O advogado do diabo

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imagePor Olinto Campos Vieira ( * )

Alguém já assistiu o filme o Advogado do Diabo? É um filme de quase 16 anos e continua muito atual, aliás, cada vez mais atual. Trata-se de um jovem advogado Kevin Lomax vivido por Keanu Reeves, advogado de uma pequena cidade da Flórida que nunca perdeu um caso.

O rapaz ganhou a atenção da maior firma de advocacia de Nova York, cujo dono é John Milton, vivido pelo grande ator Al Pacino. Kevin recebeu uma proposta “irrecusável” , um  salário altíssimo e várias benesses para se integrar à equipe de Milton, contra a vontade de sua mãe, uma mulher religiosa e simples.

O jovem advogado do interior, que tivera sempre uma atuação baseada na ética e em valores morais, quando se vê diante de vários casos de aparência duvidosa, se vende ao sistema do Milton, o empresário da advocacia, que no filme personifica o próprio diabo.

Pouco a pouco ele comprou o coração do jovem do interior, entusiasmado e deslumbrado com o dinheiro que jorrava aos borbotões, das mulheres lindas e oferecidas, das provas compradas, das testemunhas caladas, dos arquivos mortos, dos juízes desonestos.

Kevin fora contratado por Milton e o filme sugere algo muito comum nos dias de hoje. Ele simplesmente vendeu a alma ao diabo, sem perceber. Ele se tornou subserviente, mais um puxa saco que quando quis sair do ‘sistema’, foi chantageado pelo diabo com a falsa ideia de gratidão. Gratidão não se cobra, não se lembra, não se é moeda de troca.

Quando é lembrada, pode-se comparar à cobrança do ‘Milton’, que fez embaralhar a consciência do jovem e já não tão simples advogado; “Mas como, Kevin, eu te dei tudo, fama, casos fenomenais, um nome na mídia e é assim que você me paga, não reconhece o que te fiz?”

Está cheio de advogados do diabo por aí, que são seviciados pelos ‘John Miltons’ diabólicos e cheios de lábia cobrando gratidão dos bobos que se compadecem e cedem aos seus apelos mórbidos em troca de uma taça de champanhe ou de uma noite de orgia ou de um caso milionário, com holofotes na mídia.

O filme é uma verdadeira obra prima para quem quer se ver no espelho. Não basta assistir dez vezes sem se colocar no lugar de um e de outro. O Advogado e o diabo. Não adianta arrotar para os quatro cantos que é um filme divino se não se deu conta de saber qual é nossa parte escura, do que somos capazes de fazer ás escuras.”Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa” 

E não falo isso porque sou advogado porque trata-se de uma lição de vida para todos, todas as profissões, todos os seres humanos inebriados com a vaidade que cega. Ei, não estou livre disso, nem você. É um trabalho diário de se saber onde anda. A vaidade não é apenas o sapato caro nem o terno bem cortado e sim, querer ser o que nunca será, querer ter o que nunca terá, aliás, mais do que isso, querer tirar do outro o que não se tem competência ou moral para ter e mais, se sentir bem  e alegre com a infelicidade alheia. Isso sim é triste.

O advogado do diabo, Kevin Lomax, teve a chance de recomeçar a vida, voltar às suas origens simples, à sua amada e jovem esposa, mas continuou sendo tentado a ter o mundo em suas mãos, continuou com os ouvidos abertos aos sussurros sutis de Jonh Milton. Aliás, já diz o ditado que em terra de cego quem tem um olho é rei, imagina quem tem os dois!

( * ) – Olinto Campos Vieira é advogado e Procurador do Município de Parauapebas há uma década. Texto originalmente publicado no jornal O Regional, de Parauapebas.