Casas da Cultura debatem sustentabilidade de territórios e criam rede nacional de equipamentos culturais do Pará e outros estados

Integrando a Semana Nacional dos Museus, iniciativa inédita em Canaã dos Carajás reúne grandes referências do Ceará, Bahia, Rio de Janeiro e da Amazônia para discutir arte, educação, identidade e turismo cultural
Cristina Maseda

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Como aproximar a gestão cultural das identidades locais, fortalecendo a arte-educação, o turismo de base comunitária e a cidadania fora dos grandes centros metropolitanos? Para responder a esse desafio, a Casa da Cultura de Canaã dos Carajás realiza, nos dias 19 e 20 de maio, o simpósio inédito “Onde Mora a Cultura: Casas de Cultura – Experiências Brasileiras”. O evento, que integra a programação oficial da Semana dos Museus, tem como objetivo geral promover um espaço de reflexão e intercâmbio sobre o papel desses espaços polivalentes no Brasil contemporâneo. 

Através de palestras e painéis, a iniciativa busca discutir esses equipamentos como territórios vivos de criação e mediação social, fomentando e fortalecendo uma rede nacional capaz de valorizar narrativas territoriais e mapear experiências plurais em todo o país.

Realizado no sudeste do Pará, o simpósio projeta os municípios de Canaã dos Carajás, Parauapebas e Marabá no centro do debate sobre o impacto social de instituições culturais que operam longe das capitais, mas que guardam uma produção efusiva e particular de saberes. Para além de locais de contemplação, as Casas de Cultura são tratadas no encontro como ambientes essenciais para a recriação da tradição, construção coletiva do presente e ativação de economias criativas e sustentáveis.

Articulação em rede e projeção nacional

A diretora da Casa da Cultura de Canaã dos Carajás, Gabriela Sobral, destaca que o simpósio representa um marco no reposicionamento estratégico do equipamento, criando conexões que ultrapassam as fronteiras do estado do Pará.

“O simpósio ‘Onde Mora a Cultura’ é uma iniciativa inédita da Casa da Cultura que vem no sentido de nos reposicionar em interlocução com parceiros para além do Pará. Convidamos instituições de peso, como a Casa da Cultura de Paraty (RJ), a Fundação Casa de Jorge Amado (BA) e o arte-educador Alemberg Quindins, da Fundação Casa Grande (CE), além da nossa parceria regional com a Casa da Cultura de Marabá”, explica.

Para ela, é desta forma que a Casa da Cultura se projeta para a formação de uma rede nacional para debater a importância desses equipamentos na promoção do turismo de base comunitária, nos diálogos sobre patrimônios locais e na educação patrimonial em parceria com o ensino formal. 

“Esses espaços são essenciais para a sustentabilidade e cidadania nos territórios fora dos grandes centros, onde há uma produção efusiva e muito particular de elementos fundamentais para a identidade cidadã”, conclui Gabriela Sobral.

A força do Brasil profundo

Um dos grandes destaques do primeiro dia do evento é o músico, empreendedor social e fundador da renomada Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri (CE), Alemberg Quindins. Criador de uma metodologia revolucionária de arqueologia social e arte-educação conduzida por crianças no sertão do Ceará, Quindins traz sua bagagem para o debate em Canaã dos Carajás.

Ao relembrar o impacto de sua primeira visita à cidade e a sintonia fina que encontrou na gestão cultural local, o painelista celebrou a potência do encontro:

“A primeira vez que estive em Canaã, tive a grata satisfação de conhecer a Casa da Cultura e o trabalho feito lá; o cuidado e o carinho que se vê nas produções que passam pela Casa. A gente vê o trato que é dado àquilo que vem a servir a toda uma comunidade tão bela e poética que é a cultura brasileira. É uma equipe qualificada, onde a gente vê que são escolhidas as pessoas,” disse. “Isso me fez ter vontade de conhecer a região, a cidade, e guardo comigo no coração. Voltar a Canaã é sempre uma expectativa de rever um Brasil profundo, e rever esse equipamento cultural reafirma o compromisso do povo brasileiro com a sua cultura”.

Identidade e cidadania contra a fragmentação do território

A mesa de abertura também conta com o olhar técnico e sensível de Ramon Cabral, cientista social, mestre em História e educador patrimonial da Fundação Casa da Cultura de Marabá (FCCM). Com mais de dez anos de experiência em arqueologia e memória social na Amazônia Oriental, Ramon contextualiza a importância histórica de fixar as identidades locais em uma região profundamente marcada por migrações e dinâmicas econômicas flutuantes:

“Marabá, assim como vários outros municípios do sudeste paraense, há décadas tem como parte de sua dinâmica a formação de populações flutuantes, decorrentes da circulação de trabalhadores vinculados às grandes obras de infraestrutura e da exploração mineral. Por ser o município mais antigo da região, convive com essa realidade há mais tempo, desde os ciclos econômicos do caucho, da castanha, do diamante e do ouro”, reflete o pesquisador.

Ramon lembra que, apesar de hoje Marabá já possuir uma população mais bem definida, a Fundação Casa da Cultura de Marabá, criada na década de 1980, ainda desempenha papel relevante no que diz respeito a pesquisas científicas, educação patrimonial e trabalhos sociais junto à comunidade. 

“Graças aos projetos desenvolvidos e aos diversos serviços oferecidos nas suas quase 40 extensões distribuídas em áreas periféricas — com destaque para as aulas de música —, a instituição tem dado uma relevante contribuição para o processo de construção cidadã das crianças marabaenses”, pontua.

Como resultado prático do encontro, o simpósio dará início a um mapeamento inédito das experiências plurais desses equipamentos nos territórios brasileiros, pavimentando o caminho para a construção de uma rede permanente de comunicação, trocas de saberes e produção de conhecimento.

Além disso, as reflexões e artigos produzidos pelos participantes durante o evento serão disponibilizados de forma gratuita e acessível nas plataformas digitais da Casa da Cultura de Canaã dos Carajás, com a perspectiva de futuramente compor uma publicação editorial exclusiva sobre o tema.

Serviço

Simpósio Onde Mora a Cultura: Casas de Cultura – Experiências Brasileiras (Programação integrante da Semana dos Museus)

  • Local: Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (Rua das Esmeraldas, 141. Nova Canaã II, Canaã dos Carajás – PA)
  • Público: Livre
  • Informações: (94) 99220-3451
  • Entrada: Gratuita
Roberto Aguiar

Painel 1 – Casas de Cultura e Arte-Educação: Espaços de Criação e Mediação Cultural

  • Participantes: Alemberg Quindins (Fundação Casa Grande – CE) e Ramon Cabral (Fundação Casa da Cultura de Marabá – PA)
  • Data: 19/05
  • Horário: 19h

Painel 2 – Casas de Cultura e Territórios: Identidade cultural e experiências turísticas

  • Participantes: Cristina Maseda (Casa da Cultura de Paraty – RJ) e Roberto Aguiar (Fundação Casa de Jorge Amado – BA)
  • Data: 20/05
  • Horário: 19h

(Texto: Natália Mello)