Pará só tem 1.412 respiradores para auxiliar em casos graves do coronavírus

Belém concentra 48%, mas Redenção tem melhor situação do Pará, enquanto Cametá tem pior cenário do Brasil. Distância de equipamento mais próximo pode chegar a 400 quilômetros.
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Com 8,6 milhões de habitantes e apenas dois casos de coronavírus diagnosticados oficialmente até o momento pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), o Pará não estaria preparado para um eventual surto de síndrome respiratória grave como consequência da pandemia, cuja característica mais marcante nos pacientes que vieram a óbito é o quadro de falta de ar que evolui rapidamente.

Acontece que o estado tem poucos ventiladores e respiradores mecânicos em suas unidades de saúde públicas e privadas, conforme apurou o Blog do Zé Dudu em levantamento inédito que cruzou dados de fevereiro deste ano do Ministério da Saúde, para quantificar os equipamentos disponíveis, com números populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O equipamento faz parte do kit para a criação de leitos de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e serve para dar suporte a pacientes com dificuldades respiratórias. Uma das principais consequências da infecção pelo coronavírus é um quadro de pneumonia.

Apesar da importância dos aparelhos, há um verdadeiro vazio assistencial, no que concerne à existência deles, o que penaliza diversos municípios, seja pela precária disponibilidade diante de grandes contingentes populacionais, seja pela simples inexistência em considerável parte dos municípios. O Blog levantou que, das 144 cidades paraenses, mais da metade é desprovida do equipamento. Só 71 cidades têm hoje respirador em funcionamento.

Mas mesmo entre as cidades que têm a distribuição é desigual: 31 cidades só têm um único aparelho. E a distribuição por habitante chega a absurdos um para 138 mil pessoas, como é o caso de Cametá, onde o Ministério da Saúde só contabiliza um respirador, proporção estarrecedora.

Não por acaso, a média de aparelho por habitante no Pará é a 4ª pior do país. Enquanto há no Brasil um equipamento em funcionamento para cada grupo de 3.213 pessoas, aqui no estado essa densidade é de um para 6.093 paraenses. Só Amapá (um para 8.997 habitantes), Piauí (um para 7.274) e Maranhão (um para 6.650) têm situações piores, ao passo que as melhores ofertas são encontradas no Distrito Federal (um para 1.418), Rio de Janeiro (um para 2.294), São Paulo (um para 2.476) e Mato Grosso (um para 2.482).

O Blog levantou que existem hoje 65.411 aparelhos distribuídos em 2.337 cidades brasileiras (42% do total).

Belém concentra quase metade dos respiradores

Com apenas 17% da população do Pará, a capital paraense detém 48% dos aparelhos para auxiliar na respiração daqueles que urgentemente precisam durante internação hospitalar. São 675 equipamentos espalhados em estabelecimentos de saúde da metrópole, 14º maior volume entre os municípios brasileiros, mas bem menos que cidades menos populosas, como Cuiabá-MT (724) e Campinas-SP (700). A capital do Amazonas, Manaus, tem 844 equipamentos.

A média de Belém é melhor que a nacional (um equipamento para 2.211 habitantes) e comparável à média dos estados mais desenvolvidos do país. Mas isso, por outro lado, estrangula os municípios do interior. Mesmo ao lado da capital, Ananindeua tem 115 respiradores para uma população superior a 530 mil habitantes, o que dá uma média de um aparelho para 4.614 moradores. Imperatriz-MA, com metade da população de Ananindeua, tem 116 equipamentos.

Em números absolutos, a melhor situação do interior do Pará é a de Marabá, onde há 73 respiradores, segundo o Ministério da Saúde. É a melhor infraestrutura, mas cuja média está bem acima da nacional, já que há um aparelho para 3.827 pessoas. O ideal é que a média fosse mais baixa. Isso sem contar o fato de que Marabá, por ser polo regional, recebe uma avalanche de pacientes de cidades de seu entorno à procura de serviços mais especializados e atendimento em casos mais graves.

Aparelho mais próximo pode estar a 400 Km

Em termos proporcionais de oferta, a melhor situação do estado é a de Redenção, município com 85 mil habitantes e onde há 44 respiradores em funcionamento, o que confere uma média de um equipamento para cada grupo de 1.927 pessoas. Com razoável tradição em serviços médico-hospitalares fomentada por profissionais de Belém, Goiânia e Palmas, a cidade de Redenção tem um dos melhores panoramas de serviços de saúde do estado.

Entre os lugares pequenos, Bom Jesus do Tocantins é o destaque por contar com sete equipamentos, sendo um para 2.426 moradores, em média. Por outro lado, um conjunto de 11 municípios — todos com mais de 50 mil habitantes — apresentam cenário grave e assustador, por dispor de apenas um equipamento para atendimento. Além de Cametá, que tem a pior situação do país, estão no mesmo bolo os municípios de Moju, Novo Repartimento, Santana do Araguaia, Santa Izabel do Pará, Dom Eliseu, São Miguel do Guamá, Capitão Poço, Itupiranga, Itaituba e Rurópolis.

A situação é tão crítica quanto à distribuição dos equipamentos que, para quem mora em Jacareacanga, acessar o único aparelho mais próximo disponível, em Itaituba, é preciso percorrer cerca de 400 quilômetros, uma distância rodoviária que pode ultrapassar nove horas de carro, a depender da época do ano e das condições de tráfego. A situação é crítica.

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