Uma gigantesca enxurrada de água, gelo, pedras e lama transformou nesta quarta-feira (26) comunidades do norte do Nepal em um cenário de destruição. O desastre atingiu principalmente o distrito de Rasuwa, na região do Himalaia, próximo à fronteira com o Tibete, e também provocou mortes e desaparecimentos do lado chinês.
Os números ainda estão sendo atualizados, mas as informações mais recentes apontam para pelo menos 95 mortos no Nepal e outras três vítimas no lado chinês, totalizando 98 mortes. Além disso, centenas de pessoas continuam desaparecidas, com estimativas que chegam a 649 desaparecidos quando são somados os registros dos dois países. As equipes de resgate ainda enfrentam dificuldades para chegar às regiões mais destruídas.
A força da água arrastou casas, veículos, pontes e trechos de estradas. Imagens divulgadas após o desastre mostram construções parcialmente soterradas pela lama, carros carregados pela correnteza e comunidades inteiras atingidas pelo material que desceu das montanhas.
O que provocou a enxurrada
As primeiras informações apontavam para um terremoto de magnitude 4,4 como possível responsável pelo desastre. No entanto, análises posteriores indicaram um cenário mais complexo.

Imagens de satélite analisadas por especialistas identificaram sinais de uma avalanche de gelo e rochas, possivelmente provocada ou agravada pelo terremoto, que teria descido de uma área glacial situada a cerca de 5.200 metros de altitude.
O material teria atingido o vale mais de 1.200 metros abaixo e bloqueado temporariamente o curso do rio Lhende. Com a formação e posterior ruptura desse bloqueio, uma enorme quantidade de água, gelo, pedras e sedimentos avançou pelo sistema fluvial, atingindo as comunidades abaixo.
Especialistas classificam o fenômeno como uma espécie de avalanche de gelo e rochas seguida por uma inundação repentina. A investigação ainda busca determinar exatamente qual foi o papel do terremoto e se houve também o rompimento de um lago glacial.
A avaliação inicial do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD) aponta para uma avalanche de gelo e rochas como o gatilho mais provável.
🌏 FRONTERA NEPAL 🇳🇵 | CHINA 🇨🇳 | 🚨 URGENTE: CIENTOS DE MUERTOS EN ALUD SIN PRECEDENTES: IMÁGENES APOCALÍPTICAS ⚠️
Desastre de alud de lodo en el lado de Nepal, produjeron muchas muertes y personas desaparecidas en el condado de Jilong, Xigaze (China), Tíbet. pic.twitter.com/OCs0UyoemQ— XAlertNow (@xalertnow) August 26, 2026
Vilarejos foram praticamente varridos do mapa
As áreas de Syapru Besi e Timure, no distrito de Rasuwa, estão entre as mais afetadas. Testemunhas relataram que comunidades instaladas às margens dos rios foram atingidas de forma praticamente instantânea.
Um trabalhador da área de saúde em Rasuwa relatou à Reuters que os assentamentos próximos ao rio foram completamente destruídos e que cinco de seus próprios familiares estavam desaparecidos.
A correnteza também destruiu pontes e interrompeu importantes vias de ligação com a fronteira chinesa. O acesso às regiões atingidas ficou ainda mais difícil justamente porque algumas das estradas utilizadas pelas equipes de emergência também foram destruídas.
Em determinados pontos, o nível dos rios permaneceu tão elevado que os helicópteros enviados pelo Exército do Nepal não conseguiram pousar para retirar vítimas e levar equipes de resgate.
Centenas de turistas estão desaparecidos
A tragédia também atingiu uma área de circulação de turistas, peregrinos e trabalhadores estrangeiros.
O Nepal Tourism Board informou inicialmente que 384 viajantes estavam desaparecidos ou sem contato, entre eles 291 estrangeiros e 93 nepaleses. Com a atualização das informações e a inclusão de registros do lado chinês, o número total de desaparecidos na região passou a ser ainda maior.
Entre os estrangeiros há cidadãos da Índia, Estados Unidos, Reino Unido, Malásia, Coreia do Sul, África do Sul, Austrália, Canadá e outros países.
A Índia aparece entre os países mais afetados. Mais de 100 indianos estão entre as pessoas que não foram localizadas, segundo informações divulgadas pelas autoridades indianas.
Também há preocupação com trabalhadores estrangeiros ligados a projetos de infraestrutura. A Coreia do Sul informou que oito de seus cidadãos que trabalhavam em um projeto hidrelétrico estão desaparecidos.
Energia também foi atingida
A destruição não ficou restrita às comunidades.
Estradas, pontes, linhas de transmissão, sistemas de comunicação e instalações de geração de energia foram atingidos pela enxurrada.
Segundo as autoridades nepalesas, cerca de 430 megawatts de capacidade de geração de energia foram afetados, incluindo instalações hidrelétricas e solares. O volume representa mais de 12% da capacidade hidrelétrica do país, que gira em torno de 3,2 gigawatts.
A região atingida possui diversos projetos hidrelétricos, o que aumenta a importância econômica do desastre. Além da destruição imediata, os danos à infraestrutura podem dificultar o abastecimento de energia e a reconstrução das áreas afetadas.
Desastre também atingiu o Tibete
A tragédia atravessou a fronteira.
Do lado chinês, um deslizamento atingiu a região de Gyirong, no Tibete, incluindo uma importante passagem terrestre utilizada para o comércio entre China e Nepal.
As autoridades chinesas confirmaram três mortes e informaram que 265 pessoas estavam desaparecidas na região. Estradas, estruturas de fronteira, sistemas de comunicação e instalações de energia também foram atingidos.
O presidente chinês, Xi Jinping, determinou a intensificação das operações de busca e resgate e pediu o reforço dos sistemas de monitoramento e alerta para evitar novas vítimas.
A China mobilizou centenas de equipes para atuar na região atingida.
Autoridades temem uma nova enchente
O desastre pode ainda não ter terminado.
Equipes de emergência identificaram a possibilidade de existir um novo bloqueio de água e detritos rio acima. Caso essa barreira se rompa de forma repentina, outra onda de água poderá atingir áreas que já estão devastadas ou comunidades localizadas mais abaixo no curso dos rios.
Por causa desse risco, autoridades nepalesas orientaram moradores que vivem próximos aos rios a deixarem áreas baixas e procurarem regiões mais elevadas.
Alertas também foram emitidos para áreas da Índia que podem ser afetadas pela elevação dos níveis dos rios que recebem as águas provenientes do Nepal.
Uma região que já havia enfrentado uma tragédia semelhante
O desastre desta quarta-feira ocorre pouco mais de um ano depois de outra grande enchente no mesmo sistema fluvial.
Em julho de 2025, uma inundação repentina no rio Bhote Koshi, também na região de Rasuwa, matou pelo menos nove pessoas e deixou outras 24 desaparecidas. Na ocasião, uma ponte que ligava Nepal e China foi destruída, prejudicando durante meses o transporte e o comércio entre os dois países.
A investigação daquele episódio concluiu que o desastre havia sido provocado pelo esvaziamento repentino de um lago supraglacial no Tibete.
A repetição de eventos extremos na região aumentou a preocupação de especialistas com a segurança das comunidades instaladas nos vales do Himalaia.
Himalaia enfrenta risco crescente
O Nepal é particularmente vulnerável a enchentes, deslizamentos e avalanches por causa de seu relevo montanhoso e da grande quantidade de geleiras existentes na região.
Especialistas também relacionam o aumento dos riscos à elevação das temperaturas e ao derretimento acelerado das geleiras. O recuo do gelo pode contribuir para a formação e o crescimento de lagos glaciais que, quando suas barreiras naturais se rompem, liberam enormes volumes de água em poucos minutos.
O episódio desta quarta-feira reforça justamente esse temor: um fenômeno que começa em uma área remota e elevada pode rapidamente se transformar em uma onda destrutiva capaz de atingir vilarejos, rodovias, pontes e instalações de energia dezenas de quilômetros rio abaixo.
Enquanto as equipes continuam procurando sobreviventes, o Nepal enfrenta agora uma corrida contra o tempo. Além de localizar centenas de desaparecidos, os socorristas precisam lidar com estradas destruídas, rios ainda perigosos, novas possibilidades de deslizamentos e o risco de uma segunda onda de inundação.
O número de mortos e desaparecidos ainda pode aumentar, já que diversas áreas permanecem isoladas e sem comunicação.