Não há pão. Não haverá circo!

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A Assessoria de Comunicação da prefeitura de Parauapebas anunciou ontem (21) que esse ano não haverá o Show da Virada no município. Alegou para tanto a crise financeira e o alto custo da festa. Confira a nota:

Em virtude da baixa na arrecadação do município, reflexo da crise econômica que assola todo o país, esse ano, a Prefeitura de Parauapebas não realizará o tradicional Show da Virada. Por mais modesta que a comemoração seja, ainda assim, acarretará custos ao cofre público. Ressalta-se que não houve recomendação do Ministério Público quanto à realização do Réveillon 2016. A Administração Municipal entende que o Show da Virada é importante para o entretenimento dos cidadãos parauapebenses e lamenta o cenário de crise financeira em que passa o nosso país. (ASCOM) 

Desde os primórdios do mundo que a política do Pão e circo (panem et circenses, no original em Latim), o modo com o qual os líderes romanos lidavam com a população em geral, para mantê-la fiel à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio vem sendo usado por políticos. Esta frase tem origem na Sátira X do humorista e poeta romano Juvenal (vivo por volta do ano 100 d.C.) e no seu contexto original, criticava a falta de informação do povo romano, que não tinha qualquer interesse em assuntos políticos, e só se preocupava com o alimento e o divertimento.

 Assim, nos tempos de crise, em especial no tempo do Império, as autoridades acalmavam o povo com a a construção de enormes arenas, nas quais realizavam-se sangrentos espetáculos envolvendo gladiadores, animais ferozes, corridas de bigas, quadrigas, acrobacias, bandas, espetáculos com palhaços, artistas de teatro e corridas de cavalo. Outro costume dos imperadores era a distribuição de cereais mensalmente no Pórtico de Minucius. Basicamente, estes “presentes” ao povo romano garantia que a plebe não morresse de fome e tampouco de aborrecimento. A vantagem de tal prática era que, ao mesmo tempo em que a população ficava contente e apaziguada, a popularidade do imperador entre os mais humildes ficava consolidada.

Agora, se a nota da Ascom se confirmar, o governo Valmir Mariano tira mais esse privilégio da população.

Se formos analisar friamente os números, verificaremos que, realmente, a crise financeira se instalou em Parauapebas. Encontrar culpados talvez seja a mais difícil das tarefas, já que quando o assunto é dinheiro e gestão dificilmente se acha um consenso.

Pois bem! Segundo dados oficiais, a prefeitura de Parauapebas arrecadou R$1.170.039.000,00 (um bilhão, cento e setenta milhões e trinta e nove mil Reais) em 2013, primeiro ano do mandato de Valmir Mariano. Já em 2014 essa arrecadação foi de R$1.049,051,000,00 (um bilhão, quarenta e nove milhões e cinquenta e um mil Reais). Em 2015 a queda continuou e o município arrecadou R$943.525,000,00 (novecentos e quarenta e três milhões e quinhentos e vinte e cinco mil Reais).

Poxa, mas como falar em falta de recursos se nos 3 primeiros anos a arrecadação, mesmo em queda, superou os R$3,1 bilhões ? E é aí que está o problema. Dados pesquisados junto ao Banco do Brasil apontam que até ontem (21), faltando apenas 41 dias para terminar o ano, Parauapebas havia arrecadado apenas R$423.423.610,50 (quatrocentos e vinte e três milhões, quatrocentos e vinte e três mil, seiscentos e dez Reais e cinquenta centavos) no ano de 2016. Esse valor, segundo fontes da própria prefeitura, mal dá pra pagar a Folha de Pagamento.

Restou ao governo demitir funcionários, tentar enxugar a máquina administrativa, cortar investimentos, e, consequentemente o Show da Virada foi a reboque. Se já estava difícil conseguir o pão de cada dia, agora não teremos também o circo. Pobre sina de um município que um dia já esteve entre os principais exportadores do país e por anos ocupou o primeiro lugar como maior saldo da balança comercial brasileira. Hoje, agoniza perante uma situação da qual não se tem nenhum controle, já que ao longo dos seus 27 anos pouco foi feito para minimizar a dependência do minério de ferro, o carro chefe da arrecadação.

Claro que os mais desavisados irão imediatamente colocar a culpa no atual gestor, mas, antes de apenas criticar, imagine ter a receita financeira de sua casa diminuída em mais de 40% ao longo dos últimos quatro anos e mesmo assim você ter que aumentar o salário dos seus colaboradores do lar, ter que fazer reformas na casa que está caindo, ter que fazer reparos no carro, ter que pagar as contas da venda da esquina… Você, que é funcionário público, imagine-se resolvendo suas dívidas mensais sem os aumentos que foram dados pelo atual governo. Agora divida seu salário de 2013 por dois e tente resolvê-las.

Descobrir de quem é a culpa por termos chegado à essa situação não cabe aqui agora, seria discutir politicagem em vez de discutir formas para sair dessa crise.

Já dizia o alemão Bertolt Brecht:  “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce à prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

Antes de reclamarmos da falta do Show da Virada esse ano, que tentemos nos organizar em sociedade para discutirmos os problemas locais e cobrar dos nossos políticos políticas que melhorem nosso futuro sem a alta dependência da mineração. Quem sabe assim poderemos ter no futuro um grande show da virada com a barriga cheia e conscientes de que nos envolvemos e construímos nosso futuro e nossos filhos.

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