos Carajás no dia 19 de setembro, Dia Nacional do Teatro, como parte da Caravana As Mal Criadas, projeto contemplado pelo Edital Casa Aberta Amazônia Paraense 2026. A apresentação será realizada na Casa da Cultura de Canaã dos Carajás e marca mais uma parada da circulação da Companhia Cênica de Cínicos pelo estado.
Livremente adaptada de As Criadas, obra escrita pelo dramaturgo francês Jean Genet e considerada um clássico do teatro do século XX, a montagem paraense desloca para o universo drag uma trama construída em torno das relações entre duas empregadas domésticas e sua patroa. Se no texto original essas relações são atravessadas por jogos de identidade, submissão e poder, na versão amazônica elas também ganham música, improviso, interação com a plateia e, sobretudo, muito humor.

A Companhia Cênica de Cínicos tem até uma palavra para explicar essa transformação: “themonizar”. “A ideia é themonizar esse texto. E o que é themonizar? É colocar características das drags themônias nessa dramaturgia francesa. Trazer para a nossa identidade amazônica, com piadas, referências e interação com o público”, explica Marckson de Moraes, 42 anos, fundador da companhia e também drag themônia Mila Milambe.
A mudança de linguagem, no entanto, não esvazia as questões provocadas pelo clássico. Ao contrário: usa a comicidade para trazê-las para perto do público de hoje.
“É um texto francês, mas traz uma discussão sobre patrões e empregadas que ainda é muito atual. A gente ainda percebe situações de hierarquia e poder. Então brincamos com esse texto trazendo a linguagem cômica drag para discutir essas relações de uma forma engraçada”, afirma Marckson.
Da França para uma Amazônia themonizada
As Mal Criadas estreou em 2024 e é o terceiro espetáculo da Companhia Cênica de Cínicos a utilizar a arte drag como linguagem poética e expressiva. A montagem é realizada em parceria com artistas ligados ao movimento das Themônias, manifestação artística paraense que articula performance, cultura drag, identidade amazônica e ocupação dos espaços culturais.
Em 2026, o movimento foi reconhecido nacionalmente com o Prêmio PIPA, uma das principais premiações de arte contemporânea do país. Agora, a chegada da Caravana a Canaã ajuda a ampliar também a circulação dessa produção para além da capital paraense.
O espetáculo já passou por Belém, Bragança e Soure. Canaã dos Carajás representa uma nova etapa desse percurso, que a companhia pretende levar a outras cidades amazônicas e, futuramente, a outros estados brasileiros.
“A expectativa é grande. Queremos que outros municípios tenham conhecimento do que é o fazer da arte drag themônia e dessa parceria entre o movimento das Themônias e a Companhia Cênica de Cínicos. É também uma forma de difundir a cultura paraense e mostrar quem está fazendo teatro no nosso estado”, destaca Marckson.
A circulação ganha um significado especial em uma região onde novos espaços de criação, formação e encontro entre artistas vêm acompanhando as transformações das cidades.
Para Gabriela Sobral, diretora da Casa da Cultura de Canaã dos Carajás, receber a Caravana também reflete esse momento vivido pelo município. “Canaã dos Carajás é uma cidade em expansão, e isso também se reflete na produção e na circulação cultural, que começa a acontecer aqui com maior pluralidade e diversidade, em uma troca efervescente entre grupos culturais”, afirma.
Segundo ela, colocar diferentes linguagens, artistas e públicos em contato amplia as possibilidades de experiência dentro do próprio espaço cultural. “Quando a gente traz um grupo reconhecido e um trabalho cênico consolidado, traz também a oportunidade de troca, de fruição e de criação de novos olhares.”
Rir também pode ser uma forma de provocar
No palco, As Mal Criadas aposta justamente no encontro entre universos aparentemente distantes. A densidade de um texto clássico divide espaço com a comicidade drag; a dramaturgia francesa recebe referências amazônicas; e a fronteira entre encenação, improviso e performance se torna mais porosa conforme as artistas estabelecem contato com a plateia.
É pelo riso que questões sobre hierarquia, gênero, corpo e relações sociais vão sendo colocadas em cena.
Para Gabriela, experiências como essa fazem parte da capacidade da cultura de provocar encontros com outras formas de enxergar o mundo. “O papel da cultura é criar diálogos e comunicações com as pessoas. O espetáculo traz também essa educação do olhar, no sentido de permitir que as pessoas vejam com mais respeito, pluralidade e consciência os mais diversos temas.”
No Dia Nacional do Teatro, a passagem da Caravana por Canaã dos Carajás celebra, assim, não apenas o palco, mas a capacidade que ele tem de mudar junto com quem o ocupa.
FICHA TÉCNICA
Atuação:
Bunny das Coxinhas – Eduardo Teixeira
Lyssandra Candy – Bonelly Pignatário
Mila Milambe – Marckson de Moraes
Direção: Adriano Furtado e Larissa Latif
Cenografia e sonoplastia: Adriano Furtado
Figurinos: Juliano Bentes
Iluminação: Fernando Costa
Serviço
Data: 19/09/2026
Horário: 19h
Público: A partir de 16 anos
Local: Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (Rua das Esmeraldas, 143 – Nova Canaã II)
Informações: (94) 99220-3451
(Texto: Natália Mello)







