Uma conquista histórica para o jornalismo amazônico. O jornalista Carlos Magno, de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, teve uma reportagem selecionada para a etapa final do 48º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, considerado a mais importante premiação da imprensa brasileira – frequentemente chamado de “Oscar do Jornalismo Nacional”.
A classificação representa um feito inédito: pela primeira vez na história, um jornalista do interior do estado do Pará e um veículo de comunicação sediado no interior paraense chegam à etapa final do Prêmio Vladimir Herzog na categoria Texto.
A reportagem selecionada conta a história do ambientalista Benedito dos Santos Aguiar, o Seu Bené, morador da Gleba Joana Peres, no município de Portel, próximo à divisa com Tucuruí. O trabalho foi publicado em março deste ano pelo portal Blog do Zé Dudu e alcançou ampla repercussão ao retratar a trajetória de um homem simples da Amazônia que há mais de quatro décadas preserva cerca de 600 alqueires de floresta nativa.
No dia 13 de junho, o jornalista inscreveu a reportagem na categoria Texto da premiação, e, nesta terça-feira (23), recebeu o comunicado oficial da Comissão Organizadora informando que o trabalho foi considerado apto e selecionado para a etapa final.
“Fiquei em estado de êxtase. Para um jornalista do interior da Amazônia, ter uma reportagem selecionada para o Prêmio Vladimir Herzog é algo difícil de descrever. Independentemente do resultado final, já me sinto plenamente realizado profissionalmente”, declarou Carlos Magno, emocionado.
Da Transamazônica para a principal premiação do jornalismo brasileiro
A trajetória do jornalista torna a conquista ainda mais simbólica.
Filho de colonos, criado às margens da Rodovia Transamazônica, em uma região marcada por desafios sociais, econômicos e de infraestrutura, Carlos Magno construiu sua carreira longe dos grandes centros de comunicação do país. Ao longo de décadas atuando no interior da Amazônia, tornou-se uma das principais referências do jornalismo regional.
Agora, sua reportagem ultrapassa as fronteiras da região e passa a disputar reconhecimento nacional na premiação mais prestigiada da imprensa brasileira.
O papel fundamental de Genismares Carvalho
O jornalista fez questão de destacar a contribuição do ativista ambiental Genismares Carvalho, que sugeriu a pauta e participou da expedição até a propriedade de Seu Bené.
“Sem o apoio e o conhecimento da região por parte de Genismares, essa matéria talvez nunca tivesse sido produzida. Ele teve papel fundamental em toda a construção da reportagem”, ressaltou Magno.
Seu Bené: um guardião da floresta amazônica
O personagem central da reportagem é Benedito dos Santos Aguiar, conhecido como Seu Bené.
Morando em uma área remota da Gleba Joana Peres, ele dedicou grande parte da vida à preservação da Floresta Amazônica, mantendo intacta uma extensa área de mata nativa em uma região historicamente pressionada pelo avanço do desmatamento.
Sua história chamou atenção justamente por demonstrar que a conservação ambiental também é construída por pessoas simples, muitas vezes anônimas, que desenvolvem uma relação profunda de respeito com a floresta.
Pará já teve vencedores históricos na categoria Texto
Embora seja inédita para o interior paraense, a presença do Pará na história do Prêmio Vladimir Herzog inclui nomes de destaque.
Entre eles está o jornalista Luiz Maklouf Carvalho, nascido em Belém, que foi premiado nas primeiras edições do concurso, em 1979 e 1980, por reportagens publicadas no jornal alternativo Resistência, denunciando violações de direitos humanos contra trabalhadores rurais no interior da Amazônia.
Outro vencedor paraense foi o jornalista Ismael Machado, que conquistou o prêmio na categoria Jornal, em 2013, com a reportagem “Os Suruí e a Guerrilha do Araguaia”, publicada no Diário do Pará.
Agora, pela primeira vez, um profissional e um veículo sediados no interior do estado chegam à fase decisiva da premiação.

Sobre o Prêmio Vladimir Herzog
Criado em 1979, o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos homenageia profissionais da comunicação que, por meio de seus trabalhos, defendem valores fundamentais como a democracia, a justiça, a paz e os direitos humanos.
A premiação leva o nome do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura militar brasileira em 1975.
Atualmente, é promovida pelo Instituto Prêmio Vladimir Herzog e reúne algumas das mais importantes entidades da sociedade civil e do jornalismo brasileiro, entre elas a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) e a Escola de Comunicação e Artes da Universidade de SãoPaulo (ECA/USP).
Próximas etapas
A sessão pública de julgamento e divulgação dos vencedores ocorrerá no dia 30 de setembro de 2026, às 14h, com transmissão ao vivo para todo o país. Já a cerimônia oficial de entrega do prêmio está marcada para o dia 20 de outubro de 2026, no Tucarena, em São Paulo.
Carlos Magno já anunciou que pretende convidar o ativista ambiental Genismares Carvalho e o ambientalista Seu Bené para acompanhá-lo na solenidade.
“São coisas que só Deus pode explicar. Um filho de colonos da Transamazônica, jornalista do interior da Amazônia, chegar à etapa final do Prêmio Vladimir Herzog é uma bênção que jamais imaginei viver. Divido essa conquista com Genismares, com Seu Bené e com todos que acreditam na força do jornalismo amazônico”, concluiu.







