Pazuello contrata marqueteiro paraense para cuidar de sua imagem

Markinhos Marques era Secretário de Comunicação do Governo de Roraima
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Brasília – O marqueteiro paraense, nascido em Cametá (PA), Marcos Eraldo Arnoud Marques — o Markinhos Marques —, aceitou o convite do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para cuidar de sua imagem em meio à “guerra das vacinas” contra a Covid-19. Ele tem passagem na agência FSB Comunicações — 36ª maior agência do mundo, chefiou a Comunicação do Governo de Roraima, e logo depois comandou as campanhas eleitorais para prefeituras como a de Cláudio Burrinho, em Iturama (MG), cidade de 39 mil habitantes, e Kelly Destro, em Ulianópolis (PA), que tem 60 mil moradores — ambos venceram.

Comenta-se nos bastidores do ministério da Saúde que Markinhos Marques está causando controvérsia dentro do ministério por conta do seu perfil beligerante, mas conta com a confiança do chefe. Em poucas semanas, ele já dominou a área de comunicação da pasta, mas teve que conviver com críticas de que sua atuação provoca mais crises do que traz soluções.

Internamente, a principal crítica ao trabalho de Markinhos, como gosta de ser chamado, é que ele tem colocado o marketing acima da comunicação institucional. O diagnóstico é que, desde sua chegada, instalou-se o caos na divulgação de informações da Saúde.

Em 2018, o paraense de 45 anos trabalhou para eleger o bolsonarista Antonio Denarium ao governo de Roraima, onde foi secretário de Comunicação até o começo deste ano. Foi lá que conheceu e se tornou amigo de Pazuello.

Imagem

Na avaliação do “núcleo duro” do governo federal, havia um diagnóstico de que Pazuello precisava de retoques na imagem. Gestores em outras esferas da administração pública avaliam que o ministro perdeu o controle da pasta.

Em entrevista coletiva quarta-feira (16), o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disparou duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro e aos titulares da pasta da Saúde, Eduardo Pazuello, e da Economia, Paulo Guedes.

Maia destacou Pazuello como o “maior problema” e disse que o ministro “até agora, não apresentou nada organizado.”

“Nosso maior problema hoje em relação a questão de um militar em cargos chave no governo é a questão do ministro da Saúde, que vai muito mal. Eu acho que ele se perdeu na gestão do ministério. Acho que ele pode, além de prejudicar muito a imagem do exército brasileiro, comprometer com essa falta de organização e incompetência”, disse Maia.

Maia também comentou a declaração do general, que questionou, durante apresentação do Plano Nacional de Imunização (PNI) contra a Covid-19, os motivos para a “ansiedade e angústia” do povo brasileiro diante da demora para a aprovação de vacinas.

Maia finalizou a coletiva afirmando categoricamente que o ministro vai muito mal, sempre foi apontado como um grande estrategista militar, mas se perdeu na condução da pasta no combate à covid-19. “(Pazuello) pode prejudicar imagem do Exército e comprometer (o País) com incompetência”, emendou. No café da manhã com a imprensa, Maia foi mais longe: “O ministro da Saúde é um desastre. Um desastre para o País e para o governo. Acho que a sociedade já começou a entender isso, principalmente a área médica.”

Na coletiva, Maia disse que os militares, numa referência a essa ala do governo Bolsonaro, estão sempre preparados pra comandar e não pra liderar. “Por isso, apesar de toda a competência e boa vontade dos ministros militares que estão no Palácio, há sempre uma maior dificuldade”, disse, destacando que o maior problema nessa seara hoje é Pazuello. “Em relação à questão da logística, que diziam que era o forte dele, até agora não apresentou nada organizado, para as vacinas e nem para nada. E pode, com essa incompetência, comprometer tanto a solução para a vacina quanto para esse aumento no número de infectados, de mortes (pela covid-19), que precisaria de uma articulação melhor entre governo federal, Estados e municípios.”

Reações

Nem bem assumiu os desafios do cargo, Markinhos Marques se vê diante de notas “plantadas” na imprensa para desgastá-lo no cargo. Segundo um jornal de grande circulação do Sudeste, seus subordinados têm dificuldades de resolver qualquer questão internamente, colocando por água abaixo o principal atributo do ministro Pazuello exaltado pelo presidente Jair Bolsonaro: o de que Pazuello é um especialista em logística e manteria o operacional da pasta em pleno funcionamento.

Markinhos teve o primeiro contato com o general do Exército há pouco mais de dois anos, quando o então governador eleito Antonio Denarium se tornou o interventor federal de Roraima e nomeou Pazuello como secretário da Fazenda.

Antes, o militar coordenava a Operação Acolhida, que cuidou da recepção de refugiados venezuelanos no Brasil. De perfil assumidamente bolsonarista, exibido em uma rede social, o marqueteiro continuou em Roraima até fevereiro deste ano, quando saiu para trabalhar em campanhas pelo país.

Com a reputação chamuscada, Pazuello recorreu ao marqueteiro pela segunda vez. Markinhos conta que o ministro já havia feito um convite a ele para que integrasse sua assessoria pessoal logo que assumiu o ministério. Na época, no entanto, recusou por estar comprometido com outros trabalhos. Recentemente, diz ele, Pazuello voltou a fazer contato e, desta vez, o convite foi aceito.

Desafios

Ainda sem nomeação oficial para o cargo, o que, segundo ele, “está por sair”, o marqueteiro tem clara ideia sobre sua função na pasta:

“Minha missão é levar a informação de forma assertiva e disruptiva, chegando nos quatro cantos do Brasil. Realmente, o Ministério da Saúde precisava de um ajuste na comunicação. Tenho uma dura missão que é combater o fake e boatos. Não estamos em campanha eleitoral e sim numa campanha para salvar vidas”, disse Markinhos.

Graduado em Marketing e Neurociência, suas qualificações vão de uma pós-graduação em gestão pública a especializações em escrita persuasiva, desenvolvimento humano e master coach. Em uma plataforma de vídeos, que não tem nenhuma publicação, ele se apresenta ainda como hipnólogo (estudo do sono e de seus efeitos) e palestrante motivacional. O currículo foi bem-visto pelo ministro. No Pará, Markinhos Marques já atuou ao lado de profissionais de peso do marketing político.

Em sessão do Senado na última quinta-feira (17), Pazuello falou sobre sua dificuldade de alinhar a comunicação da pasta, que agora, diz o ministro, conta com “profissionais de primeira linha.”

“Eu tenho hoje uma equipe que eu finalmente consegui construir, que é a equipe de comunicação do ministério. Aceito a minha incapacidade de colocar essa equipe funcionando há bastante tempo, tentei e já é a quarta tentativa de compor uma equipe nesse padrão” disse, acrescentando: “Acho que os profissionais de hoje que estão trabalhando conosco na missão são de primeira linha e nós vamos juntamente com as empresas contratadas e os planos de divulgação atingir toda população brasileira e vamos reverter a compreensão da segurança, da eficácia e da necessidade de vacinação ampla no nosso país”, estima.

Dentre as ações gestadas por Markinhos, está a conturbada divulgação do Plano Nacional de Imunização contra a Covid-19. Dias antes de o ministério enviar o documento ao Supremo Tribunal Federal, ele achou que seria uma boa ideia o ministro entregar, na frente das câmeras, os papeis com o plano ao repórter que o entrevistava.

Na ocasião, Pazuello falou que a vacinação poderia começar já a partir deste mês, depois de ter dito, em diferentes ocasiões, que o início deveria ocorrer em março ou janeiro.

Ele também arquitetou um vídeo em que o secretário-executivo do ministério, coronel Élcio Franco, rechaça a polarização política ao mesmo tempo em que ataca o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

As críticas, no entanto, não têm abalado o novo assessor do ministro, que se considera preparado por Deus para ocupar o cargo. Segundo a pasta, ele deve ser nomeado “em breve” para um posto de Direção e Assessoramento Superior (DAS). Para Markinhos, o “Ministério da Saúde não pode ser demonizado”, e sim visto como uma autoridade no cuidado com as pessoas.

“É uma responsabilidade inigualável. Acredito que Deus me preparou todos esses anos para essa missão. Já perdi vários amigos para a Covid-19. É meu dever defender o Ministério da Saúde, o SUS, combater com fatos as inverdades e construir um bom relacionamento com todos da imprensa. Críticas, opiniões adversas fazem parte do dia-a-dia da vida política.”. “Pedras no caminho, guardo todas. Um dia irei construir um castelo”, cita.

Val-André Mutran – É correspondente do Blog do Zé Dudu em Brasília