Pará

Em “batalha” dos apartes, deputados Toni Cunha e Chamonzinho duelam na Alepa

Aliados do governador Helder Barbalho (PMDB), os deputados estaduais Wenderson Azevedo Chamon, o Chamonzinho (PMDB) e Antônio Carlos Cunha Sá, o Toni Cunha (PTB), não estão perfilados pelos mesmos astros. Enquanto não ocorre um alinhamento dos planetas, parece que o fosso que separa os dois só vai aumentar. A rusga ficava meio velada até antes de ambos assumirem uma cadeira na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), mas ficou escancarada durante a sessão ordinária desta terça-feira, dia 19.

A discussão ganhou um terceiro protagonista no Plenário da Alepa. Foi o deputado Eliel Faustino (DEM), que foi líder de governo de Simão Jatene na legislatura passada. Tudo começou na fala do deputado Carlos Bordalo (PT), quando o colega Faustino pediu um aparte e disse que não concorda que chefes de polícia de determinadas regiões sejam indicados por um parlamentar. “O policial tem de ter autonomia e independência para estar naquele posto”, afirmou, mas sem citar nome de Chamonzinho.

Toni também pediu aparte e disse concordar com o deputado Eliel. Com Chamonzinho aparecendo de fundo, no vídeo, sentado em sua cadeira, Cunha fortaleceu o discurso que vem pregando nas redes sociais, dizendo que “é inadmissível, atualmente, que a gente permita que as forças policiais sofram interferência lateral nas indicações”.

Chamozinho pediu o terceiro aparte a Bordalo, que lhe concedeu sorrindo e já prevendo o que vinha pela frente. Começando num timbre de voz mais brando e subindo paulatinamente até abrir o botão do paletó, Chamonzinho disse que estão tentando esconder o que a história vem mostrando ao longo de todos os anos. Criticou que na eleição do ano passado, o ex-governador, Simão Jatene, por meio do comandante-geral de Polícia Militar, tenha aquartelado os comandantes de polícia dos batalhões que não estavam acompanhando os candidatos dele, governador.

“E agora o deputado Eliel não quer interferência nas indicações. Se a segurança pública no Estado está um caos é culpa dos desgovernos dos últimos oito anos. Estão fazendo de conta, neste Parlamento, que a política começou agora e o mundo iniciou hoje. Deputado Toni Cunha veio aqui se manifestar e disse que não pode ter essa lateralidade. Mas qual é essa lateralidade? A saúde é tão importante quanto a segurança pública”, disse.

Instado a terminar sua fala, Chamonzinho deixou o restante para o momento em que ele usaria a tribuna da Alepa.

Com o direito à palavra de volta a Bordalo, o experiente deputado disse que aquele debate precisava continuar, observando, por outro lado, que o modelo que está sendo implantado na segurança pública do Estado do Pará, na atual gestão, deve ter continuidade porque está dando bons frutos. Sobre as indicações políticas para cargos na segurança pública, ele lavou as mãos e alegou não entender do assunto.

Logo em seguida, o ex-prefeito de Curionópolis usou a tribuna formalmente e já foi logo concedendo aparte a Toni Cunha, que disse que sua opinião deveria ser respeitada, porque “é um sentimento técnico. Não é, embora o senhor queira parecer que seja, a mesma coisa que indicar um diretor de hospital, porque não há hierarquia nessas relações, mas sim de subordinação. A hierarquia não admite interferência lateral. Agora, se o senhor me disser que isso tem sido um hábito na história de nosso estado e do País, eu até concordo. Mas nós temos de criar instrumentos para minimizar essa interferência”.

Na visão de Toni Cunha, quando há indicação para pessoas que ocupam cargos de chefia nas forças de segurança, há a ideia de que aquela pessoa passa a dever favores para o “padrinho político”. Ele sugere que sejam estudadas medidas legislativas para minimizar essas indicações que chama de “interferências”.

ESQUENTOU DE NOVO

Depois da fala de Toni, Chamonzinho não deixou barato. Disse que se estava diante de um caso que cumpria o provérbio popular: “casa de ferreiro, espeto de pau”, recordando que quando Cunha fora vice-prefeito de Marabá, havia indicado o secretário de Segurança Institucional (Jair Barata) e outros chefes de órgãos de segurança, que comandam a Guarda Municipal, por exemplo. “Agora não se pode indicar? Não sei se o senhor ficou…Por ser delegado de Polícia Federal…Vossa Excelência faz questão de usar o distintivo aqui neste Parlamento para explicitar a sua função originária…não sei em qual tentativa. Eu quero dizer para Vossa Excelência que quem não aceita o contraditório é Vossa Excelência (Toni Cunha). Eu não me envergonho de ter dito ao governador que ‘acredito que este coronel possa contribuir com a segurança pública’. E os índices (de queda da violência) hoje estão lá. Agora vai, deputado Cunha, do caráter de quem indica e do indicado”.

Chamozinho disse que apenas indicou e o currículo foi avaliado pelo comandante-geral de Polícia Militar e pelo governador do Estado. “Não tenho poder de nomear, apenas de indicar, como todos nós indicamos para vários cargos. Parece que este Parlamento está vivendo um novo tempo, em que parece que ninguém indicou nada aqui. Eu fico impressionado com o que estou vendo aqui”.

“NÃO SEJAMOS HIPÓCRITAS”

O ex-prefeito de Curionópolis lembrou que, caso haja abusos, ilicitudes ou excessos por parte de quem assumiu gestão de um cargo público, nas polícias, por exemplo, as denúncias serão apuradas pelas corregedorias. “Quem indicou, deputado Cunha, fui eu mesmo, e não tenho vergonha disso. Não sejamos hipócritas nesta Casa de falar sobre indicação”.

Embora não tenha declarado formalmente, Toni Cunha está aliado ao governo de Helder Barbalho e já até fez indicação para a direção da Estação Cidadania em Marabá, um dos órgãos que têm mais cargos no município. Também estaria a sua espera a indicação de um nome para a gestão da 4ª Unidade Regional de Educação.

O desfecho da temática (por enquanto) foi numa discussão entre os deputados Chamonzinho e Eliel Faustino. Esse último disse que temia que o primeiro fizesse “polícia política” e alegou nunca ter indicado ninguém para cargo das polícias quando foi líder do governo de Jatene na gestão passada. Chamonzinho pegou a palavra de volta, elevou o tom de voz de novo e disse que ele, Eliel, havia, sim, indicado um “certo tenente” para Curionópolis, que estaria cometendo injustiças no município. “Tanto que depois foi transferido de lá para o Marajó porque não atendeu aos anseios de Vossa Excelência”.

E os trabalhos na Alepa estão só começando, senhores!

Por Ulisses Pompeu – correspondente do Blog em Marabá