Morre Coronel Nunes, o paraense que chegou ao comando do futebol brasileiro

Ex-presidente da CBF e histórico dirigente da Federação Paraense de Futebol, Antônio Carlos Nunes de Lima deixa uma trajetória que atravessou décadas e marcou profundamente o futebol do Pará. Foi durante sua gestão na FPF que a Liga Esportiva de Canaã dos Carajás conquistou sua filiação

O futebol paraense perdeu neste domingo, 13 de setembro, uma de suas figuras mais importantes e influentes das últimas décadas. Morreu, aos 87 anos, em Belém, Antônio Carlos Nunes de Lima, o Coronel Nunes, ex-presidente da Federação Paraense de Futebol (FPF) e ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Sua morte encerra uma trajetória singular: a de um paraense nascido em Monte Alegre, no oeste do estado, que saiu do futebol regional para ocupar a cadeira mais importante da administração do futebol brasileiro.

Coronel Nunes construiu uma longa história dentro da FPF, entidade que comandou por quase duas décadas. Sob sua liderança, tornou-se uma das figuras mais conhecidas e influentes da administração esportiva paraense e ampliou sua presença no cenário nacional.

Documentos e registros daquele período confirmam Antônio Carlos Nunes de Lima no comando da FPF e mostram a dimensão da estrutura que representava: além dos clubes profissionais e amadores, mais de uma centena de ligas participava do universo eleitoral da Federação.

DE BELÉM AO COMANDO DA CBF

A trajetória de Coronel Nunes ultrapassaria as fronteiras do Pará.

Ele chegou à cúpula da CBF e assumiu a presidência em momentos importantes e conturbados da história da entidade. Sua presença na direção máxima do futebol brasileiro colocou um paraense no centro das principais decisões envolvendo o esporte mais popular do país.

No período em que esteve à frente da CBF, Coronel Nunes a representou inclusive no cenário internacional. Durante a escolha da sede da Copa do Mundo de 2026, ganhou repercussão ao votar na candidatura do Marrocos, contrariando a posição majoritária da Conmebol, que apoiava a candidatura conjunta de Estados Unidos, Canadá e México.

Independentemente das controvérsias naturais de uma trajetória tão longa no comando de entidades esportivas, existe um fato impossível de ignorar: Antônio Carlos Nunes de Lima alcançou uma posição que pouquíssimos dirigentes paraenses conseguiram atingir.

Foi o Pará sentado na cadeira de comando do futebol brasileiro.

UM LEGADO PARA O FUTEBOL PARAENSE

Antes da projeção nacional, porém, foi no futebol paraense que Coronel Nunes construiu grande parte de sua história. Sua longa permanência na presidência da FPF fez dele personagem de diferentes momentos do nosso futebol, acompanhando clubes profissionais, ligas municipais, competições amadoras, arbitragem e a própria interiorização da estrutura federativa.

Para quem acompanha o futebol no interior do Pará, essa dimensão de sua trajetória merece atenção especial.

A Federação não representa apenas Remo, Paysandu, Tuna e os clubes profissionais. Por meio das ligas municipais, o futebol organizado chega aos municípios e permite que comunidades distantes da capital façam parte oficialmente da estrutura esportiva estadual.

E é justamente nesse ponto que a história de Coronel Nunes se encontra diretamente com a história esportiva de Canaã dos Carajás.

CANAÃ DOS CARAJÁS FAZ PARTE DESSA HISTÓRIA

Há um capítulo de sua gestão na Federação Paraense de Futebol que merece ser registrado para as futuras gerações do esporte canaense: foi durante a gestão de Antônio Carlos Nunes de Lima que a Liga Esportiva de Canaã dos Carajás (LECC) conseguiu sua filiação à FPF.

Não se trata de um detalhe burocrático.

A filiação representou o reconhecimento institucional do futebol organizado de Canaã perante a entidade máxima do futebol paraense e o inseriu oficialmente na estrutura federativa estadual. Hoje, a LECC continua tendo papel importante na organização do futebol amador do município, promovendo competições tradicionais e reunindo clubes e atletas das zonas urbana e rural.

A existência e a atuação atual da Liga Esportiva de Canaã dos Carajás estão documentadas inclusive em instrumentos oficiais do município, que registram sua participação na organização de campeonatos de futebol de campo, como a Taça Cidade, o Master e o Ruralzão.

Por isso, quando se escreve a história do futebol de Canaã dos Carajás, o nome do Coronel Nunes também deverá estar presente.

MINHA AMIZADE COM CORONEL NUNES

Escrever sobre a morte de Antônio Carlos Nunes não é, para mim, apenas registrar jornalisticamente o falecimento de um ex-presidente da FPF ou de um ex-presidente da CBF. É também escrever sobre a partida de um amigo.

Ao longo dos anos tive a oportunidade de manter uma relação pessoal de amizade com o Coronel Nunes. Por trás do dirigente conhecido nacionalmente, do homem que comandou a Federação Paraense e chegou à presidência da poderosa Confederação Brasileira de Futebol, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Antônio Carlos Nunes.

Por isso, sua morte produz em mim um sentimento que ultrapassa a obrigação profissional de informar.

Como jornalista e como alguém que acompanha há décadas o futebol paraense, reconheço a dimensão histórica de sua trajetória. Mas, como amigo, registro também a tristeza de sua partida.

As divergências, controvérsias e disputas que naturalmente acompanham quem permanece durante tantos anos no centro do poder esportivo pertencem à história e devem ser analisadas pela história. Neste momento, porém, é impossível não reconhecer o tamanho do personagem que o futebol paraense acaba de perder.

MILITAR, POLÍTICO E DIRIGENTE ESPORTIVO

Nascido em 21 de novembro de 1938, em Monte Alegre, no Pará, Antônio Carlos Nunes de Lima teve uma vida pública que foi muito além do futebol.

Serviu à Força Aérea Brasileira e posteriormente ingressou na Polícia Militar do Estado do Pará, instituição na qual construiu carreira até chegar ao posto de coronel — patente que acabaria incorporada definitivamente ao nome pelo qual ficou conhecido em todo o Brasil.

Também teve passagem pela política e administrou sua cidade natal, Monte Alegre.

Mas foi no futebol que seu nome alcançou projeção nacional.

Na Federação Paraense de Futebol consolidou sua liderança. Na Confederação Brasileira de Futebol alcançou o ponto máximo de sua trajetória como dirigente esportivo.

Também manteve forte ligação com o Paysandu Sport Club, onde exerceu diferentes funções ao longo dos anos.

O FUTEBOL PARAENSE ESTÁ DE LUTO

A morte de Coronel Nunes encerra um capítulo importante da história do futebol do Pará.

Poucos dirigentes paraenses chegaram tão longe na estrutura do futebol brasileiro: ele comandou a federação de seu estado, participou durante décadas das principais decisões do futebol paraense e chegou à presidência da CBF.

Para Canaã dos Carajás, deixa ainda uma marca particular: foi em sua gestão que nossa Liga Esportiva passou a integrar oficialmente a Federação Paraense de Futebol. Esse fato jamais deverá ser esquecido por aqueles que preservam a memória esportiva do município.

Hoje, entretanto, cargos, títulos e posições ficam em segundo plano.

Fica a história.

Ficam as lembranças.

Fica o legado de um homem que dedicou grande parte de sua vida ao futebol.

E, particularmente para mim, fica a lembrança e a saudade de um amigo.

Descanse em paz, Coronel Nunes.

À família, aos amigos e a todos aqueles que conviveram com Antônio Carlos Nunes de Lima, manifesto meus mais sinceros sentimentos.

O futebol paraense está de luto.

Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA nº 2627

Filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará (SINJOR-PA), à Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), à Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ) e à Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Estado do Pará (ACLEP).