Após ataques de garimpeiros, MPF pede reforço de segurança em Jacareacanga

No pedido, o Ministério Público Federal destaca o clima tenso na área, onde os garimpeiros já atacaram uma base da Polícia Federal e incendiaram a aldeia da líder Munuduruku, além de fazer ameaças de tocar fogo em outras aldeias da área
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Um dos garimpos clandestinos na Terra Indígena Munduruku

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O Ministério Público Federal (MPF) solicitou, nesta quinta-feira (27), reforço de forças federais e estadual na área das Terras Munuduruku, em Jacareacanga, no sudoeste do Pará. O órgão, que fez críticas à saída das forças federais do local, detalha que o clima é tenso na área, onde garimpeiros clandestinos já atacaram uma base da Polícia Federal (PF) e também incendiaram a aldeia da líder Munduruku, Maria Leusa Kaba, localizada na Fazenda Tapajós.

A casa da líder indígena foi o principal alvo da ira dos garimpeiros, que ameaçam incendiar outras aldeias da região. Eles iniciaram o movimento criminoso em represália as operações realizadas pela PF e Instituto Brasileiro de Recursos Naturais Renováveis (Ibama) contra a exploração ilegal de minério nas Terras Munduruku.

Além de reforço na segurança, o MPF também pede proteção para as lideranças indígenas ameaçadas pelos garimpeiros, que estão sendo intimidadas por serem contrárias ao garimpo em suas terras. O clima é de guerra na área desde o início da semana, quando foi deflagrada a operação da Polícia Federal e do Ibama.

Os ofícios alertando para a gravidade da situação foram enviados à PF, Fundação Nacional do Índio (Funai), Secretaria de Segurança Pública do Pará, Polícia Civil do Pará, Comando Militar do Norte, Força Nacional de Segurança Pública e às secretarias Executivas dos Ministérios da Justiça e do Meio Ambiente. Os ofícios narram o ataque ocorrido no dia 26 contra a aldeia de Maria Leusa Kaba Munduruku e alerta para as ameaças feitas contra as lideranças Ademir Kaba Munduruku, Isaías Krixi Munduruku e Ana Poxo Munduruku.

O MPF enfatiza, ainda, que durante todo o dia ontem chegaram informações ao órgão sobre o deslocamento de garimpeiros para as aldeias das lideranças. “Tais atos dão-se em contexto estratégico e programado de pretensão de silenciamento das lideranças Munduruku, os quais ocorrem, impressionantemente, sob os olhos do Estado brasileiro”, diz o ofício do MPF, que ressalta que o risco à vida de lideranças não é uma situação desconhecida das autoridades.

O MPF vem alertando desde o início de março para as graves violações de direitos humanos em curso na região do médio e alto Tapajós. Nos ofícios enviados, o órgão pede “especificamente às forças vinculadas à União que, em prazo máximo de dez horas, proveja e mantenha, seja por conduto das Forças Armadas ou Força Nacional, efetivo armado – dispondo de quantitativo e subsídios materiais suficientes – para garantir a segurança do povo Munduruku e impedir nova invasão das terras indígenas Munduruku e Sai Cinza”. À Secretaria de Segurança Pública do Pará, o MPF pediu um diagnóstico sobre a situação atual da segurança na região, que hoje conta com apenas quatro policiais militares na cidade de Jacareacanga, e que seja solicitado o reforço da Força Nacional para o local.

Além dos ofícios às autoridades, o Ministério Público Federal fez uma petição à Justiça Federal, dentro de um processo em que, desde 2020, tenta mobilizar as forças policiais e ambientais para coibir o garimpo ilegal no sudoeste do Pará. Para o MPF, a atuação tem sido “episódica”, o que em vez de encerrar as atividades ilegais, vem contribuindo para acirrar os conflitos.

De acordo com o MPF, a operação dessa semana foi planejada para atender ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), mas não houve qualquer planejamento ou estruturação indicativa de que as forças de segurança permanecerão no território após a conclusão da fase ostensiva. “Ao que tudo indica, a pretensão é – como se deu nas experiências anteriores – meramente realizar a operação e, após, abandonar o território”, enfatiza o pedido feito à Justiça.

“A rigor, a deflagração da Operação Mundurukânia – como era advertido – acirrou os ânimos derredor dos conflitantes e, portanto, elevou a escala de tensão na região, razão pela qual os requeridos (Funai, Ibama e governo federal) detêm absoluta responsabilidade por gestionar a transição ao final da fase ostensiva e, inclusive, coordenar e gestionar junto ao estado do Pará e município de Jacareacanga (base da operação) as necessidades para a manutenção da segurança pública”, reforça a petição.

A Justiça Federal, caso atenda os pedidos do MPF, pode determinar, no prazo máximo de 24 horas, que se proveja e mantenha efetivo armado para garantir a segurança do povo Munduruku. O pedido à Justiça cita especificamente as aldeias Pombal, Santa Cruz, Katô, Missão Cururu e Poxorebem, todas ameaçadas de novas invasões de garimpeiros.

A petição pede que, antes de desmobilizar o efetivo empregado na operação dessa semana, que o governo federal “contate e gestione junto ao governo do estado do Pará, por meio da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, com o fim de relatar minuciosamente quais as condições da segurança pública durante a realização da operação, e ajustar e identificar com os órgãos estaduais a (in)suficiência de efetivo para a garantia da segurança pública naquele município”.

Tina DeBord – com informações do MPF

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