Internet de qualidade é WKVE Liga você ao mundo!
Saúde

Artigo: Quando o medo masculino está apenas em um toque.

O novembro azul pode ser um bom período para falarmos da detecção precoce do câncer de próstata, e é. No entanto, precisamos conversar também sobre o que é ser homem.

Por Wagner Dias Caldeira ( *)

Gabriel Garcia Marquez, em uma de suas principais obras, O Amor nos Tempos do Cólera, faz Fermina Daza, a bela e delicada senhora que protagoniza o romance, lembrar de um fato de sua noite de núpcias com o Dr. Juvenal Urbino. Ele foi o primeiro homem que ela ouvira urinar e som daquele “manancial de cavalo tão potente e investido de tanta autoridade” a fizera temer os estragos vindouros.

Assim como na literatura, na vida que vivemos fora dos livros a masculinidade sempre esteve ligada a expressões de força, potência e autoridade, enquanto que à mulher e à feminilidade foram deixadas a submissão e a passividade. Não nascemos com esses lugares biologicamente reservados, eles são construídos socialmente e vêm mudando muito lentamente e a passos de bêbado.

Ambos, homens e mulheres, têm pago um preço alto pela manutenção dessa configuração social. Mulheres mais, é claro: enclausura no espaço doméstico, violências, exclusividade na criação dos filhos, dependências emocional e financeira.

Os homens, porém, passam por um momento de indisfarçável ameaça aos esteios da masculinidade. Um dos principais perigos nasce e cresce dentro do próprio corpo do homem. O de próstata é o segundo câncer que mais afeta a saúde dos homens – perde apena para os tumores de pele não melanoma. Mas porque esse câncer além de afetar a saúde ameaça junto a masculinidade?

As piadas com o toque retal parecem não ter fim quanto a número e criatividade. Pelo riso a angústia se ameniza, mas o exame de toque continua sendo o meio mais eficaz de detecção do enrijecimento da próstata, a ponto de que 10% dos casos só são diagnosticados no contato da ponta dos dedos com o órgão.

 Os homens falam pouco quanto aos medos que os afligem enquanto os 50 anos de idade vão se avizinhando, mas o extenso anedotário gira todo em torno da perda da masculinidade. Todos nós homens racionalmente sabemos que um simples exame não deveria mudar o que somos, mas parece que a condição de passividade e recepção incomoda por estar identificada com o papel sexual feminino das mulheres e dos homens homossexuais – que na fantasia do hétero é apenas o passivo.

A evolução do tumor faz com que os pilares da masculinidade dominante se esfumacem: o exame, as dores e a fraqueza que impedem o trabalho pesado, a disfunção erétil e até mesmo as alterações no fluxo urinário que aos poucos deixa de ser o “manancial de cavalo” capaz de encher uma garrafa com a precisão de um sniper e passam a assemelhar-se mais um riacho com destino incerto.

O novembro azul pode ser um bom período para falarmos da detecção precoce do câncer de próstata, e é. No entanto, precisamos conversar também sobre o que é ser homem. Pensarmos que não há só um modo de sê-lo. Tornar a masculinidade um substantivo plural. Masculinidades. O que esperamos dos novos homens é que tenham apenas algo em comum: que reconheçam seus medos e passem a cuidar mais de si.

Wagner-Dias-Caldeira.jpg

( * ) – Wagner Dias Caldeira é psicólogo. Atualmente responde pela coordenação municipal de saúde mental e é Referência Técnica em Saúde Mental do 11º Centro Regional de Saúde/SESPA.

Parauapebas

Programa destinado ao público masculino é implantado nas Unidades de Saúde de Parauapebas

“É bom saber que agora temos um programa para cuidar da saúde dos homens. Essa é a primeira vez que participo de palestra sobre câncer de próstata. Gostei muito. Nunca fiz o exame, porque não sabia os sintomas. Já consultei e vou fazer todos os exames solicitados pelo médico”, relatou o aposentado Francisco Pinto, de 70 anos, um dos participantes da ação de lançamento do Programa Saúde do Homem ocorrido na Unidade Básica de Saúde do Bairro Jardim Canadá, no último dia 25.

Programa Saúde do Homem

Trinta e cinco homens participaram da ação, que envolveu uma palestra sobre o câncer de próstata, tiraram dúvidas sobre prevenção e tratamento da doença, receberam folder explicativo e uma caderneta de acompanhamento, além de consulta de enfermagem e médica, aferição de pressão arterial, glicemias capilar e encaminhamentos de exames.

De acordo com o clínico geral Makxon Denys, o principal foco do Programa Saúde do Homem é dar ao usuário acesso à atenção básica, utilizando o posto de saúde da família. Para ele, o programa vai sensibilizar o público masculino e ajudar a combater o preconceito que ainda existe em relação à prevenção do câncer de próstata.

“É preciso que os homens procurem atendimento no posto de saúde, não só quando apresentarem algum problema, mas, principalmente, quando estiverem acima de 50 anos. Isso se não tiverem nenhum parente com câncer de próstata. Caso já tenha casos na família, é preciso vir desde os 40 anos, mesmo não sentindo nada, assim poderá fazer o exame de Dosagem do Antígeno Prostático Específico (PSA) todos os anos e, se precisar, o toque retal”, recomenda o médico.

Para quem já teve casos na família, a preocupação é ainda maior, como é o caso do gerente administrativo Paulo de Tarso, 45 anos. Ele conta que seu irmão sofreu com a doença e conseguiu ter êxodo em sua recuperação, mas o fato deixa em alerta para maiores cuidados e prevenção da doença.

“Todos os anos faço o exame de sangue (PSA), mas sempre é bom tirar dúvidas. Com essa palestra consegui sanar minha dúvida em relação aos medicamentos que podem ser utilizados no combate da doença e também os sintomas”, declarou o morador do Bairro Novo Horizonte, que também levou o irmão para participar da ação que aconteceu no início da noite.

IMG_1644

Durante o mês de setembro, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), por intermédio da Coordenação Municipal da Saúde do Homem, lançou oficialmente nas Unidades Básicas de Saúde o programa Saúde do Homem. A iniciativa faz parte da Política Nacional da Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), do Ministério da Saúde. As Unidades Básicas de Saúde Jardim Canadá, Casas Populares, Palmares I, Paulo Fonteles e Centro de Saúde Cidade Nova foram as primeiras a aderir ao programa. A adesão ocorrerá de forma gradativa, tendo em vista a necessidade de capacitação e mudança de rotina das unidades para atendimento a este público.

De acordo com o Coordenador Municipal do programa, enfermeiro Ramilson, a ação é o pontapé inicial para uma série de atividades que serão desenvolvidas. Entre as principais dificuldades apontadas pelos homens, no que diz respeito ao cuidado com a saúde, estão os horários das consultas. Para tentar solucionar esse problema, as unidades de saúde que aderiram ao Programa Saúde do Homem atenderão o público masculino em um horário diferenciado.

“Vamos dar continuidade às ações para facilitar o acesso do homem à rede municipal de saúde, novos dias para atendimento serão marcados e avisados previamente pela gerência e agentes comunitários de saúde. Também já estamos com uma programação em parceria com as empresas para realizar as ações dentro das empresas”, explicou o coordenador.

Texto: Liliane Diniz – Fotos: Anderson Sousa