Ribeirinhos e pesquisadores declaram ‘tombamento popular’ do Pedral do Lourenço, área ameaçada por criação de hidrovia no Rio Tocantins, no Pará

Grupo realizou ato simbólico e prepara envio de pedido formal ao Iphan. Projeto do governo federal prevê uso de explosivos a partir de 2027 para abrir canal de navegação
Pedral do Lourenço, trecho em Itupiranga, no sudeste do Pará (Foto: Taymã Carneiro/g1)

A disputa pelo futuro do Pedral do Lourenço, conhecido também como Pedral do Lourenção, no Rio Tocantins, em Itupiranga, no sudeste do Pará, ganhou um novo capítulo com a mobilização de comunidades tradicionais, cientistas e movimentos sociais. Em um ato que reuniu cerca de 200 pessoas nesta quinta-feira (20), entre pescadores artesanais, ribeirinhos e agricultores familiares. Eles realizaram uma barqueata e um “tombamento popular” simbólico da área.

Segundo os moradores, o objetivo da ação foi proteger o espaço contra as obras de derrocamento planejadas pelo governo federal.

Nos próximos dias, um pedido formal de reconhecimento do pedral como patrimônio histórico, arqueológico, paisagístico e etnográfico será entregue ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O impasse em torno da área já se arrasta por quase 12 anos. De um lado, populações locais e pesquisadores lutam pela preservação socioambiental do rio; do outro, o setor de infraestrutura defende a ampliação da navegabilidade para impulsionar o transporte de cargas.

Biodiversidade em risco

O Pedral do Lourenço é um trecho singular de aproximadamente 43 quilômetros do Rio Tocantins, caracterizado por uma formação de corredeiras, canais, praias, poços e diferentes profundidades.

Estudos científicos recentes, conduzidos por equipes da Universidade Federal do Pará (UFPA) e do Museu Paraense Emílio Goeldi, reforçam a importância ecológica do local.

As pesquisas de campo identificaram espécies de peixes ameaçadas de extinção e animais aquáticos que dependem exclusivamente do ecossistema rochoso para se alimentar e reproduzir.

Para os especialistas, a integridade dessas estruturas de pedra é vital para a manutenção da biodiversidade de todo o ecossistema do Tocantins.

Além do fator ambiental, há uma forte preocupação social. Na Vila Santa Terezinha do Tauiry, comunidade localizada no ponto de início do pedral, vivem cerca de 130 famílias. A subsistência da grande maioria desses moradores depende diretamente da pesca artesanal realizada naquelas águas.

O projeto de derrocamento

Apesar da resistência local, o plano para viabilizar a hidrovia do Rio Tocantins segue em andamento. O projeto do governo federal prevê a abertura de um canal de navegação que permita a passagem de grandes comboios de carga, transportando principalmente grãos e minérios, mesmo durante os períodos de forte estiagem.

Para viabilizar o tráfego das embarcações, a obra prevê o derrocamento, processo que consiste no desgaste e na fragmentação das rochas por meio de detonações subterrâneas.

A licença de instalação atualmente concedida autoriza a intervenção em um trecho de 35 quilômetros do rio, situado entre a Vila Santa Terezinha do Tauiry e a Ilha do Bogéa.

De acordo com o cronograma previsto, a expectativa é de que o uso de explosivos na região tenha início em 2027.

(g1 Pará)

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