Pará

Pará vira ‘febre’ em noticiários nacionais por fuga de produção da Vale

Multinacional, que já perdeu R$ 70 bilhões em valor de mercado, também se vê às voltas com possível redução de 70 milhões de toneladas de minério por ano. Minas de Carajás compensariam prejuízo bilionário em apenas 24 meses.

Nunca antes na história a expressão “Carajás, no Pará” fora tantas vezes citada pela imprensa nacional. Da semana passada para cá, o Blog do Zé Dudu contabilizou mais de mil citações com referência ao estado e sua província mineral, com destaque em absolutamente todos os maiores portais de notícias do país. E a razão é uma só: a mineradora multinacional Vale, praticamente escorraçada de Minas Gerais, deve centrar sua produção — tanto para compensar o que é provável perder quanto para aumentar o que já extrai — aqui no Pará.

Desde o rompimento da barragem de rejeitos de minério no município de Brumadinho, em Minas Gerais, que caminha para um saldo de mais de 300 pessoas mortas, a mineradora tem enfrentado seus piores pesadelos, do ponto de vista econômico e social. Em poucas horas, após o rompimento da barragem, a empresa deixou de ser uma das mais atuantes nas redes sociais para entrar no olho do furacão que tem devastado sua imagem perante investidores e, principalmente, perante a opinião pública.

Agora, veículos de comunicação de Minas Gerais têm sido unânimes em apontar que a Vale virá com tudo para cima de Carajás por conta da produção de minério de ferro que a multinacional foi obrigada a estacionar naquele estado do Sudeste. Segundo o jornal “O Tempo”, a produção de minério dos complexos Minas Itabirito, Vargem Grande (Nova Lima) e Paraopeba (Brumadinho) diminuíram 12,5% entre 2015 e 2017. Já os complexos Itabira, Minas Centrais (São Gonçalo do Rio Abaixo) e Mariana tiveram queda de 3,9%.

Por outro lado, as minas do complexo de Carajás, aqui no estado, viram a produção expandir 30,5% no período. Tudo isso sem contar o teor do minério que é levado em consideração na hora de comercializar a commodity e confere às minas localizadas em Canaã dos Carajás, Parauapebas e Curionópolis o melhor e mais cobiçado produto do mundo, dado o elevado grau de pureza.

O Blog levantou que, enquanto o complexo de minas do que a Vale chama de Sistema Sudeste tem teor médio de 46% e o Sistema Sul tem teor de 46,9%, ambos localizados no estado de Minas Gerais, o conjunto de minas paraenses, que conformam o Sistema Norte, tem teor de 65,7%. As minas da porção de Carajás localizada dentro de Parauapebas, na Serra Norte (N4E, N4W e N5), têm teor médio de 66%. Já a mina da Serra Sul (S11D), no município de Canaã dos Carajás, atinge 65,6%, ao passo que a mina da Serra Leste (SL1), em Curionópolis, alcança 65,4%.

Diminui em Minas, aumenta no Pará

Imediatamente após o rompimento da barragem em Brumadinho, a Vale anunciou a diminuição de 40 milhões de toneladas por ano de minério em razão da paralisação da atividade de lavra em municípios com barragens erguidas pelo método de alteamento a montante. Recentemente, a Vale foi obrigada pela Justiça a suspender as operações da mina de Brucutu, o correspondente a 30 milhões de toneladas por ano.

Em decorrência disso, a imprensa de Minas Gerais especula que, apesar da aparente perda de 70 milhões de toneladas por ano, após a “poeira baixar” em Brumadinho, a Vale se volte com força total para o Sistema Norte para aumentar o passo contra Carajás. O Blog já havia chamado atenção para esse fato (veja aqui) que caminha para se tornar real. O Blog também mandou um questionário de perguntas à Vale há duas semanas, inclusive sobre reposição da produção suspensa, mas a mineradora foi lacônica ao responder que ainda está sendo montado um plano de compensação parcial da produção de minério de ferro que será paralisada por conta dos trabalhos de descomissionamento em Minas Gerais.

A Vale teria facilidade de aumentar a produção na Serra Sul, especificamente em S11D, onde a mina encontra-se em ramp-up, que é o avanço programado da produção até a meta de 90 milhões de toneladas por ano. Seu projeto na Serra Leste já tem pedido de expansão da produção pronto, que tramita pelas mesas da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). E na Serra Norte, diante da possibilidade cada vez mais próxima de exaustão dos corpos de N4 e N5, a multinacional já mira a abertura dos corpos de N1 e N2 para exploração, com processo já em andamento no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Os obstáculos a enfrentar, diante da catástrofe em Brumadinho, são todos de ordem ambiental, visto que haverá maior pressão por parte de órgãos licenciadores quanto à emissão de autorizações à empresa.

Prefeituras enriquecem, minério esgota

Com o eventual aumento da produção em Carajás, as prefeituras dos municípios que entregarão mais minério de ferro serão contempladas com possível elevação de impostos em suas receitas, bem como o aumento dos royalties de mineração, que hoje sustentam em mais de 35% as contas das prefeituras de Parauapebas e Canaã dos Carajás, potencializando um ciclo de dependência sem igual no país — esses municípios talvez sequer existissem não fosse a atividade intensiva da indústria extrativa mineral.

Entretanto, a exaustão das reservas será impiedosamente acelerada para além do previsto, diante da demanda cada vez mais intensa de mercados transoceânicos, como a China, que vê no minério de ferro paraense o principal aliado de suas siderúrgicas no enfrentamento às políticas severas de combate à poluição. O minério de Carajás é menos poluente, justamente por seu elevado grau de pureza, que dispensa pirotecnias metalúrgicas que envolvam superemissão de carbono.

No cenário de incertezas em que mergulhou a Vale, seu valor de mercado já desabou R$ 70,6 bilhões em relação aos R$ 289,7 bilhões que a empresa valia um dia antes do rompimento da barragem. Esse valor, contudo, ela consegue repor em apenas dois anos de operação em Carajás, considerando-se o ritmo de atividade de janeiro de 2019.

O Blog do Zé Dudu levantou junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) que a Vale lavrou R$ 2,86 bilhões em minério de ferro no Pará no mês passado, sendo R$ 1,99 bilhão em Parauapebas, R$ 826,6 milhões em Canaã e R$ 38,8 milhões em Curionópolis. Esses valores tendem a crescer, para ela, na esteira do aumento da cotação do minério de ferro no mercado internacional, que disparou diante da possibilidade de menor oferta da commodity em razão da paralisação de atividades da empresa. A Vale está perdendo hoje, mas faturará muito num futuro próximo, se o ritmo de subida do minério perseverar.

Bem ou mal, confirmando ou não os prognósticos segundo os quais “Carajás, no Pará” será a tábua de salvação da mineradora, a Vale sempre mexe com os fundamentos econômicos, em Minas, no Pará, no Brasil e no mundo. Sua presença é sempre conflituosa.

3 comentários em “Pará vira ‘febre’ em noticiários nacionais por fuga de produção da Vale

  1. Peter Responder

    ZE DUDU, mais um excelente trabalho. Preciso, lúcido e que traz muita reflexão.

    Considerando que “O Blog também mandou um questionário de perguntas à Vale há duas semanas”, sugiro indagar também:

    1) Qual foi o gigantesco incentivo fiscal nos últimos anos já concedido à VALE no estado do Pará como contrapartida para o investimento em um projeto siderúrgico que até agora não aconteceu?

    2) Por que a VALE priorizou participação nas siderúrgicas do PECEM (50% VALE) no Ceará e CSA (27% VALE) no RJ, sendo que estes estados não produzem minério?

    3) Por que a VALE apresentou para o governo anterior uma aciaria a base de sucata importada, uma vez que o Pará possui a maior e melhor reserva de minério de ferro do mundo, além de ferrovia passando na frente da área destinada à siderúrgica ALPA?

  2. Edinelma teixeira Responder

    Muito esclarecedor. Nossos gestores precisam ficar atento porque o minerio um dia acaba e ñ vai sobrar nem o apito do trem….

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