“Dilúvio” surpresa revela deficiência histórica na infraestrutura de Parauapebas

Em uma hora e meia de ontem, choveu quase metade do esperado para o mês de novembro inteiro. Previsão para esta sexta é de mais chuva à noite. Cidade tem problemas de drenagem.
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A forte chuva que caiu entre as 16h30 e as 18 horas da última quinta-feira (21) sobre a cidade de Parauapebas mandou um recado de como será o tom do inverno nos próximos meses. O primeiro grande temporal da estação deixou diversos pontos de alagamento e chama atenção para um problema histórico: a falta de infraestrutura de drenagem eficiente para suportar grandes volumes de chuva, como o registrado ontem, que arrastou carros, invadiu casas e estabelecimentos comerciais, levou casa e desalojou dezenas de famílias. E a origem do problema está no crescimento acelerado da população local, que marchou para ocupar topo de morros, encostas e áreas de brejo, alimentando uma verdadeira bomba-relógio urbana.

De acordo com dados levantados pelo Blog do Zé Dudu junto ao Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), caíram cerca de 70 milímetros de chuva em um hora e meia de temporal pesado. Isso equivale a 49,5% dos 141 milímetros esperados para o mês de novembro inteiro. Segundo os meteorologistas, a pluviosidade de um milímetro corresponde a um litro de água de chuva que se acumulou sobre uma superfície de área igual a um metro quadrado.

Em termos didáticos, e para simplificar o fenômeno que ocorreu em Parauapebas, se a cidade fosse isolada num aquário, por exemplo, a quantidade de chuva que caiu ontem deixaria todo mundo com a água parada à altura do pescoço, considerando-se uma pessoa com altura média de 1,70 metro.

Mas a força da água da chuva que encharcou o solo da cidade tem explicação: a falta de drenagem de águas pluviais, um grave e crônico problema na capital do minério que o prefeito Darci Lermen promete resolver com as obras do Programa de Saneamento Ambiental, Macrodrenagem e Recuperação de Igarapés e Margens do Rio Parauapebas (Prosap), megaempreendimento financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e que tem contrapartida de recursos da prefeitura.

Falta de planejamento técnico

Em Parauapebas, os pontos mais críticos da sede urbana no tocante a eventos de precipitação acentuada estão em áreas de risco às margens de corpos hídricos e em morros precariamente habitados, com vegetação constantemente suprimida para a construção de residências com condições inseguras e inadequadas. É iminente o risco de inundações, enxurradas e deslizamentos de terra, o que requer ações para manejo de águas pluviais nesses setores.

Por outro lado, um diagnóstico elaborado para consubstanciar as ações do Plano Municipal de Saneamento Básico, bem como as obras do Prosap, reconhece na página 90 a falta de planejamento técnico do município. Segundo o estudo encomendado pela Prefeitura de Parauapebas, a ausência de um plano municipal direcionado às atividades de manejo de águas pluviais impossibilita o direcionamento do uso e ocupação do solo de forma adequada, por meio de regulamentações.

Para implementar esses instrumentos, faz-se necessário o conhecimento detalhado de condições específicas do município, como geomorfologia, planialtimetria, disposição de bacias hidrográficas e microbaciais, entre outras. O acesso a essas informações possibilita o dimensionamento adequado das estruturas que compõem o sistema de drenagem de um local e estratégias de intervenção.

Problemas socioeconômicos

O elevado número de moradias em condições irregulares é, para piorar, fator de peso para a incidência de áreas alagáveis. Essas habitações decorrem, sobretudo, de problemas socioeconômicos, como o empobrecimento da população, que, em situação de vulnerabilidade, ocupa irregularmente áreas não apropriadas para moradia. Nesse ínterim, deve-se considerar também a falta de instrução dos moradores, principalmente no que tange ao respeito às áreas de preservação legalmente instituídas e ao conhecimento da abrangência total do corpo hídrico, especialmente nos períodos com chuvas mais acentuadas.

Além disso, a falta de manutenção e limpeza em canais (com o lançamento de resíduos sólidos em cursos d’água por moradores) e em componentes de drenagem (como estruturas de meio-fio, bocas de lobo, poços de visita, manilhas e galerias) são fatores que alicerçam enchentes com alto poder de destruição, como a que foi verificada ontem.

E mais chuvas virão nos próximos dias. Se os satélites do CPTEC estiveram corretos, nesta sexta-feira (22) à noite, vai chover mais. A população e o poder público precisam, desde já, colocar as barbas de molho porque, de agora por diante, muita chuva vai se abater sobre o Pará. Inclusive, o CPTEC emitiu alerta, para Parauapebas e região, de que “ocorrerão pancadas de chuva acompanhadas de raios e que, pontualmente, poderão ser intensas e vir também acompanhadas de rajadas de vento de forte intensidade”.

O período inspira cuidados, e a Prefeitura de Parauapebas garante em nota que as equipes de Defesa Civil já estão a postos. É mesmo necessário, pois o inverno só está começando.

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