Ícone da devastação da Amazônia repousa às margens de rodovia no Pará

Jornalista Carlos Magno reflete sobre a exploração da Floresta Amazônica no passado e no presente

Velho Chevrolet D60, utilizado durante décadas no transporte de madeira, tornou-se um retrato silencioso de uma época marcada pela exploração desenfreada da floresta; enquanto isso, décadas depois, grandes toras continuam sendo transportadas pela região.

Às margens da rodovia PA-263, na Vila Mojuzinho, em Breu Branco, no sudeste do Pará, repousa uma verdadeira testemunha de um dos períodos mais devastadores da história ambiental desta região da Amazônia.

É um velho caminhão madeireiro Chevrolet D60, com aproximadamente 45 anos de atividades, que durante décadas teria sido utilizado no transporte de toras retiradas da floresta.

Envelhecido pelo tempo, aparentemente abandonado e imóvel às margens da estrada, o lendário caminhão parece finalmente ter encontrado descanso.

A floresta, porém, não teve a mesma sorte.

Depois de passar décadas ajudando a transportar árvores gigantescas arrancadas da Amazônia, o velho Chevrolet D60 permanece ali como uma espécie de monumento involuntário a uma época em que a madeira saía da floresta em proporções impressionantes.

AS DÉCADAS DA DEVASTAÇÃO

Quem viveu ou percorreu esta região nas décadas de 1980 e 1990 certamente guarda na memória aquele cenário.

Breu Branco, Goianésia do Pará, Tucuruí, Baião, Tailândia, Jacundá e Novo Repartimento viveram um período de intensa exploração madeireira. Eram inúmeras serrarias espalhadas pelos municípios e povoados. Algumas possuíam várias serras-fitas funcionando praticamente de maneira ininterrupta.

O barulho das máquinas fazia parte da rotina das cidades.

Nas estradas vicinais, outro cenário impressionava: era um verdadeiro frenesi de caminhões madeireiros. Dia e noite, veículos entravam e saíam das vicinais carregando enormes toras retiradas da floresta e transportadas para as serrarias.

Árvores que levaram décadas — algumas, possivelmente séculos — para alcançar dimensões monumentais desapareciam da paisagem e chegavam às cidades sobre as carrocerias dos caminhões.

Madeira atrás de madeira.

Caminhão atrás de caminhão.

Serraria atrás de serraria.

Assim, silenciosamente, diante dos olhos de sucessivas gerações e dos órgãos responsáveis pela fiscalização, parte significativa da cobertura florestal regional foi sendo transformada.

O velho Chevrolet D60 que hoje repousa às margens da rodovia é uma testemunha de ferro dessa história.

Seu motor silenciou.

Suas rodas pararam.

Mas a exploração da floresta não desapareceu.

QUINTA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2026: UMA CENA QUE FAZ O PASSADO VOLTAR AO PRESENTE

O que deveria pertencer apenas às páginas da história voltou a aparecer diante dos meus olhos nesta quinta-feira, 10 de setembro.

Depois de avistar o velho caminhão madeireiro às margens da estrada, deparei-me, em Goianésia do Pará, com uma cena impactante: uma grande carreta transportando enormes toras de madeira transitava tranquilamente pelas ruas da cidade.

A imagem provoca uma pergunta inevitável: até quando?

É indispensável esclarecer que o simples transporte de madeira não comprova, por si só, a existência de crime ambiental. Cabe aos órgãos competentes verificar a origem da madeira, as autorizações, a documentação florestal e a regularidade de todo o carregamento.

Mas, justamente por isso, a fiscalização precisa existir — e precisa ser rigorosa.

Uma região marcada historicamente pela exploração madeireira não pode conviver com carregamentos dessa magnitude sem que a sociedade tenha a segurança de que a madeira possui origem legal e rastreável.

ONDE ESTÃO AS AUTORIDADES?

Essa pergunta precisa ecoar.

Onde estavam e onde estão os órgãos responsáveis pela proteção da Floresta Amazônica?

Como uma região que atravessou décadas de intensa exploração madeireira chegou aos dias atuais ainda convivendo com cenas de enormes toras sendo transportadas por suas estradas e cidades?

Não se pode aceitar a omissão como política ambiental.

Se o transporte é legal, que seja fiscalizado e comprovado.

Se houver irregularidade, que os responsáveis sejam identificados, autuados e responsabilizados na forma da lei.

O que não pode continuar é a sensação de que caminhões carregados de gigantescas toras podem atravessar estradas, vicinais e centros urbanos sem despertar qualquer reação efetiva do poder público.

Por isso, fica aqui uma cobrança pública aos órgãos ambientais municipais, estaduais e federais, às forças de fiscalização e ao Ministério Público:

Fiscalizem. Investiguem. Identifiquem a origem da madeira. Confiram a documentação. Apurem eventuais irregularidades. E, havendo crime, responsabilizem rigorosamente seus autores.

A Amazônia não suporta mais discursos desacompanhados de fiscalização.

O velho Chevrolet D60 às margens da estrada deveria ser apenas uma relíquia de um passado que jamais deveria se repetir.

Entretanto, quando olhamos para aquele caminhão parado e, pouco depois, encontramos uma carreta transportando enormes toras pelas ruas de Goianésia do Pará, passado e presente parecem separados apenas por alguns quilômetros de estrada.

O velho caminhão finalmente parou.

A devastação da Amazônia também precisa parar.

E, se diante de eventuais irregularidades comprovadas a omissão continuar, a história terá uma conclusão tão curta quanto vergonhosa: a floresta desaparece, os responsáveis enriquecem e o crime ambiental continua impune no Estado do Pará.

Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA nº 2627

Filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará (SINJOR-PA), à Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), à Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ) e à Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Estado do Pará (ACLEP).

Especialista em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

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