Grupo Mateus enfrenta crise após rombo contábil bilionário, queda das ações e fechamento de lojas

Gigante do varejo registra queda de 39,3% no lucro, reduz milhares de postos de trabalho e enfrenta dificuldades para recuperar a confiança dos investidores. Em Canaã dos Carajás, a força da mineração mantém aquecido o comércio nas lojas da rede

O Grupo Mateus, um dos maiores conglomerados varejistas do Brasil, atravessa um dos períodos mais delicados de sua história. A companhia fundada pelo empresário Ilson Mateus Rodrigues enfrenta queda na rentabilidade, fechamento de lojas, redução de funcionários e desvalorização de suas ações na Bolsa de Valores.

A turbulência ganhou força em novembro de 2025, quando a empresa revelou uma diferença contábil de aproximadamente R$ 1,1 bilhão na avaliação de seus estoques, relacionada a inconsistências nos cálculos do custo médio das mercadorias.

A revisão reduziu o valor dos estoques de 2024 de aproximadamente R$ 6 bilhões para R$ 4,9 bilhões, além de provocar uma diminuição de quase R$ 695 milhões no patrimônio líquido anteriormente divulgado. Embora não signifique necessariamente desaparecimento de mercadorias ou desvio de recursos, a inconsistência bilionária abalou a confiança dos investidores e levantou questionamentos sobre os controles financeiros da companhia.

Ações despencam e lucro cai 39,3%

A repercussão no mercado financeiro foi imediata. Após a divulgação das inconsistências, o Grupo Mateus teria perdido aproximadamente R$ 2 bilhões em valor de mercado em poucos dias.

Em 19 de março de 2026, as ações da companhia, negociadas na B3 sob o código GMAT3, registraram nova queda expressiva, de 14,43% em uma única sessão. Os resultados do segundo trimestre de 2026 reforçaram as dificuldades. Apesar do crescimento de 12,2% na receita líquida, que alcançou R$ 9,85 bilhões, o lucro líquido recuou 39,3%, encerrando o período em R$ 236,8 milhões.

O EBITDA, indicador de desempenho operacional, caiu 12,1%, para R$ 681,6 milhões, enquanto a dívida líquida chegou a R$ 1,09 bilhão.

Os números revelam o principal desafio da companhia: continuar crescendo em vendas, mas com dificuldades para transformar esse crescimento em lucros.

Fechamento de lojas e redução de milhares de empregos

A reestruturação atingiu diretamente as operações comerciais. No último trimestre de 2025, o Grupo Mateus fechou 13 lojas da Eletro Mateus no Pará, dentro de um processo de reorganização que alcançou seis estados.

Ao longo de 2025, foram encerradas 28 unidades especializadas em eletrodomésticos e móveis. Outras 20 lojas deixaram de comercializar produtos desse segmento.

Entre dezembro de 2025 e março de 2026, o quadro de funcionários sofreu uma redução líquida de 6.673 trabalhadores, equivalente a 13,9%, refletindo a política de contenção de despesas. As medidas evidenciam a dimensão da reorganização empresarial e seus impactos sobre trabalhadores, fornecedores e economias locais.

Ilson Mateus: do garimpo de Serra Pelada a um império do varejo

A crise representa um grande desafio para Ilson Mateus Rodrigues, empresário maranhense que construiu uma das mais expressivas histórias de empreendedorismo do país. Ex-garimpeiro de Serra Pelada, no Pará, Ilson iniciou sua trajetória comercial em 1986, com uma pequena mercearia de aproximadamente 50 metros quadrados em Balsas, no Maranhão.

Quatro décadas depois, o empreendimento transformou-se em um conglomerado bilionário, com presença em diversos estados brasileiros. Em 2020, ano em que o grupo abriu seu capital na Bolsa de Valores, Ilson Mateus figurava entre os brasileiros mais ricos, com patrimônio estimado à época em aproximadamente R$ 20 bilhões.

Atualmente, como presidente do Conselho de Administração, enfrenta o desafio de recuperar a rentabilidade da companhia e reconquistar a confiança do mercado financeiro.

Canaã dos Carajás: força da mineração mantém aquecidas as vendas

Enquanto o Grupo Mateus enfrenta dificuldades em diferentes regiões, Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, apresenta um cenário comercial favorável. A pujança econômica do município, impulsionada pelos grandes projetos de mineração da Vale, especialmente o Complexo S11D e a Mina do Sossego, movimenta milhares de trabalhadores e fortalece o comércio local.

Nesse ambiente, as duas unidades do Grupo Mateus instaladas na cidade — um supermercado e uma loja de eletrodomésticos — continuam registrando intenso movimento de consumidores, com estabelecimentos frequentemente cheios e vendas aparentemente aquecidas.

Embora a companhia não divulgue individualmente o faturamento dessas unidades, a movimentação comercial observada demonstra o potencial econômico do município. Canaã dos Carajás surge, assim, como um contraponto positivo às dificuldades enfrentadas pelo grupo, mostrando a importância da mineração para a geração de empregos, circulação de renda e fortalecimento do comércio regional.

O desafio da recuperação

O Grupo Mateus chega ao último trimestre de 2026 pressionado a demonstrar que suas medidas de redução de custos e reorganização operacional serão suficientes para recuperar a rentabilidade. A divulgação dos resultados do terceiro trimestre está prevista para 12 de novembro de 2026, quando investidores poderão avaliar a evolução dos indicadores financeiros.

Apesar das dificuldades, a companhia mantém faturamento bilionário e posição de destaque no varejo brasileiro. Os dados disponíveis indicam uma crise de rentabilidade e confiança, mas não caracterizam, por si só, uma situação de insolvência.

O desafio de Ilson Mateus é demonstrar que o império comercial construído a partir de uma pequena mercearia no interior do Maranhão possui a mesma capacidade de superação que marcou sua trajetória de crescimento.

Carlos Magno
Jornalista associado ao Sinjor, à Fenaj e à Fij — DRT/PA 2627

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