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Marabá

Dira Paes chega a Marabá para gravar longa-metragem “Pureza”

Diretor conta ao blog os bastidores do filme que vai contar história de uma mulher que viajou por três anos em busca de um filho cooptado pelo trabalho escravo
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Se nas próximas semanas você cruzar com a atriz Dira Paes em restaurantes, shopping center ou hotel de Marabá, não pense que se trata de um totem de propaganda. Será a atriz mesmo, que a partir do dia 28 de maio estará em Marabá para atuar como protagonista no longa-metragem “Pureza”, que vai enfocar a longa jornada de uma mulher maranhense (Pureza Lopes Loiola) que peregrinou pelo Pará em busca de um filho aliciado para o trabalho escravo.

Por cerca de uma hora, o aclamado produtor Renato Barbieri conversou com o jornalista Ulisses Pompeu em um hotel de Marabá para explicar os bastidores das filmagens e o impacto que elas terão para a cidade quando as gravações se intensificarem, no início de junho próximo. Barbieri já lançou filmes de prestígio no cenário nacional, como “Cora Coralina – todas as vidas”, que recentemente ganhou prêmios em festivais, incluindo o do Júri Popular do Melhor Filme de Longa-Metragem no 49° Festival de Brasília. Na entrevista, ele foi acompanhado do colega produtor Marcus Ligock. A seguir, a entrevista:

Blog do Zé Dudu – Como você conseguiu garimpar a história para esse filme no interior do Maranhão?

Renato Barbieri – Essa história surgiu para mim em 2007, há 11 anos. O fotógrafo Hugo Santarém me contou a saga de Dona Pureza, que ganhou um prêmio internacional pelo reconhecimento da sua luta, que foi movida pelo desejo insistido de uma mãe encontrar seu filho. Imediatamente me encantei com a história, mas não tínhamos o contato dessa mulher, da cidade de Bacabal-MA. O amigo fotógrafo me trouxe a pesquisa preliminar, mas não chegou a trazer o contato dela.

Eu já tinha produzido campanhas para a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), com vídeos sobre drogadição, por exemplo, para a Campanha da Fraternidade. E fiz contato com Dom Orani Tempesta, que estava Belém, mas que exercia o cargo de diretor de comunicação da CNBB. Ele tinha conhecimento da Dona Pureza, mas também não tinha o contato dela. Mas como na história que me chegou havia o nome de um padre da CPT (Comissão Pastoral da Terra) que tinha ajudado a dona Pureza – chamado Flávio – de São Luís, dom Orani conseguiu o contato desse clérigo e me passou.

O padre disse que já conhecia meu trabalho, com o “Atlântico Negro na Roda dos Orixás”, que é um filme que ganhou Margarida de Prata, da CNBB. Ele me deu o número do telefone da dona Pureza.

Blog do Zé Dudu – E como foi o primeiro contato com ela?

Renato Barbieri – Dona Pureza atendeu e falei que queria produzir um filme da sua vida e ela aceitou. É uma mulher evangélica, que me contou que um pastor teve a revelação de que os olhos do mundo iriam lhe ver. E ela disse que só naquela ligação telefônica entendeu que seria o cinema. Pureza é uma mulher simples, mas inteligente e perspicaz. E ali começou uma boa relação entre nós. Em 2007, fui com o produtor Paulo Morelli, de São Paulo, para iniciar o desenvolvimento do projeto em Bacabal. Foi uma viagem longa, estrada bem difícil. Tive acesso ao acervo dela, pois é uma pessoa organizada, que escreveu cartas para três presidentes pedindo ajuda para encontrar seu filho.

Blog do Zé Dudu – E como foi a trajetória para reencontrar esse filho “perdido”?

Renato Barbieri – Primeiro, é preciso entender que dona Pureza é uma mulher que se alfabetizou aos 40 anos de idade para aprender a ler a Bíblia. Nessa época ela tinha 53 anos de idade e iniciou a busca pelo filho em 1993. Agora tem 78 anos. Ela tinha fotos, fez uma jornada de três anos e dois meses em busca de Adão, que saiu de casa com 19 anos. Moveu montanhas, foi a Brasília para falar sobre essa busca, registrou fotos, gravou depoimentos, tudo muito organizado. O jornal Correio Brasiliense publicou matéria de página inteira sobre sua saga. Ela emprestou o acervo que tinha, levei para Brasília e digitalizamos tudo e devolvemos com uma cópia em DVD. A partir desses registros fiz o primeiro roteiro, e de lá para cá estamos na sexta versão.

Blog do Zé Dudu – Quem são os apoiadores desse projeto?

Renato Barbieri – Para esse filme Pureza já agregamos 25 instituições, como a Secretaria de Justiça, Secretaria Nacional de Direitos Humanos, TRT 8ª região, Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Federal, CPT, Sinart, além da Unesco e Itamaraty.

Blog do Zé Dudu – Por que escolheram Marabá como cidade cinematográfica para esse o filme Pureza?

Renato Barbieri – Eu poderia fazer esse filme em algumas cidades, como Imperatriz, Açailândia, Bacabal, Belém, São Luís, Palmas, mas escolhi Marabá porque fiquei encantado. Não conhecia essa cidade, embora tivesse viajado por muitos lugares da Amazônia.

Marabá me encantou porque tem belezas fantásticas, arquitetura peculiar e diversa, me oferece uma estrutura hoteleira muito boa, aluguel de veículos, gerador de energia, banheiros químicos para alugar, restaurantes, locação de drones. Enfim, afirmo que esta é uma cidade cinematográfica. Eu tenho falado para os meus amigos cineastas como Marabá é uma cidade que tem uma vocação cinematográfica fantástica, mais do que Belém, Santarém ou outras capitais amazônicas.

Antes de escolher Marabá, eu estudei a história daqui, vi que o povo é muito acolhedor, que foi formada por muita gente que veio de fora. Já cheguei a pensar em elaborar um projeto sobre Rio Tocantins, que integra o Centro Oeste e o Norte.

Blog do Zé Dudu – Vocês começaram a pré-produção. Já escolheram os cenários onde farão as principais filmagens?

Renato Barbieri – Teremos vários ambientes. Estamos filmando em Marabá como se fosse Bacabal, Imperatriz, Açailândia, Altamira, Rondon do Pará, entre outras cidades por onde Pureza passou, tanta na área urbana quanto na rural. Marabá me oferece uma miríade de bairros e ruas, quatro opções de rodoviárias, embora tenha apenas duas. Temos diversas cidades do ponto de vista dos bairros, das ruas, das pontes, como se eu pudesse estar em várias cidades, mas sem me deslocar daqui. Não é qualquer cidade que tem essa vocação. Parauapebas também me encantou, mas decidi por aqui por questão de logística.

Blog do Zé Dudu – O elenco do filme é formado por quantas pessoas?

Renato Barbieri – A gente tem uns 30 atores com força dramática e mais uns 15 com importância funcional. Estamos trabalhando com atores de Belém, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Estamos garimpando pessoas daqui, com falas. Atualmente, Marabá ainda não apresenta um potencial de elenco com experiência, mas estamos trabalhando isso e acreditamos que o filme vai ajudar a impulsionar essa vocação dramática de grupos de teatro.

Blog do Zé Dudu – Por que escolheu Dira Paes para fazer o papel de Pureza?

Renato Barbieri – A Dira Paes é uma paraense cabocla e tem pele marrom, como Pureza. É uma grande estrela. Onze anos depois de conhece-la, fui apresentar a dona Pureza para Dira Paes. Fiz o mesmo trajeto para Bacabal, foi uma grande surpresa para Dira conhecer aquela mulher muito lúcida, forte, sem vaidades e bem resolvida. Ela encontrou o filho e voltou para casa. Tem uma conexão direta com Cristo sem intermediários, é movida por sua fé inabalável, passou por situações de perigos, fome, cedo, andou sozinha na mata, enfrentou duas onças (mas ela é uma onça – risos).

Blog do Zé Dudu – Quando Dira Paes chega de vez a Marabá?

Renato Barbieri – Temos uma equipe que está em Marabá de forma definitiva. Nos próximos três meses: maio, junho e julho vamos filmar de forma intensa. Eu vou ficar morando aqui, traremos uma equipe grande, mas vamos aproveitar muita gente da cidade. O filme, com certeza, vai incrementar a economia local com a contratação de figurantes. A Dira chega no dia 28 de maio e fica até o final de julho. Os filhos dela, que são pequenos, vêm para Marabá também, porque o cinema tem uma semana de seis dias de trabalho intenso, com 12 horas de atuação por dia e ela não poderá viajar aos finais de semana para o Rio e ficar com os filhos.

Blog do Zé Dudu – E qual o tamanho da equipe que vai atuar nos bastidores para gravação desse filme?

Renato Barbieri – Teremos aqui cerca de 50 pessoas, fora o elenco. Trata-se de uma equipe muito profissional, com muita experiência. Acabamos agregando à equipe um grande cineasta chamado Afonso Beato, que está aqui conosco, pensando no filme para uma projeção internacional. É um homem que planeja a fotografia do filme e já trabalhou com Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Arnaldo Jabor e Walter Sales, por exemplo. Um filme dele já ganhou Oscar (Tudo sobre minha mãe), mas também filmou “O amor nos tempos do Cólera”.

Blog – Qual a previsão para o lançamento do filme Pureza?

Renato Barbieri – No planejamento, este filme fica pronto no início de 2019, e pretendemos exibi-lo em festivais nacionais e internacionais. Em 2020 vamos levá-lo às salas de cinema, Netflix, entre outras plataformas de exibição. Queremos que essa história vá para o mundo.

Ulisses Pompeu – de Marabá

Comentários ( 2 )

  1. Que linda história! Aliás, que luta, que amor! Parabéns ao produtor por desbravar esse relato! Dona Pureza, um exemplo de mulher, de mãe!
    Ja esperando ansiosa pela estréia.

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