Coluna Ruídos & Provocações #05

A coluna de hoje do advogado Sebastião Tadeu discorre sobre a luxúria
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Luxúria – Suave é a Noite

Chet Backer. I Fall in Love Too Easily. Preciso de um uísque. Duplo. Faço resenhas de exposições em galerias de artes de pintores famosos, para grandes exposições pelo Brasil afora. Também faço resenhas de livros de ficção para uma revista literária. Às vezes, chego a fazer 20 resenhas por mês, usando pseudônimos diferentes. Hoje, sou Antero Sotto Mayor. O livro é chato, monótono e eu vou me arrastando por suas páginas como o personagem principal. Mas ainda tenho tempo. Preciso me preocupar primeiro com o russo Wassily Kandinsky, o criador da pintura abstrata e o teórico de arte mais influente do século XX.

My Funny Valentine e mais um uísque, agora com Clube Soda. O telefone toca, é minha amiga Tamyres, que também faz resenhas de teatro, musicais e óperas. Aí eu digo: “Então?”.

Eu sempre digo “Então?”. Até em cerimônias fúnebres. Ela me diz que precisa fazer uma resenha da ópera “Manon” de Jules Massenet, que vai estrear no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
E me suplica: “Você conhece, já ouviu”. Fico até constrangido em lhe dizer que é uma das minhas óperas favoritas, mas digo.
Ela: “Especificamente o que você sabe?”
“Tipo essas olheiras de livros, serve?”
Ela diz que vai ligar o gravador do telefone e ordena: “Diga aí, meu Arnaldo Antunes”.

E eu, com a minha melhor dicção de tenor de ópera bufa, solto a voz: “Então, ‘Manon’ estreou, acho que lá pelos anos de 1884/1885, na Opéra Comique de Paris e fez um sucesso extraordinário. Fizeram mais de 2 mil récitas no mesmo teatro. O contexto é algo paradisíaco. Na França do século XVIII, um nobre e uma adolescente vivem um amor proibido, marcado por uma série de peripécias, incluindo jogatina, convento e um exílio na América. Inspirada no clássico da literatura do Abade Prévost, ‘Manon’ representa uma das mais inspiradas óperas francesas do século XIX”.

Continuo, depois de uma generosa dose do meu uísque: “Seu autor, Jules Massenet, que morreu em 1912, salvo melhor juízo, foi uma das figuras musicais mais influentes da Paris de seu tempo. ‘Manon’ evoca com sutileza a França do tempo de Luís XV, realizando, ao mesmo tempo, um retrato psicológico profundo de um dos personagens femininos mais complexos do repertório operístico”.

“Então, acho que a minha melhor performance. Daqui para frente você preenche com um bom compêndio de História Geral”.
Ela: “Uau. Você merece um sexo rápido, pois ainda tenho de enviar essa resenha hoje para a redação. O que preferes? Papai e mamãe ou chupetinha?”

Só que não. Eu moro na Vila Madalena, em São Paulo e ela no Leblon, no Rio de Janeiro.

Ela: “Já que estás tão longe, poderia ler um poema do Paulo Leminski para eu me masturbar– mas um bem curto, pois o meu vibrador é à pilha e elas estão novas”.

Abro ao acaso o Toda Poesia do Leminski e digo: “Te ajeita que lá vai”.

Em la lucha de clases
Todas las armas son buenas
Piedras
Noches
Poemas

Ela grita ofegante e ainda excitada: “Pra mim já deu”.

Eu aplaudo. Quisera eu, ter um orgasmo tão ultrassônico e barulhento.

Nos despedimos e fico no meio da noite com meu solitário uísque e Chet Bacher – I Get Along Without You Very Well.

Caminho até a varanda do 15º andar e vejo uma lua cheia da era vitoriana, exibicionista e farta. A noite é suave e a brisa desse outono de junho me comove.  

Começo a ler uma teoria sobre arte de Kandinsky, que concebeu a pintura abstrata inspirada por ideias metafísicas sobre o triunfo do espírito sobre a matéria, tal como descreveu em “Do Espiritual na Arte”, seu primeiro texto teórico sobre a cor e forma e uma defesa da intuição como valor artístico.

Ele disse, certa vez, que caminhava com seus apetrechos por várias horas pela cidade de Moscou, pois “andava em busca de determinada hora, que era e é a mais bela do dia em Moscou… Por um instante, o sol faz com que toda a cidade fique misturada em uma única mancha”.

Eu, ao contrário, procurava a noite, onde todos se misturavam e os desejos vinham à tona. Os corpos esguios e as pernas seminuas e bem torneadas das mulheres de néon cintilavam e se ofereciam e o meu desejo não tem controle. A minha psicanalista me disse que sexo pode viciar. A explicação está no cérebro, que pega um recurso natural prazeroso e hiperestimula esse processo, tornando-o um círculo vicioso. Na verdade, vicia mesmo, fazíamos sexo toda semana, após a sessão.

Eu e minha terapeuta tivemos terríveis discussões quando nos conhecemos. Eu lhe disse que não acreditava na sua neutralidade. Para mim, a operacionalidade terapêutica tem que se fundamentar em valores. Se não há neutralidade, temos que ver em que linha se vai. Eu preciso saber com quem estou fazendo a terapia, onde ela se localiza politicamente e socialmente. Dependendo do contexto ideológico os conceitos variam enormemente, eu lhe dizia – o conceito de normalidade, ou mesmo os de sanidade ou insanidade requerem uma séria elaboração. E eu custei muito a achar meu espaço no cosmo.

A minha terapeuta me dizia que o analisado era eu, que eu é que devia me situar no tempo e no espaço. Enfim chegamos a um consenso após um fim de semana em Teresópolis. Ela me abriu muitas portas, quando parou de exercer só o papel de terapeuta. Na verdade, ela me disse: “Eu também sou uma trabalhadora social. Eu sou filiada a um partido, sou sócia de um clube, sou assessora de uma instituição, faço parte de um movimento social e político”. 

“Quando eu atuo”, disse ela, “mesmo tentando ser neutra eu estou utilizando uma política científica e uma retórica para te convencer de um outro jeito”. 

Acho que funcionou comigo. A terapia me deu as condições de reflexão e de checagem do meio onde eu vivia e me envolvia. Daí eu saí do jornal, me separei da minha terceira esposa e me mudei de cidade. A terapia me mostrou isso: ou mudam as pessoas ao seu entorno ou muda você de entorno. Eu comecei a procurar meios menos opressores, pessoas mais leves e inteligentes. Comecei a escolher melhor o meu ambiente, mas as minhas neuroses migram e se transmutam e dialogam bem com o novo eu. Mudei de psicóloga, e ainda estamos nos estudando.

Amei muitas mulheres, mas nada como uma dinamarquesa que se recusava a gozar. Ellie era linda e suave como as noites de outono. Prolongava por horas o ato sexual, com exercícios, carícias, técnicas de respiração e masturbação. Ela dizia que o grande lance é gozar no caminho para o nirvana – esta  seria a descrição mais direta e inteligível do que é a meditação orgásmica, que, segundo ela, contrariamente ao que a experiência sugere ao comum dos mortais, afirmava que as cotas mais altas do prazer sexual se encontram antes de atingir o orgasmo.

Cheguei a morar com três mulheres que trabalhavam na noite. A dinamarquesa Ellie, a pernambucana Roberta e uma colombiana de nome Mara. Vivemos felizes por oito meses. Depois, Ellie voltou para a Dinamarca,  Roberta casou-se com um holandês e mudou-se para Amsterdã e a colombiana Mara se amasiou com um velhinho mexicano que tinha muitas terras e uma jazida de bauxita em Pedra Branca do Amapari, no estado do Amapá.

Acho que Mara não é feliz. Me liga toda semana, por volta das 4 horas da madrugada, pedindo que lhe leia capítulos inteiros do livro “Os 120 dias de Sodoma”, do aristocrata francês e escritor libertino Donatien Alphonse François de Sade – o Marquês de Sade. Seus contos têm aulas de libertinagem em uma orgia entremeada de discussões filosóficas.

Ela vai ficando com a respiração ofegante e goza em francês: “Oui, Oui, Oui”.

Eu varria a noite de São Paulo como um Nosferatu, o vampiro da noite, à procura de luxúria. A noite – Nix – tem sua deusa na mitologia grega. A Noite desempenhou um papel importante no mito, como um dos primeiros e mais poderosos seres a vir à existência.

Hesíodo afirma que Nix é filha do Caos, sendo a segunda criatura, seguida de seu irmão gêmeo Érebo, a escuridão, a emergir do vazio. Logo depois surgem Gaia, a mãe Terra, Tártaro, as trevas abismais, Eros, o amor da criação, que são considerados irmãos do Caos. Dessas forças primordiais sobreveio as outras das divindades gregas.

Em sua Teogonia, Hesíodo também descreve a residência proibida da Noite:

Lá também está a melancólica casa da Noite; nuvens pálidas a envolvem na escuridão; Antes delas, Atlas se porta, ereto, e sobre sua cabeça, com seus braços incansáveis, sustenta firmemente o amplo céu, onde a Noite e o Dia cruzam um patamar de bronze e então aproximam-se um do outro.

Nix é a deusa dos segredos e mistérios noturnos, rainha dos astros noturnos. Nix é a patrona das feiticeiras e bruxas, cultuada porque acreditavam que ela dá fertilidade à terra para brotar ervas encantadas. Também se acreditava que Nix tem total controle sobre vida e morte, tanto dos homens como dos deuses. Homero se refere a Nix com o epíteto “A domadora dos Homens e dos Deuses”, demonstrando como os outros deuses respeitavam-na e temiam esta poderosíssima Deidade.

Então, eu acho que atualmente eu vivo só a fase do tesão. Segundo a psiquiatra americana Judith Orloff: “Tesão é a sensação intensa de querer transar com alguém. Amor é querer transar com a pessoa e também ter proximidade emocional. Amor significa querer passar tempo com o parceiro e ouvir as necessidades dele ou dela, para sentir a conexão. Você também está interessado em conhecer os amigos da pessoa amada. Tesão significa que você está mais interessado em transar do que em conversar de forma íntima ou conhecer os amigos daquela pessoa”.

Então, eu entrei na última balada às 4h45, tomei mais dois uísques e conheci Margot. Dançamos, tomamos vodca com energético, beijamos muito e fomos concluir a noite num hotel em frente à balada. Eu não perguntei seu nome verdadeiro, sua cidade, se gostava dos Beatles, se queria ter filhos. Só fizemos sexo, selvagem e intenso e foi bom. Eu nunca mais vou ver a Margot, mas quando fizer inverno dentro de mim, eu vou lembrar da sua boca e da sua vagina depilada. 

A vida é mesmo assim.

Sebastião Tadeu Ferreira Reis

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