Dirigir o Regional de Marabá: um dos cargos mais estressantes do Pará

À frente de uma das principais referências de alta complexidade do interior paraense, Flávio Marconsini enfrenta diariamente a pressão por leitos, cirurgias e atendimentos que podem representar a diferença entre a vida e a morte

Há funções públicas que exigem competência administrativa. Outras, exigem capacidade de liderança, equilíbrio emocional e poder de decisão. E existem aquelas em que tudo isso precisa estar reunido, porque, muitas vezes, uma decisão envolve o bem mais precioso de qualquer ser humano: a vida.

É nesse ambiente que trabalha diariamente o diretor-executivo do Hospital Regional do Sudeste do Pará – Dr. Geraldo Veloso (HRSP), em Marabá, Flávio Marconsini de Souza.

Pode-se dizer, sem exagerar na dimensão do desafio, que dirigir o HRSP está entre as funções mais estressantes e de maior responsabilidade da administração da saúde pública no interior do Pará.

O motivo está na dimensão da demanda que chega diariamente à unidade.

O Regional de Marabá é referência em procedimentos de média e alta complexidade para uma população superior a 1 milhão de pessoas, distribuídas por 22 municípios. Ali chegam pacientes em situação grave, vítimas de acidentes de trânsito, AVCs, ferimentos por armas de fogo e armas brancas e outras emergências que exigem assistência especializada. A unidade também atua em áreas como neurocirurgia, traumatologia, ortopedia, hemodinâmica, hemodiálise e oncologia.

UMA DEMANDA QUE NÃO PARA

Os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa responsabilidade.

Somente no primeiro semestre de 2025, o HRSP realizou mais de 268 mil atendimentos, crescimento de 57% em relação ao mesmo período do ano anterior. Foram 232.606 exames laboratoriais e de imagem, 20.830 atendimentos ambulatoriais, 2.650 internações, 2.367 cirurgias, 8.013 sessões de hemodiálise, 1.032 sessões de quimioterapia e 864 procedimentos de hemodinâmica.

São números impressionantes, mas, por trás de cada número, existe uma pessoa. Existe uma família. Existe alguém esperando uma cirurgia, uma vaga, um procedimento especializado ou um leito de Unidade de Terapia Intensiva.

É justamente aí que começa uma das faces mais difíceis da missão de dirigir o Regional.

O TELEFONE QUE PRATICAMENTE NÃO PARA

Para quem ocupa a direção executiva de um hospital dessa dimensão, dificilmente existe sossego.

O telefone se transforma praticamente em uma extensão do trabalho. São demandas que surgem durante o dia e podem continuar à noite, nos finais de semana e feriados.

Prefeitos, secretários municipais de Saúde, vereadores, deputados, lideranças políticas e comunitárias, profissionais de saúde e, principalmente, familiares desesperados diante da enfermidade de alguém procuram respostas.

E todos têm urgência.

Para uma mãe esperando uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para o filho, não existe burocracia. Para um filho aguardando cirurgia para o pai, não existe sábado, domingo ou feriado. Para uma família diante do risco de perder alguém, cada minuto parece uma eternidade.

É nesse limite entre a capacidade instalada do sistema público de saúde e a angústia humana que a direção do hospital precisa trabalhar. E isso exige muito mais do que conhecimento administrativo.

Exige preparo psicológico. Exige serenidade. Exige capacidade de ouvir. E, sobretudo, exige humanidade.

QUANDO A ANGÚSTIA CHEGA ÀS RODOVIAS

Um episódio recente mostrou, de maneira dramática, como a busca por atendimento de alta complexidade pode ultrapassar as paredes dos hospitais.

No dia 10 de setembro, moradores da região interditaram a BR-230 (Transamazônica), na altura da Vila Ponta de Pedras, em São João do Araguaia, reivindicando a disponibilização de um leito de UTI para Naiara Cristina Sousa Santos, que aguardava uma vaga no Hospital Regional do Sudeste do Pará.

O protesto provocou congestionamento e chegou a registrar momentos de tensão entre manifestantes e caminhoneiros.

O episódio revela uma realidade muito maior do que um caso isolado: quando uma família chega ao ponto de ocupar uma rodovia para pedir um leito hospitalar, estamos diante da dimensão humana e social da pressão exercida sobre toda a rede pública de saúde.

E parte significativa dessa pressão termina chegando ao HRSP.

ENTRE A ESPERANÇA E O LIMITE DO SISTEMA

O diretor-executivo de um hospital de alta complexidade ocupa uma posição particularmente delicada. Para a população, ele representa a autoridade máxima dentro daquela unidade. Por isso, muitas vezes, torna-se a última pessoa a quem familiares recorrem quando todas as outras portas parecem fechadas.

É necessário ouvir pessoas desesperadas sem perder o equilíbrio. É necessário compreender a dor sem prometer aquilo que, tecnicamente, não pode ser garantido.

É necessário administrar recursos humanos, equipamentos, UTIs, centro cirúrgico, medicamentos, exames, protocolos e uma gigantesca estrutura hospitalar, enquanto, do lado de fora, existem famílias esperando uma resposta.

É uma responsabilidade enorme.

PROFISSIONAIS PREPARADOS PARA CONVIVER COM A PRESSÃO

Mas seria injusto falar da direção sem destacar aqueles que sustentam diariamente o funcionamento do Regional. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, farmacêuticos, profissionais administrativos, equipes de apoio e demais trabalhadores precisam ter um enorme preparo técnico e psicológico.

São profissionais que convivem diariamente com dor, sofrimento, ansiedade, cobrança e, muitas vezes, com situações em que a medicina chega ao limite de suas possibilidades.

O serviço de urgência e emergência dispõe de equipes assistenciais capacitadas durante 24 horas para responder a casos graves, enquanto diferentes projetos do hospital procuram fortalecer também a humanização do atendimento.

Essa preparação psicológica é fundamental, porque quem trabalha dentro de um hospital de alta complexidade não cuida apenas de doenças. Cuida de pessoas fragilizadas e de famílias emocionalmente abaladas.

HUMANIDADE EM MEIO À PRESSÃO

É nesse contexto que também precisa ser observado o trabalho de Flávio Marconsini.

Administrar números é uma coisa. Administrar expectativas humanas diante do risco de morte é completamente diferente.

O diretor precisa manter o equilíbrio, mesmo quando recebe cobranças, pedidos urgentes e manifestações de familiares que, compreensivelmente, querem apenas uma coisa: salvar alguém que amam.

O próprio HRSP vem desenvolvendo ações voltadas à humanização. Somente nos quatro primeiros meses de 2026, mais de 10 mil pessoas foram alcançadas por 94 iniciativas de acolhimento, escuta e cuidado, segundo informações divulgadas pelo Governo do Pará.

Isso demonstra que alta tecnologia e atendimento humanizado precisam caminhar juntos.

UMA REFERÊNCIA PARA TODO O SUDESTE PARAENSE

A importância estratégica do Hospital Regional de Marabá está justamente na complexidade dos serviços que concentra. O hospital recebe pacientes encaminhados pela Central Estadual de Regulação e atende a uma região gigantesca. Historicamente, a unidade é referência para mais de um milhão de habitantes de 22 municípios.

Nos últimos anos, serviços antes praticamente inacessíveis para grande parcela da população do interior passaram a ser realizados em Marabá.

A hemodinâmica, por exemplo, já ultrapassou 4,5 mil procedimentos, incluindo intervenções cardiovasculares, neurológicas e vasculares de alta complexidade. Na oncologia, implantada em 2024, o Regional ultrapassou 10 mil atendimentos até fevereiro de 2026, reduzindo a necessidade de longos deslocamentos de pacientes com câncer em busca de tratamento.

Isso aumenta a importância do hospital — e também a responsabilidade de quem o administra.

UM CARGO EM QUE O SOSSEGO É RARO

Talvez poucas funções permitam compreender tão claramente o significado da palavra pressão.

Na direção do Hospital Regional do Sudeste do Pará, uma ligação telefônica pode significar uma nova emergência. Uma mensagem pode ser o pedido desesperado de uma família. Uma reunião pode envolver a ampliação de um serviço essencial. Uma decisão administrativa pode repercutir diretamente na assistência prestada a milhares de pessoas.

E o trabalho não termina quando o expediente administrativo acaba.

O hospital funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. A doença não conhece feriado. Acidente não marca horário. Infarto não espera segunda-feira. AVC não aguarda expediente. E a necessidade de uma UTI pode surgir no meio da madrugada.

Por isso, considerando a dimensão regional da unidade, a alta complexidade dos casos e a enorme pressão social que envolve a busca por atendimento, a direção-executiva do Hospital Regional de Marabá pode ser considerada uma das funções mais difíceis e estressantes da saúde pública paraense.

Flávio Marconsini está justamente no centro dessa engrenagem. 

Entre números e pessoas. Entre protocolos e urgências. Entre limitações e necessidades. Entre a capacidade do sistema e a esperança de quem pede socorro.

E talvez esteja exatamente aí a maior responsabilidade de quem dirige um hospital desse porte: não permitir que, em meio a milhares de atendimentos, estatísticas, cobranças e decisões administrativas, desapareça aquilo que deve continuar sendo a essência da saúde pública — o ser humano.

Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA nº 2627

Filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará (SINJOR-PA), à Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), à Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ) e à Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Estado do Pará (ACLEP).