Governo dos EUA será sócio da mineradora que comprou a Serra Verde

Pacote de financiamento de US$ 1,6 bilhão envolve participação acionária na USA Rare Earth, que comprou a mineradora brasileira

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A USA Rare Earth (USAR), empresa listada na Nasdaq, assinou um pacote de financiamento de US$ 1,6 bilhão com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos (DOC, na sigla em inglês). Como contrapartida, o governo americano vai deter participação acionária na empresa. 

Os Estados Unidos passam, assim, a ser sócios na mineradora Serra Verde, dona da única mina que produz e processa terras raras em escala comercial no Brasil hoje. Em abril, a USAR firmou acordo para adquirir a Serra Verde, que também está incorporada às condições do novo pacote de financiamento.

A transação ainda depende de aprovações regulatórias e de acionistas para ser concluída.

Os recursos do financiamento serão destinados para o desenvolvimento do projeto de mineração no Texas da USAR e para a unidades de processamento de metais e fabricação de ímãs permanentes em Oklahoma.

O contrato inclui cláusulas de segurança nacional e restrições a transações envolvendo países ou entidades classificadas pelos Estados Unidos como de preocupação.

Estrutura financeira

O acordo envolve uma complexa engenharia financeira.

O pacote de empréstimo de R$ 1,6 bilhão é dividido em duas partes: a primeira, de US$ 277 milhões, é de recursos não reembolsáveis concedidos pelo DOC e a segunda, de US$ 1,3 bilhão, é um empréstimo garantido pelo governo federal por meio da Federal Financing Bank (FFB), corporação vinculada ao Departamento do Tesouro americano.

A USA Rare Earth vai emitir 16,1 milhões de ações ordinárias para o DOC como contrapartida (inducement) para o governo entrar nos contratos de financiamento – ou seja, o governo recebe esse pacote acionário sem desembolsar caixa por ele.

É parte do “preço” que a USAR paga pelas condições favoráveis do financiamento, não um investimento de capital novo entrando na empresa. 

Pelos termos do acordo protocolado na SEC, o DOC fica com 100% desses papéis independentemente de quanto financiamento for efetivamente liberado. Ou seja, a participação está descolada do fluxo dos US$ 1,6 bilhão.

O governo americano também recebe um warrant que lhe dá o direito a adquirir outros 17,6 milhões de ações a US$ 17,17, o que geraria um aporte de US$ 302 milhões para a USAR – aqui sim em dinheiro novo. Este, porém, é um evento futuro e opcional: só acontece se e quando o warrant for exercido.

Requisitos do acordo

O acordo prevê que a USAR deve captar US$ 375 milhões até março de 2027, além do valor desembolsado na compra da Serra Verde – estimado em US$ 2,8 bilhões. Até o fim do ano que vem, a empresa terá que levantar outros US$ 875 milhões em capital próprio.

Dividendos da Serra Verde podem abater parte dessas metas de capitalização. Inicialmente, cada dólar recebido da operação brasileira poderá abater integralmente as metas de captação até compensar o valor gasto na aquisição. Depois disso, apenas metade dos dividendos poderá ser usada para reduzir essas obrigações.

A Serra Verde, localizada em Goiás, é a única mineradora fora da Ásia a extrair em escala comercial os quatro elementos mais cobiçados dos 17 que são chamados de terras raras, segundo o Ministério de Minas e Energia. Segundo a USAR, essa caraterística faz a Serra Verde ser um “ativo único” fora da Ásia. 

Esses minérios são estratégicos para a expansão da inteligência artificial (IA), transição energética e sistemas de defesa. A estratégia do governo americano é reduzir a dependência dos minerais da China, que hoje controla esse mercado.

No começo deste ano, a Serra Verde recebeu um financiamento de US$ 565 milhões do governo americano, por meio da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional (DFC), braço de investimentos dos Estados Unidos no exterior.

A mesma DFC também assinou meses depois um acordo de intenções para comprar uma participação minoritária da Terra Brasil, que pretende colocar em pé duas plantas-piloto: uma de terras raras e outra de fertilizantes.

Dessa vez, o financiamento para a USAR foi concedido por meio de um programa de incentivos chamado de CHIPS Act, criado originalmente para fortalecer a indústria americana de semicondutores.

(Fonte: Reset)