BID será presidido pelo brasileiro Ilan Goldfajn

O economista quebra um jejum de 63 anos, desde a fundação da instituição, nunca um brasileiro a presidiu
A indicação do economista brasileiro llan Goldfajn foi confirmada para o comando do BID

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Brasília – Em 63 anos de história, desde que foi fundado em 1959, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) será presidido por um brasileiro. No domingo (20), a direção do maior bando de desenvolvimento do mundo, confirmou a eleição do economista Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central para presidir a instituição.

O economista brasileiro obteve 80% dos votos, vencendo a disputa em primeiro turno. Ele concorreu com outros quatro candidatos: Cecilia Todesca Bocco, indicada pela Argentina; Nicolás Eyzaguirre, ex-ministro da Fazenda dos governos de Ricardo Lagos e Michelle Bachelet e nomeado pelo Chile; Gerardo Esquivel Hernández, vice-presidente do Banxico (banco central mexicano) e indicação do México e Gerard Johnson, nome de Trinidad e Tobago.

Para ser eleito presidente, um candidato deve receber a maioria do total de votos dos 26 dos países membros do BID, bem como o apoio de pelo menos 15 dos 28 países membros regionais.

Ilan Goldfajn foi indicado para o cargo pelo atual governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) que comemorou a eleição. Mas, o nome do economista brasileito chegou a enfrentar a resistência de parte dos assessores do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, tentou adiar a eleição do BID sem sucesso. Mas, nos últimos dias, Ilan conseguiu obter declarações de aliados do petista, como o ex-chanceler Celso Amorim, que o novo governo não se oporia a seu nome, facilitando sua eleição.

O Brasil nunca comandou a entidade, que tem mais de 60 anos. Nascido em Israel, mas criado no Rio de Janeiro, Ilan é formado pela UFRJ e tem doutorado pelo MIT (EUA).

O Banco de desenvolvimento é responsável por gerir uma carteira com 616 projetos ativos em 27 países, com investimentos que somam US$ 56,2 bilhões. Somente no ano passado os desembolsos somaram US$ 12,5 bilhões. O Brasil é o país com a maior carteira de projetos do BID, com 82 projetos em andamento, à frente da Argentina (75), Paraguai (41) e Uruguai (38).

O BID já foi chefiado por um chileno, um mexicano, um uruguaio, um colombiano e, mais recentemente, pelo americano Mauricio Claver-Carone. Ele foi indicado no governo Donald Trump e deixou a instituição em setembro por recomendação da diretoria executiva do banco, após denúncias de relacionamento inapropriado com sua chefe de gabinete.

Liderança inédita

O economista comentou o resultado da eleição e destacou a relevância do BID no atual cenário internacional que é amplificada diante de um cenário global turbulento, com alta de juros e desafios ambientais, ao mesmo tempo em que amplia as vantagens para a América Latina. Ele avalia que o Brasil poderia retomar seu papel de liderança.

“A região pode se posicionar como parte da solução dos atuais problemas globais”, afirmou, citando a pandemia, a invasão russa à Ucrânia, os desafios energéticos e a busca de americanos e europeus de reduzirem a dependência chinesa.

Na sabatina aos governadores do BID (os ministros da Fazenda dos países que fazem parte do banco), defendeu temas como a ação contra as mudanças climáticas e a redução da pobreza.

Candidatos à presidência do BID

O economista mexicano Gerardo Esquivel, vice-presidente do Banxico, o BC mexicano, foi apontado para o BID pelo presidente Andrés Manuel López Obrador.
Nicolás Eyzaguirre Guzmán, economista chileno, com passagem pelo FMI, teve o apoio dos ex-presidentes do Chile Ricardo Lagos e Michele Bachelet.
Cecília Todesca Bocco, única economista mulher indicada, é secretária de Relações Internacionais da chancelaria argentina. Já passou pelo FMI e pela Agência de Risco Standard & Poor’s.

Repercussão

Em seu primeiro discurso após a vitória, Ilan Goldfajn comemorou ser o primeiro brasileiro a liderar a instituição após 63 anos de existência, reforçou que foi candidato do Estado brasileiro.O vídeo com trecho de sua fala foi publicado na rede social Twitter na conta pessoal da diretora-executiva do BID para Brasil e Suriname, Martha Seillier.“Serei o presidente do BID em toda a sua diversidade. Serei o presidente dos países de alta renda, média renda e baixa renda. Serei o presidente dos membros regionais e também dos não regionais. Serei o presidente dos países da América do Sul, Central, do Norte e dos países do Caribe”, prometeu o economista brasileiro.

O governo de Joe Biden parabenizou o brasileiro por sua nomeação como chefe do BID, que “desempenha um papel vital na promoção do bem-estar econômico, social e ambiental da América Latina e do Caribe”, disse o Departamento do Tesouro em comunicado.

“Os Estados Unidos esperam trabalhar com o presidente Goldfajn para implementar o conjunto de reformas que os acionistas estabeleceram para impulsionar o desenvolvimento sustentável, inclusivo e resiliente, crescimento liderado pelo setor privado, ambição climática e melhorar a eficácia institucional do BID”, acrescenta.

Desafios

A economista e professora da Universidade Johns Hopkins, Monica de Bolle, avalia como bastante “significativa” a presença de um brasileiro na presidência do BID. Segundo a economista, o cargo possui um caráter não só técnico, mas também político, e Ilan terá grandes desafios pela frente pelo passado recente da instituição.“O Ilan é um grande economista, mas ele vai ter grandes desafios pela frente. As dificuldades vêm tanto da região do qual ela cuida, que nunca foi fácil e está passando por um momento de extrema complexidade.”

Monica relembra que o BID é bastante dependente dos EUA e que os últimos presidentes americanos não tiveram uma política externa voltada para a América Latina.

“O governo americano, desde Obama, na verdade, tem tido uma postura radicalmente diferente em relação à América Latina, no que diz respeito à política externa. A política externa do Obama foi voltada à Ásia e no governo Trump, partes do governo voltadas para América Latina foram esvaziadas. E desde então isso não se recompôs com o Biden e não está em vias de se recompor”, analisa.

Apesar das dificuldades, a professora da Universidade Johns Hopkins enxerga na eleição de Ilan uma possibilidade do Brasil se recolocar como uma liderança na região.

“Não vai ser fácil, mas espero que o Brasil tenha a capacidade de se colocar no palco internacional da forma que deveria, como uma importante liderança regional e tentando construir uma ponte com o governo americano. Esse também é um desafio para a nova gestão do BID”, comentou de Bolle.

Além de oferecer empréstimos e subsídios, o banco de desenvolvimento atua com cooperação técnica e pesquisas para o setor público e privado.

Atualmente, o BID foca sua atuação sobre três desafios de desenvolvimento: inclusão social e equidade, produtividade e inovação e integração econômica — e em três temas transversais — igualdade de gênero e diversidade, mudança climática e sustentabilidade do meio ambiente, e capacidade institucional do Estado e Estado de direito.

O BID obtém recursos financeiros de seus 48 países-membros, além de captações nos mercados financeiros, fundos que administra e operações de cofinanciamento. O banco tem sede em Washington (EUA) e representações nos 26 países-membros da América Latina e Caribe, além de escritórios em Madri e Tóquio. O Brasil é o único país do mundo que tem dois escritórios do BID: há uma representação oficial em Brasília e outra em São Paulo.

Os países membros do BID são Alemanha, Argentina, Áustria, Bahamas, Barbados, Bélgica, Belize, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, Croácia, Dinamarca, El Salvador, Equador, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Israel, Itália, Jamaica, Japão, México, Nicarágua, Noruega, Países Baixos, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, Reino Unido, República da Coreia, República Dominicana, Suécia, Suíça, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela.

Reação do governo brasileiro

O Ministério da Economia comemorou a vitória de Ilan. Em nota, a pasta dirigida por Paulo Guedes — que indicou Ilan como candidato do Brasil ao BID — classificou a eleição do brasileiro como um reconhecimento das prioridades defendidas pelo atual governo brasileiro junto à instituição.

“A vitória do candidato é reconhecimento da plataforma apresentada pelo Brasil”, diz o texto. “O candidato brasileiro alcançou ampla maioria, superando os critérios de percentual do capital votante do Banco e de apoio regional, o que permitiu que a eleição fosse concluída na primeira rodada.”

O ministério de Guedes liderou a campanha de Ilan à presidência do BID, defendendo um programa-base em três eixos: infraestrutura física e digital; mobilização de recursos privados e criação de oportunidades para a integração regional; combate à pobreza, desigualdade e insegurança alimentar e mudança do clima e biodiversidade.

O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin parabenizou Goldfajn pelo Twitter:

https://twitter.com/geraldoalckmin/status/1594385074883018757

“O professor da Fundação Dom Cabral e ex-funcionário do BID, Carlos Braga, disse que a vitória de Ilan para o comando do banco dará prestígio ao Brasil. Embora seja o segundo maior acionista da instituição, o país nunca teve um brasileiro na presidência do BID. A primeira vez que chegou perto disso foi no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, mas faltou maior engajamento da parte do governo na época”, lembrou Braga.

Segundo ele, ter Ilan à frente do BID não significa que o Brasil vai ter mais empréstimos do banco. Em 2021, os recursos liberados pela instituição somaram US$ 1,2 bilhão.

“Há uma questão de prestígio e Ilan é uma pessoa que tem todas as características de um ponto de vista técnico e profissional para ser um excelente presidente do BID. Mas não se deve esperar que vai aumentar os recursos para o Brasil. Vai depender da qualidade dos projetos que os países apresentarem e que caibam nas prioridades do BID”, disse Braga, acrescentando:

“Além disso, Ilan terá que administrar as relações políticas com todos os 48 países que são membros”.

Ele disse, contudo que o fato de o economista brasileiro conhecer bem o Brasil poderá ajudar no diálogo com o futuro governo, apesar do mal-estar gerado pela tentativa de o ex-ministro Guido Mantega de minar a candidatura de Ilan, sob o argumento de que o nome não foi costurado entre os países membros.

“O resultado da eleição mostrou que ele estava equivocado porque Ilan foi eleito pela maioria dos acionistas. Espero que a nova administração seja pragmática e certamente, o Brasil tem interesse em trabalhar com o BID e há interesse do BID em ter a participação do Brasil”, afirmou Braga.

Reportagem: Val-André Mutran – Correspondente do Blog do Zé Dudu em Brasília.

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