BNDES vende R$ 8,1 bi em ações da Vale em pregão histórico

Na operação de terça-feira (4), Bovespa registrou o maior “block trade” (quando um grande conjunto de ações é vendido em uma única operação no mercado) da história da América Latina
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on print

Continua depois da publicidade

Brasília – A Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA) registrou um recorde na terça-feira (4), realizando o maior “block trade” (quando um grande conjunto de ações é vendido em uma única operação no mercado) da história da América Latina. A BNDESPar, braço de participações acionárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), vendeu ontem na bolsa um grande bloco de ações da Vale por R$ 8,1 bilhões. A operação foi precificada a R$ 60,26 por ação, mesmo preço do fechamento do dia anterior.

Apesar da venda do “block trade”, as ações de Vale fecharam o pregão com variação de 0,73%, a maior do dia para o papel, cotadas a R$ 60,70. A negociação com os papéis da mineradora chegou a ficar suspensa por quase duas horas. Operadores relataram que o motivo da suspensão dos negócios foi a venda em massa das ações detidas pelo BNDES por meio do Bank of América (BofA). A suspensão ocorreu para não distorcer a oferta e o preço dos papéis no mercado, o que está previsto na instrução n° 168 da CVM, segundo a qual a B3 deverá adotar procedimentos especiais de negociação para operações que incluam uma quantidade de ações superior à média diária negociada nos últimos pregões ou qualquer bloco substancial de ativos.

Motivos da venda

A decisão de venda de parte das ações de Vale em carteira atende a um duplo objetivo de ordem técnica e de estratégia administrativa: oportunidade de mercado e redução da carteira da BNDESPar. Com a operação, o banco deve reduzir a participação na mineradora de cerca de 6,1% para 3,7% do capital total. Em 31 de março, a BNDESPar possuía 323.496 milhões de ações ordinárias de Vale, o equivalente a 6,12% do capital total, segundo os últimos dados disponíveis.

“O mercado voltou e deu espaço para o banco continuar a exercer a estratégia de redução do risco pela participação em grandes empresas maduras”, disse fonte do BNDES. Ao fim do primeiro trimestre, a carteira de participações acionárias da BNDESPar era de R$ 64,9 bilhões. Essa carteira teve uma desvalorização ajustada de R$ 31,4 bilhões de janeiro a março como resultado da crise resultante da covid-19.

Em 31 de dezembro do ano passado, antes da pandemia, o valor total da carteira da BNDESPar era de R$ 120,9 bilhões. Além da pandemia, que reduziu o valor dos ativos, o banco fez vendas no primeiro trimestre, com destaque para os R$ 22 bilhões em ações ordinárias da Petrobras, em fevereiro. Há informações no mercado de que a BNDESPar poderia aproveitar o momento para vender também ações preferenciais da Petrobras que ainda têm na carteira, mas ainda não há autorização da diretoria e do conselho do banco para essa operação.

Fontes disseram que a venda do bloco de ações da Vale não chegou a ser discutida no conselho de administração da mineradora. “Eles [BNDESPar] não comunicaram ninguém sobre venda”, disse uma fonte em referência aos demais sócios do bloco de controle da empresa. A operação criou preocupação em outros acionistas da mineradora de que pudesse desvalorizar o papel da companhia, o que não se confirmou ao fim do pregão.

As ações da Vale vêm sendo sustentadas pela alta nos preços do minério de ferro, o principal produto da companhia, puxados pela demanda da China. “O saudável era fazer a venda de forma coordenada, mas cada acionista é livre para vender as ações fora do bloco de controle como quiser”, disse a fonte. E acrescentou: “Foi decisão política da BNDESPar.

O bloco de controle da Vale é formado pelos fundos de pensão estatais (Previ, Funcef, Petros e Vivest), pela Bradespar, braço de participações acionárias do Bradesco; pela BNDESPar, empresa de participações do BNDES, e pela japonesa Mitsui. Desde a migração da Vale para o Novo Mercado da B3, em 2017, parte das ações detidas pelo grupo de controle estão vinculadas a um acordo de acionistas, válido até 9 de novembro deste ano. E outra parte das ações, fora do bloco de controle, estão “livres” para a venda. O BNDES vendeu ontem ações fora do bloco de controle.

Esse bloco dita os rumos da Vale com cerca 20,2% das ações, as quais estão vinculadas ao acordo de acionistas. Mas esses acionistas detêm ainda 9% das ações da Vale fora do bloco, disponíveis para a venda. Com a migração para o Novo Mercado da B3, houve sempre o cuidado, por parte do bloco de controle da mineradora, do qual a BNDESPar faz parte, de dizer que qualquer venda de ações seria coordenada para não desvalorizar os papéis da mineradora. Esse foi um discurso enfatizado sobretudo pelos fundos de pensão. A participação dos fundos em Vale se dá via Litel, empresa que reúne Previ, Funcef, Petros e Vivest (antiga Funcesp).

Os fundos têm demonstrado compromisso de longo prazo com a Vale e enfatizado que não têm pressa para vender as ações fora do bloco de controle. Qualquer movimento de venda ficou em compasso de espera depois da tragédia de Brumadinho, em janeiro de 2019.

Reportagem: Val-André Mutran – Correspondente do Blog do Zé Dudu em Brasília.

Publicidade