Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, poderá ampliar ainda mais sua presença no mapa da mineração brasileira. O município, que já abriga gigantescos empreendimentos de minério de ferro e cobre, prepara-se para receber um novo projeto mineral: o Projeto Santa Lúcia, empreendimento da CoreX Copper Brasil voltado à exploração de cobre.

Ele já entrou na fase inicial de implantação, com avanço estimado entre 5% e 10%. Segundo informações apresentadas pela empresa ao poder público municipal, já estão sendo realizadas atividades de terraplanagem e supressão vegetal.

O empreendimento é licenciado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS-PA) em nome da SLM – Santa Lúcia Mineração Ltda (CNPJ 35.502.358/0002-88), titular do direito minerário cedido pela Vale. O processo (nº 2022/0000044879) foi protocolado em 22 de dezembro de 2022, e as três licenças da sequência trifásica — Prévia (LP nº 1997/2024), de Instalação (LI nº 3478/2024) e de Operação (LO nº 14834/2024) — foram concedidas no mesmo dia, 21 de maio de 2024, autorizando a extração de até 1 milhão de toneladas/ano de minério bruto (ROM) e 26.784 toneladas/ano de cobre, ouro, prata e associados, numa poligonal de 200,06 hectares. Vale notar que, das três, apenas a Licença de Operação segue vigente: a Prévia venceu em 21/05/2025 e a de Instalação, em 21/05/2026, permanecendo válida a Licença de Operação até 21/05/2027 (SEMAS-PA).
A expectativa é que os trabalhos ganhem maior intensidade a partir do início de 2027, enquanto o começo da operação está projetado para meados de 2028.
O cronograma apresentado no RCA/PCA elaborado para o licenciamento, ainda sob gestão da OZ Minerals, projetava início de operação já em 2024. O adiamento para 2028 reflete tanto o tempo consumido no próprio licenciamento — cerca de 17 meses entre o protocolo do processo e a concessão das licenças — quanto a mudança de controle societário do empreendimento, da OZ Minerals para a CoreX Copper Brasil.
O empreendimento está localizado na Fazenda Umuarama, aproximadamente 30 quilômetros a leste da zona urbana de Canaã. Segundo o estudo ambiental do projeto, o acesso se dá pela rodovia estadual PA-160, sentido Curionópolis/Xinguara, seguida por 17 km de estrada asfaltada e mais 20 km de estradas internas da fazenda. A Área Diretamente Afetada mapeada no estudo soma 418,68 hectares — incluindo 293,8 hectares de formação florestal —, com nascentes de tributários dos rios Plaquê e Verde, ambos afluentes do rio Parauapebas (RCA/PCA, 2022).
Vale esclarecer a divisão municipal: a Área Diretamente Afetada do projeto — cava, pilha de estéril e instalações de apoio — está integralmente em Canaã dos Carajás, conforme o campo “Município” das três licenças da SEMAS-PA e as matrículas da Fazenda Umuarama citadas no RCA. Curionópolis entra no projeto por outras duas vias: é para lá que aponta o acesso rodoviário pela PA-160, e é lá que fica a planta de beneficiamento de Antas Norte, para onde o minério bruto será transportado. No mapa de área de influência do próprio RCA, o limite municipal passa muito perto do empreendimento, e a Área de Influência Direta — que já engloba as vias de acesso — chega a alcançar o território de Curionópolis.

A chegada de mais um projeto de cobre amplia as perspectivas econômicas do município, principalmente pela possibilidade de geração de empregos, contratação de fornecedores, movimentação do comércio e dos serviços e atração de novos investimentos.
O RCA elaborado para o licenciamento estima a geração de cerca de 500 empregos diretos ao longo do empreendimento — 498 postos na fase de operação (84 colaboradores próprios, 178 terceirizados de produção e 236 em serviços de apoio) e cerca de 475 trabalhadores nas empreiteiras de mineração durante a implantação. Para efeito de comparação, o setor extrativo mineral já respondia, em 2020, por 24% dos empregos formais de Canaã dos Carajás — 4.536 postos, com a maior remuneração média do município (RCA/PCA, com dados oficiais de CAGED/RAIS).
Os números do Projeto Santa Lúcia
| Empreendedor licenciado | SLM – Santa Lúcia Mineração Ltda (CNPJ 35.502.358/0002-88), sociedade titular do direito minerário cedido pela Vale; segundo a empresa, integra hoje o grupo CoreX Copper Brasil |
| Processo SEMAS-PA | nº 2022/0000044879, protocolado em 22/12/2022 |
| Licenças concedidas | LP nº 1997/2024, LI nº 3478/2024 e LO nº 14834/2024 — todas emitidas em 21/05/2024 |
| Situação das licenças | LP vencida em 21/05/2025 e LI vencida em 21/05/2026; permanece vigente a LO, válida até 21/05/2027 |
| Área licenciada | 200,06 hectares (poligonal do projeto) |
| Produção autorizada | até 1 milhão t/ano de minério bruto (ROM) e 26.784 t/ano de cobre, ouro, prata e associados |
| Reservas minerais (RCA, out/2022) | 3,63 milhões de toneladas a 3,0% Cu e 0,55 g/t Au (110 mil t de Cu e 64 mil oz de Au contidos) |
| Tipo de minério | sulfetado de cobre, com ouro e prata associados — depósito do tipo IOCG (óxido de ferro-cobre-ouro) |
| Meta de produção anual (RCA) | 1,0 milhão t/ano de minério (ROM); movimentação máxima de até 3,9 milhões t/ano somando minério e estéril |
| Vida útil da mina (RCA) | cerca de 5 anos de lavra, com extração total prevista de 3,63 Mt de minério e 10,70 Mt de estéril |
| Método de lavra | céu aberto, sem barragem de rejeitos; minério beneficiado na planta de Antas Norte (Curionópolis) |
| Empregos estimados (RCA) | cerca de 500 diretos, entre instalação e operação |
| Localização | Fazenda Umuarama, cerca de 30 km a leste da sede de Canaã dos Carajás |
Fontes: Licenças Prévia, de Instalação e de Operação (SEMAS-PA, processo 2022/0000044879) e RCA/PCA Mineração Santa Lúcia (CPEA, 2022)
Prefeitura e CoreX discutem implantação
O avanço do Projeto Santa Lúcia já está sendo acompanhado pelo poder público municipal. No dia 1º de setembro, representantes da CoreX Copper Brasil reuniram-se com o vice-prefeito de Canaã dos Carajás, Dinilson José, e integrantes da administração municipal das áreas de Educação, Saúde, Desenvolvimento Social e Meio Ambiente.
Durante o encontro, a empresa apresentou informações sobre o estágio atual do empreendimento e suas perspectivas. A ocasião também marcou uma aproximação institucional após a recente transição da OZ Minerals para a CoreX.
Segundo o gerente de Responsabilidade Social da CoreX, Frederico Baião, o diálogo com o município ocorre desde as primeiras etapas do processo de licenciamento ambiental.
Essa articulação institucional aparece, de fato, entre as condicionantes fixadas pela SEMAS nas três licenças: apresentação de tratativas com o superficiário da Fazenda Umuarama; eventual cadastro social e indenização a moradores lindeiros à via VP-12; continuidade dos programas socioeconômicos no Loteamento São José; evidências de ações de educação ambiental na escola pública da Vila Planalto; e articulação com a Prefeitura para a pavimentação da própria VP-12. O órgão ambiental também exige, no prazo de um ano, a apresentação de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) complementares e o detalhamento do Plano de Fechamento de Mina (Anexo I das Licenças Prévia, de Instalação e de Operação, SEMAS-PA).
A implantação de uma nova mina de cobre deverá acrescentar mais um importante empreendimento ao gigantesco complexo mineral existente em Canaã dos Carajás.
Canaã: do ferro ao cobre
A importância do Projeto Santa Lúcia fica ainda mais evidente quando observada dentro do conjunto de operações minerais existentes no município. Canaã já abriga a Mina do Sossego, tradicional operação de cobre da Vale, além do Complexo S11D Eliezer Batista, uma das maiores referências mundiais na produção de minério de ferro.
O S11D é atualmente a maior mina de minério de ferro em operação da Vale e utiliza tecnologias que se tornaram referência na indústria mineral, entre elas o sistema truckless, que substitui parte do transporte tradicional realizado por grandes caminhões por britadores e correias transportadoras.

Do ponto de vista geológico, o depósito Santa Lúcia integra a Província Mineral de Carajás e é classificado como um depósito do tipo IOCG (óxido de ferro-cobre-ouro) — a mesma categoria de jazidas históricas da região, como Salobo, Igarapé Bahia/Alemão, Cristalino e a própria Mina do Sossego. A mineralização está hospedada em rochas vulcânicas do Grupo Grão Pará, associada a intrusões de granito alcalino, e foi identificada em campanhas de sondagem que somam 152 furos e cerca de 25 mil metros perfurados, iniciadas ainda pela Vale/Docegeo em 1998 e retomadas pela OZ Minerals entre 2020 e 2021. A mina projetada é a céu aberto e, segundo o RCA, não contará com barragem de rejeitos: o minério será britado e peneirado no local e transportado por cerca de 70 km até a planta de beneficiamento de Antas Norte, em Curionópolis, já licenciada pela SEMAS (LO nº 8796/2014), onde ocorrerão a moagem, a flotação e a disposição final dos rejeitos, dentro da cava já exaurida daquela mina. Segundo o próprio estudo ambiental, essa concepção confere ao empreendimento “um caráter de impactos ambientais reduzidos, se comparado com outros empreendimentos do mesmo porte” (RCA/PCA, 2022).


Quanto ao ritmo de lavra, a meta de produção da mina é de 1,0 milhão de toneladas por ano de minério bruto (ROM), com movimentação máxima de até 3,9 milhões de toneladas anuais somando minério e estéril. O minério é sulfetado de cobre, com ouro e prata associados — depósito do tipo IOCG (óxido de ferro-cobre-ouro). Segundo o cronograma de lavra apresentado no RCA, a vida útil da mina é de aproximadamente 5 anos, com um total de 3,63 milhões de toneladas de minério e 10,70 milhões de toneladas de estéril extraídas ao longo do período (RCA/PCA, Tabelas 10 e 12).
Com o Santa Lúcia avançando em direção à operação, Canaã poderá fortalecer ainda mais sua participação na produção de cobre, um dos minerais considerados estratégicos para a economia contemporânea em razão de sua utilização na indústria elétrica, eletrônica, infraestrutura e no processo mundial de transição energética.
Assim, minério de ferro e cobre consolidam o município como território estratégico para algumas das cadeias minerais mais importantes da economia brasileira.
Gigante da balança comercial brasileira
A força mineral do município ultrapassa as fronteiras do Pará e tem reflexos diretos no comércio exterior brasileiro.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostraram que, em 2024, Canaã exportou aproximadamente US$ 6,7 bilhões, tornando-se o município líder das exportações paraenses e alcançando a posição de terceiro que mais exportou no Brasil naquele ano.
Nada menos que 91% do valor exportado pelo município em 2024 foi representado pelo minério de ferro, enquanto a China apareceu como seu principal parceiro comercial.
Esses números ajudam a dimensionar a importância econômica de Canaã. O minério retirado do subsolo do município atravessa ferrovias e portos até chegar aos grandes mercados consumidores internacionais, fazendo da cidade do sudeste paraense uma importante engrenagem da balança comercial brasileira.
Parte dessa força mineral retorna ao município na forma de Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM): somente em 2021, Canaã dos Carajás arrecadou cerca de R$ 1 bilhão em CFEM sobre minério de ferro e R$ 47 milhões sobre minério de cobre (RCA/PCA, com dados oficiais da ANM).
A eventual entrada do Projeto Santa Lúcia em operação acrescentará mais um ativo mineral a esse cenário.
5º Congresso do Simineral colocou Canaã no centro do debate mineral
A dimensão alcançada pela atividade mineral no município também ficou evidente quando Canaã dos Carajás sediou, pela primeira vez, o Congresso Técnico do Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará (Simineral), nos dias 5 e 6 de agosto de 2026.
O evento reuniu representantes da indústria mineral, autoridades, especialistas e lideranças dos setores público e privado para discutir o presente e, principalmente, o futuro da mineração na Amazônia.
Com o tema “Mineração e Amazônia: Competitividade, Responsabilidade e Legado”, o congresso debateu assuntos estratégicos como minerais críticos, transição energética, desenvolvimento regional, licenciamento ambiental, segurança jurídica, competitividade e a necessidade de transformar a riqueza mineral em desenvolvimento econômico e social duradouro.
Um dos debates realizados tratou justamente de uma questão fundamental para os grandes municípios mineradores: como transformar os recursos provenientes da mineração, especialmente da Cfem, em um legado capaz de sobreviver ao próprio ciclo mineral.
A escolha de Canaã para receber o 5º Congresso Técnico do Simineral não poderia ser mais simbólica. Poucos municípios brasileiros representam de maneira tão evidente os desafios e as oportunidades proporcionados pela mineração.
Uma nova fronteira do cobre em Carajás
O Projeto Santa Lúcia chega, portanto, em um momento estratégico. O município já possui o S11D e a Mina do Sossego e agora acompanha o avanço de mais um empreendimento voltado ao cobre. A própria geologia da região explica tamanho interesse: o depósito Santa Lúcia está inserido na Província Mineral de Carajás, uma das mais importantes províncias minerais do planeta.
O avanço do empreendimento da CoreX reforça uma nova perspectiva: além de continuar como uma potência na produção e exportação de minério de ferro, Canaã tende a ampliar sua relevância na cadeia do cobre.
De município do interior do Pará a protagonista da mineração brasileira, Canaã dos Carajás consolida-se como uma verdadeira potência mineral, com seus projetos contribuindo diretamente para as exportações, para a geração de divisas e para a posição do Brasil no mercado internacional de commodities minerais.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627
Fontes desta reportagem
- Licença Prévia nº 1997/2024, Licença de Instalação nº 3478/2024 e Licença de Operação nº 14834/2024 — Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS-PA), processo nº 2022/0000044879.
- Relatório de Controle Ambiental e Plano de Controle Ambiental (RCA/PCA) – Mineração Santa Lúcia, relatório CPEA 4950, revisão 03, elaborado pela CPEA – Consultoria, Planejamento e Estudos Ambientais Ltda. para a OZ Minerals, no âmbito do processo SEMAS-PA nº 2022/0000044879.
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – dados de exportações municipais de 2024.
- CAGED/RAIS (2020) e Agência Nacional de Mineração (ANM) – dados de emprego formal e de CFEM, citados no RCA/PCA.
Nota: o RCA/PCA é o estudo técnico apresentado pela empresa à SEMAS-PA como parte do processo de licenciamento ambiental; os dados de reservas, produção, cronograma e empregos nele contidos refletem a fase de elaboração do estudo (2022) e podem ter sido atualizados ao longo do processo de licenciamento.







