A mineração brasileira poderá viver, nos próximos dez anos, um dos maiores ciclos de expansão de sua história recente. E, no centro desse novo cenário, a Província Mineral de Carajás, no sudeste do Pará, desponta como uma das regiões com maiores possibilidades de atrair investimentos, novos projetos e milhares de trabalhadores.
A Vale apresentou, em Brasília, o relatório “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, elaborado com a colaboração da empresa de consultoria Accenture. O documento reúne propostas para acelerar o desenvolvimento do setor mineral brasileiro e deverá ser entregue aos candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026, como contribuição ao debate sobre as políticas públicas que definirão os rumos da mineração brasileira na próxima década.
As projeções são gigantescas.
A cadeia mineral, que atualmente movimenta aproximadamente 3 milhões de empregos diretos, indiretos e induzidos, poderá alcançar até 5,3 milhões de postos de trabalho em 2035. A produção mineral anual brasileira, hoje estimada em cerca de R$ 300 bilhões, poderá atingir R$ 535 bilhões no mesmo período, caso sejam implementadas medidas coordenadas envolvendo poder público, empresas e sociedade.
Outro número demonstra a dimensão econômica dessa possível transformação: depois de gerar aproximadamente R$ 750 bilhões em arrecadação na última década, o setor mineral poderá proporcionar cerca de R$ 1,3 trilhão entre 2026 e 2035.
UM PLANO PARA DESTRAVAR A MINERAÇÃO BRASILEIRA
O relatório apresenta 15 iniciativas estratégicas, organizadas em quatro grandes agendas: licenciamento e fundamentos da mineração; integração da cadeia mineral; ambiente de negócios e segurança institucional; e geração de valor compartilhado nos territórios onde estão instalados os empreendimentos.
Um dos principais desafios apontados está no conhecimento do próprio subsolo brasileiro. Apenas cerca de 28% do território nacional está mapeado geologicamente em escala considerada adequada para orientar investimentos em pesquisa mineral.
A ampliação desse conhecimento poderá significar novas descobertas, novos projetos e aumento considerável da capacidade produtiva do país.
“Em um momento em que se discutem caminhos para impulsionar o crescimento do país, a Vale contribui para o debate a partir de uma proposta concreta para que o Brasil aproveite a janela de oportunidade global e destrave nosso enorme potencial minerário”, afirmou Gustavo Pimenta, presidente da Vale.
FÓRUM EM BRASÍLIA DISCUTE O FUTURO DO SETOR
A apresentação do relatório ocorreu durante o fórum “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, realizado em Brasília e promovido pela Editora Globo e pela Vale. O encontro reuniu representantes do Governo Federal, da indústria mineral, do setor financeiro e especialistas para discutir infraestrutura, competitividade, ambiente regulatório, segurança jurídica, investimentos e o papel estratégico dos minerais brasileiros diante das transformações da economia mundial.
Participaram das discussões, além de Gustavo Pimenta, nomes como Rodolfo Eschenbach, presidente da Accenture para o Brasil e América Latina; Pablo Cesário, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram); Aloizio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); e Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia.
O debate ganha dimensão ainda maior diante da crescente disputa internacional por minerais fundamentais para novas tecnologias e para a transição energética. Cobre, níquel, lítio e outros minerais utilizados em veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia, painéis solares, turbinas eólicas e equipamentos tecnológicos adquiriram importância não apenas econômica, mas também estratégica e geopolítica.
Segundo o levantamento, minerais produzidos no Brasil e empregados nessas tecnologias poderão contribuir para evitar entre 1,6 e 2 gigatoneladas de emissões de CO₂ equivalente por ano no mundo até 2050.
CARAJÁS PODE ESTAR NO CENTRO DESSE NOVO CICLO
É justamente diante dessa perspectiva que a Província Mineral de Carajás assume posição ainda mais estratégica no futuro da mineração brasileira. A região concentra alguns dos maiores empreendimentos minerais do país e possui enorme relevância na produção de minério de ferro e cobre, além da ocorrência de outros minerais de elevado interesse econômico.
Uma eventual aceleração dos investimentos em pesquisa mineral, infraestrutura, licenciamento, inovação e implantação de novos projetos poderá colocar Carajás entre as regiões brasileiras mais beneficiadas pela expansão projetada até 2035.
E dentro de Carajás existe um município que ocupa posição privilegiada nesse tabuleiro: Canaã dos Carajás.
CANAÃ: UMA POTÊNCIA MINERAL BRASILEIRA
Em poucas décadas, Canaã dos Carajás deixou de ser um pequeno município do interior para assumir posição estratégica na mineração brasileira e mundial. A Mina do Sossego, inaugurada em 2004, marcou profundamente a transformação econômica e populacional do município e consolidou Canaã na produção brasileira de cobre.
Posteriormente, a implantação do Complexo S11D Eliezer Batista o colocou em uma dimensão ainda maior no cenário mineral internacional. O empreendimento tornou-se uma das principais operações de minério de ferro da Vale e fez do município uma peça fundamental da cadeia mineral brasileira voltada ao mercado internacional.
Ao mesmo tempo, o cobre amplia a importância estratégica de Canaã diante da transição energética mundial. O metal é indispensável para redes de transmissão de energia, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, fontes renováveis e inúmeras tecnologias relacionadas à eletrificação da economia.
Além da Mina do Sossego, o desenvolvimento do Projeto Bacaba reforça as perspectivas de continuidade e expansão da atividade cuprífera na região.
O conjunto desses empreendimentos coloca Canaã dos Carajás em posição privilegiada diante da projeção apresentada pela Vale para a mineração brasileira até 2035.
SIMINERAL JÁ DEBATEU EM CANAÃ O FUTURO DE CARAJÁS
A discussão realizada em Brasília ocorre poucos dias depois de Canaã dos Carajás ter sediado um importante debate sobre o futuro da mineração na Amazônia e na Província Mineral de Carajás. Nos dias 5 e 6 de agosto, o município recebeu o V Congresso Técnico do Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará (Simineral).
Com o tema “Mineração e Amazônia: competitividade, responsabilidade e legado”, o encontro reuniu representantes das empresas mineradoras, especialistas, autoridades, instituições e lideranças para discutir questões diretamente relacionadas ao futuro da atividade mineral. Entre os assuntos estiveram minerais críticos, transição energética, inovação, sustentabilidade, governança, licenciamento ambiental, competitividade e desenvolvimento regional.
Um dos grandes questionamentos colocados em discussão foi exatamente aquele que deverá determinar o futuro das cidades mineradoras: como transformar a riqueza produzida pela mineração em um legado econômico e social permanente para a população?
O debate envolveu o uso estratégico da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), diversificação econômica, qualificação profissional e preparação dos municípios para um futuro sustentável.
PREFEITURA SE PREPARA PARA UMA NOVA EXPLOSÃO POPULACIONAL
Em Canaã dos Carajás, essa discussão não está restrita aos fóruns empresariais. A administração municipal, sob a gestão da prefeita Josemira Gadelha (MDB), já trabalha com um cenário de continuidade do crescimento econômico e populacional e com a possibilidade de novos investimentos minerais provocarem outro grande fluxo migratório em direção ao município.
A experiência das últimas décadas demonstrou que cada grande empreendimento mineral produz efeitos que vão muito além das minas. São milhares de trabalhadores, novas famílias, empresas prestadoras de serviços, fornecedores, comércio, construção civil e uma pressão crescente sobre moradia, trânsito, saneamento, saúde, educação e infraestrutura urbana.
É justamente para essa realidade que Canaã busca se antecipar.
A prefeitura vem realizando grandes investimentos com recursos municipais em obras estruturantes e serviços públicos, ao mesmo tempo em que trabalha com planejamento de longo prazo para diversificar a economia.
Na infraestrutura, o município mantém investimentos em pavimentação, drenagem, recuperação e ampliação da malha urbana, além de projetos estratégicos de logística e mobilidade. Entre os projetos apresentados está o programa Obras pelo Futuro, que prevê cerca de R$ 1,5 bilhão em investimentos, incluindo o Aeroporto Municipal, duplicação de vias e mais de 100 quilômetros de pavimentação.
NOVO HOSPITAL PREPARA A SAÚDE PARA UMA CIDADE MAIOR
Na saúde, uma das principais obras é o novo Hospital Municipal Daniel Gonçalves, planejado para ampliar significativamente a capacidade de atendimento da rede pública. O projeto prevê 72 leitos de internação, 20 leitos de UTI adulta e pediátrica e oito leitos neonatais, fortalecendo a estrutura hospitalar de uma cidade que cresce em ritmo acelerado.
A dimensão do investimento ganha significado especial diante da perspectiva de chegada de novos trabalhadores e suas famílias com os projetos minerais previstos para os próximos anos. Preparar a saúde pública, portanto, deixa de ser apenas uma resposta às necessidades atuais e passa a integrar uma estratégia para a Canaã dos Carajás do futuro.
EDUCAÇÃO CRESCE JUNTO COM A POPULAÇÃO
A educação é outro exemplo claro dos impactos provocados pelo crescimento populacional. A gestão municipal iniciou um amplo processo de expansão da estrutura educacional, com construção, reforma e modernização de unidades.
Em 2024, a prefeitura chegou a manter 17 novas escolas em construção nas zonas urbana e rural. Em 2026, a rede municipal já registra cerca de 20 mil matrículas, evidenciando a dimensão da demanda educacional.
A pressão continua aumentando. Somente entre janeiro e março de 2026, segundo declarou a prefeita Josemira Gadelha durante a inauguração de uma unidade de educação infantil, mais de três mil novos alunos chegaram à rede municipal. É um dado que ajuda a dimensionar o desafio que Canaã poderá enfrentar caso se confirme um novo boom de investimentos minerais.
Cada grande projeto significa trabalhadores. Trabalhadores trazem famílias. Famílias precisam de escolas, hospitais, habitação, água, saneamento, transporte, lazer e serviços públicos. Por isso, o planejamento municipal passa a ter importância estratégica.
CANAÃ NÃO QUER APENAS CRESCER — QUER SE PREPARAR
Há outro componente importante nessa estratégia: ao mesmo tempo em que reconhece a mineração como base fundamental da economia municipal, a gestão de Canaã trabalha para criar alternativas econômicas capazes de reduzir, no longo prazo, a dependência da atividade mineral.
O planejamento municipal inclui investimentos em educação tecnológica e superior, qualificação profissional, infraestrutura logística, turismo, agroindústria, serviços e outras atividades econômicas. A prefeitura também trabalha na implantação de um campus da Universidade do Estado do Pará (UEPA) no município, assumindo a construção da estrutura física e investimentos necessários à implantação da instituição.
A estratégia parte de uma realidade incontornável: o minério é uma riqueza extraordinária, mas é um recurso finito. O grande desafio de Canaã será utilizar a riqueza produzida no presente para construir uma cidade economicamente sustentável no futuro.
2035 PODE COMEÇAR AGORA
Se as projeções apresentadas pela Vale se confirmarem, a mineração brasileira poderá viver uma década de transformações profundas. Sair de aproximadamente R$ 300 bilhões para até R$ 535 bilhões em produção mineral anual, alcançar 5,3 milhões de empregos na cadeia e gerar R$ 1,3 trilhão em arrecadação entre 2026 e 2035 significaria uma nova dimensão para o setor.
Para Carajás, essa perspectiva representa uma oportunidade histórica. E, para Canaã dos Carajás, representa também uma enorme responsabilidade.
O município poderá receber novos projetos, empresas, trabalhadores, investimentos e oportunidades. Mas receberá, igualmente, os impactos de uma nova expansão econômica e demográfica.
É por isso que os investimentos atuais em infraestrutura, saúde, educação, logística e diversificação econômica precisam ser vistos dentro de uma perspectiva muito maior. Canaã está construindo hoje a estrutura da cidade que precisará ser amanhã.
O fórum realizado pelo Simineral em Canaã dos Carajás e o debate promovido pela Vale em Brasília parecem apontar para uma mesma direção: existe uma nova janela de oportunidades se abrindo para a mineração brasileira. E poucas regiões estão tão bem posicionadas para aproveitá-la quanto a Província Mineral de Carajás.
Com minério de ferro de importância mundial, produção de cobre, novos projetos em perspectiva e uma cadeia mineral consolidada, Canaã dos Carajás poderá estar no epicentro do novo boom mineral brasileiro até 2035.
O futuro projetado pela Vale para a mineração brasileira pode parecer distante. Em Canaã dos Carajás, porém, 2035 já começou.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627







