A literatura negra e indígena não é um fenômeno “novo”, mas uma força que sempre pulsou na oralidade das comunidades e que agora consolida seu espaço nos livros e instituições. Com o objetivo de celebrar essas vozes e utilizar a palavra como ferramenta de resistência contra o apagamento histórico, a Casa da Cultura de Canaã dos Carajás realizou, no dia 16 de abril, às 14h, a segunda edição do Sarau das Multivozes.
O encontro celebra o Dia do Livro indo além das páginas, promovendo um diálogo entre poesia, música, dança e contação de histórias. O foco desta edição foi o fortalecimento das identidades afro-amazônicas e indígenas, ampliando o programa “Palavra Viva”, que já atua na formação de leitores com um viés étnico-racial e de inclusão.
Para a professora e palestrante Flor Pinto, o sarau cumpre um papel fundamental de espelhamento social. “Quando olhamos ao nosso redor e não vemos ninguém parecido conosco, pensamos que estamos no lugar errado. As palavras possuem poder; quando o cordel nos exalta, passamos a nos ver como sujeitos que produzem histórias. Tento ser para meus alunos um exemplo de vida moldada pelo autorreconhecimento”, destaca a educadora, que participou desta edição.
A mediadora do evento, Gabriela Pereira da Silva, que acompanha o projeto desde o seu nascimento, reforça que a curadoria reflete o território paraense. “A presença das ancestralidades indígenas e africanas não é apenas uma escolha estética, é um compromisso com as raízes que nos sustentam. São saberes que resistem e nos ensinam formas de vida mais coletivas e conectadas com a vida.”
Sob a gestão de Gabriela Sobral, a Casa da Cultura tem consolidado a Sala de Leitura como um pólo de debate social. “O programa Palavra Viva foca na primeira infância, mas com um viés étnico-racial em todas as atividades. Este ano, ampliamos o leque do Sarau, que no ano passado focou no Abril Indígena, para incluir também as negritudes e a diversidade a partir de pessoas com deficiência (PCD)”, explica a diretora. Em 2025, o evento reuniu 600 pessoas, número que a instituição espera alcançar novamente com a programação ampliada.
Destaques da programação
O evento contou com a participação da Academia Canaãnense de Letras, trazendo escritores locais, além de palestras com nomes como Mestre Zequinha do Cabelo Seco, que debateu a escrita como instrumento de afirmação, e Mirian Santos, com foco na educação antirracista. O encerramento contou com um workshop de Cordel focado em memórias afetivas.
(Texto: Natália Mello)







