Compra de remédio com eficácia não comprovada movimenta R$ 2,8 milhões no Pará

Parauapebas é quem, até o momento, fez o maior gasto com a cloroquina entre as prefeitura paraenses. Outros municípios investem mais em ivermectina, azitromicina, zinco e vitamina C.
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Um medicamento que esteve — e continua estando — no olho do furacão na pandemia do novo coronavírus fez com que pelo menos 14 prefeituras desembolsassem cerca de R$ 2,8 milhões para compra e distribuição via Sistema Único de Saúde (SUS) a pretexto de tratar Covid-19. É a cloroquina, um remédio de eficácia não comprovada, mas que o governo brasileiro orienta o uso como protocolo de tratamento de pacientes acometidos pelo vírus. Dessa montanha de dinheiro também fazem parte o antibiótico azitromicina e, não raramente, o vermífugo ivermectina e o mineral zinco.

O Blog do Zé Dudu rastreou as compras diretas e nominais que têm cloroquina na cesta efetuadas pelas prefeituras paraenses e constatou que, pelo menos, 14 delas fizeram aquisição do medicamento por meio de dispensa de licitação durante a pandemia. O total desembolsado pelos governos municipais chega a R$ 2.791.840,88, conforme declararam as prefeituras ao Tribunal de Contas dos Municípios.

Mas o valor pode ser infinitamente maior. É que esse montante considera apenas as licitações cujo objetivo foca na aquisição de cloroquina ou hidroxicloroquina, ainda que ela venha junto com dois ou três outros medicamentos também utilizados na tentativa de frear a doença. Nas licitações compradas em pacotes fechados, em que a cloroquina aparece misturada a outras centenas de medicamentos via pregão, não foi possível checar valores em razão da extensão das aquisições.

De qualquer modo, R$ 2,8 milhões é um valor robusto. Apenas o que 14 municípios gastaram até aqui, se divido para todas as 86 mil pessoas com diagnóstico confirmado para Covid-19 no Pará, geraria um custo de R$ 32,46 em medicamentos por habitante. Algumas prefeituras, como Maracanã e Tomé-Açu, chegaram até a comprar duas vezes.

De R$ 7 mil a R$ 1,3 milhão

A Prefeitura de Belém lidera o volume de compras de cloroquina. Uma das capitais mais assoladas pelo coronavírus e com 17.600 mil casos confirmados, quase 1.900 dos quais com evolução a óbito, a metrópole paraense comprou um combo de R$ 1,31 milhão em medicamentos, entre os quais R$ 11.600 em 4.000 cápsulas de hidroxicloroquina. O resto foram 200 mil unidades de azitromicina.

Já o governo de Nova Timboteua fez a menor compra, no valor de R$ 7.615, sendo que apenas R$ 615 desse montante foram diretamente para 150 comprimidos de cloroquina. O restante, R$ 7.000, foi dissolvido em 5.000 comprimidos de ivermectina, este o qual também amplamente utilizado como adjuvante em sintomas iniciais da infecção por coronavírus. A compra proporcionalmente mais cara foi feita por Parauapebas, que gastou quase R$ 323 mil em 10 mil frascos de cloroquina manipulada. Já Augusto Correa gastou aproximadamente R$ 350 mil, mas em 60 mil comprimidos de 450 miligramas.

Enquanto o governo brasileiro amplia as recomendações para uso da cloroquina no país, abrindo porteiras para contratações emergenciais e diretas, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda e pede cautela para os países que usam o medicamento com a finalidade de tratar Covid. Até os Estados Unidos, primeiro país a defender publicamente o medicamento, já recuam do protocolo. Confira quem gastou, quanto gastou e com quê gastou!

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