O mercado internacional do cacau vive um dos períodos mais turbulentos de sua história recente. Depois de uma escalada extraordinária dos preços em 2024, quando a tonelada ultrapassou a barreira dos US$ 12 mil, a commodity passou por um processo de desvalorização, recuperação parcial e novas oscilações, provocando incertezas entre produtores, exportadores, indústrias de chocolate e investidores.
O fenômeno tem repercussões diretas no Brasil, especialmente no Pará, onde a cacauicultura representa uma importante atividade econômica para milhares de famílias rurais.
Na região da Transamazônica, municípios como Medicilândia, Uruará, Placas, Brasil Novo, Anapu e Altamira estão entre os principais centros de produção. Em Novo Repartimento, no sudeste paraense, a cultura também possui expressiva participação na economia rural.
A preocupação dos agricultores tem fundamento: o cacau é uma commodity negociada internacionalmente, cujo preço depende de fatores que estão muito além das propriedades rurais brasileiras.
Uma seca na África Ocidental, uma doença nas plantações de Gana, chuvas excessivas na Costa do Marfim ou uma redução na demanda das indústrias europeias podem alterar as cotações e afetar a renda de um agricultor localizado a milhares de quilômetros de distância, no interior do Pará.
Da euforia à incerteza: o que aconteceu com os preços do cacau?
A escalada internacional do cacau ganhou força em 2023 e atingiu proporções históricas em 2024. Naquele ano, problemas climáticos e fitossanitários comprometeram a produção de países africanos responsáveis por grande parte do abastecimento mundial. Com a oferta reduzida e os estoques pressionados, os preços dispararam.
O mercado registrou cotações superiores a US$ 12 mil por tonelada, um patamar excepcional para uma commodity que, poucos anos antes, era negociada por valores próximos de US$ 2 mil a US$ 3 mil.
A partir de 2025, entretanto, o mercado começou a apresentar mudanças de comportamento. A recuperação parcial das colheitas, a redução do processamento industrial e a recomposição dos estoques contribuíram para enfraquecer os preços.
Segundo estimativas revisadas da Organização Internacional do Cacau (ICCO), a produção mundial passou de aproximadamente 4,36 milhões de toneladas na safra 2023/2024 para 4,72 milhões de toneladas em 2024/2025, crescimento de aproximadamente 8,3%. O balanço mundial, que havia registrado um déficit estimado em 492 mil toneladas, passou a apresentar um superávit de aproximadamente 48 mil toneladas.
Essa mudança ajuda a compreender por que uma commodity que parecia destinada a permanecer em patamares extraordinariamente elevados voltou a sofrer pressões de baixa.
Cacau volta a se aproximar de US$ 6 mil em outubro de 2026
No fechamento desta quarta-feira (21), o contrato futuro de cacau para dezembro foi cotado em aproximadamente US$ 5.839 por tonelada na Bolsa de Nova York, conforme a referência de mercado utilizada neste levantamento.
O preço representa uma desvalorização de aproximadamente 51,3% em relação ao patamar de US$ 12 mil registrado durante a crise de oferta de 2024. Entretanto, mesmo com a queda expressiva, as cotações internacionais continuam acima dos níveis predominantes antes da grande disparada.
No mercado físico paraense, referências regionais apontavam negociações próximas de R$ 16,70 por quilo de amêndoas, valor indicativo que pode variar conforme o município, a qualidade do produto, a umidade, o comprador e as condições comerciais.
A situação exige cautela dos agricultores, sobretudo daqueles que ampliaram suas plantações ou realizaram investimentos considerando a possibilidade de manutenção dos preços recordes.
É importante distinguir o valor negociado na bolsa internacional daquele efetivamente recebido pelos produtores brasileiros. A cotação regional depende da qualidade e umidade das amêndoas, do câmbio, dos custos de transporte, da intermediação comercial e das condições de compra da indústria.
A evolução dos preços internacionais e a forte volatilidade
O comportamento do mercado nos últimos anos revela uma valorização extraordinária, seguida de uma correção igualmente expressiva.
Antes da crise de oferta, o cacau era negociado em patamares relativamente mais baixos. Em 2024, a escassez de matéria-prima provocou uma corrida por contratos futuros e levou os preços a níveis históricos.
Em 2025, apesar dos recuos registrados em diferentes momentos, os preços permaneceram elevados em comparação com os anos anteriores à crise. Já em 2026, a volatilidade voltou a se destacar, com períodos de forte desvalorização e movimentos de recuperação.
Para dimensionar essas oscilações, as referências selecionadas do contrato futuro de cacau em Nova York indicavam US$ 5.867 por tonelada em 5 de outubro, US$ 5.665 em 9 de outubro, US$ 5.733 em 13 de outubro, US$ 5.645 em 16 de outubro, US$ 5.687 em 19 de outubro, US$ 5.801 em 20 de outubro e US$ 5.839 em 21 de outubro de 2026.
Esses valores correspondem a referências diárias de negociação e não devem ser confundidos com médias mensais ou anuais.
A alternância de movimentos de alta e baixa dificulta o planejamento financeiro das propriedades rurais, principalmente porque o cacau é uma cultura permanente, que exige investimentos de longo prazo e cuidados constantes com as plantações. Ao contrário de atividades agrícolas de ciclo curto, a implantação de uma lavoura de cacau envolve decisões cujos resultados econômicos podem levar anos para se consolidar.
Por essa razão, a análise de preços deve considerar não apenas as cotações de determinado dia, mas também as tendências de oferta, consumo, estoques e custos de produção.
África: o continente que determina o comportamento do mercado mundial
O continente afriacano continua sendo o principal centro de produção de cacau do planeta: Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões concentram grande parte do fornecimento mundial. Por essa razão, alterações climáticas, doenças nas plantações e dificuldades logísticas nesses países repercutem rapidamente nas bolsas internacionais.
A Costa do Marfim ocupa a liderança mundial, seguida por Gana, embora a produção ganesa tenha enfrentado perdas significativas nos últimos anos.
A dimensão do problema pode ser observada no balanço internacional divulgado pela ICCO.
Na safra 2023/2024, a produção mundial foi estimada em 4,362 milhões de toneladas, enquanto o processamento industrial alcançou aproximadamente 4,810 milhões de toneladas. O mercado registrou um déficit estimado em 492 mil toneladas, com estoques finais próximos de 1,272 milhão de toneladas.
Na safra 2024/2025, a produção mundial aumentou para aproximadamente 4,723 milhões de toneladas, enquanto o processamento recuou para cerca de 4,628 milhões de toneladas. O balanço passou a registrar superávit estimado em 48 mil toneladas, com estoques finais próximos de 1,320 milhão de toneladas.
Os números mostram uma recuperação de aproximadamente 361 mil toneladas na produção mundial entre as duas safras, acompanhada de uma redução de cerca de 182 mil toneladas no processamento industrial. Essa combinação contribuiu para aliviar o desequilíbrio que havia impulsionado os preços internacionais.
Na Costa do Marfim, a produção sofreu uma retração expressiva na safra 2023/2024, passando de aproximadamente 2,24 milhões para 1,67 milhão de toneladas, conforme estimativas históricas da ICCO. Em Gana, as perdas também foram significativas.
A redução do fornecimento africano foi um dos principais fatores responsáveis pela disparada dos preços em 2024.
Na safra seguinte, a recuperação da produção mundial ajudou a diminuir a pressão sobre os estoques. Entretanto, essa melhora não significa que os problemas estruturais tenham sido resolvidos. O envelhecimento das plantações, a disseminação de doenças, as alterações no regime de chuvas e a necessidade de renovação dos cacaueiros continuam representando desafios para os agricultores africanos.
As condições meteorológicas na Costa do Marfim permanecem entre os fatores acompanhados pelo mercado, especialmente pelos possíveis impactos sobre a colheita, a secagem das amêndoas e o transporte até os portos. Portanto, o continente africano permanece como o principal fator de influência sobre a oferta internacional, mas a demanda das indústrias de chocolate e os níveis de estoque também são decisivos na formação dos preços.
Brasil: uma potência agrícola que busca ampliar sua participação no mercado
O Brasil possui uma longa tradição na produção de cacau, especialmente na Bahia, onde a cultura teve papel determinante na formação econômica e social de municípios como Ilhéus e Itabuna. Nas últimas décadas, entretanto, o Pará consolidou-se como o principal centro produtor nacional, impulsionado pela expansão das lavouras na região da Transamazônica.
Conforme os dados de produção referentes a 2024 utilizados neste levantamento, o Brasil produziu aproximadamente 287,8 mil toneladas de cacau. Desse total, cerca de 154 mil toneladas foram produzidas no Pará, o equivalente a aproximadamente 53,5% da produção brasileira. Isso significa que, de cada 100 toneladas de cacau produzidas no Brasil naquele ano, aproximadamente 53,5 toneladas tiveram origem em propriedades rurais paraenses.
Além do Pará e da Bahia, estados como Espírito Santo, Rondônia e Amazonas participam da cadeia produtiva brasileira.
O país possui condições para ampliar a produção, melhorar a qualidade das amêndoas e fortalecer a fabricação de chocolates e derivados de maior valor agregado. Entretanto, a expansão da cacauicultura precisa considerar o comportamento do mercado internacional, os custos de produção e a sustentabilidade econômica das propriedades.
Pará: a Transamazônica se consolida como grande polo produtor
A produção paraense está fortemente concentrada na região da Transamazônica, onde a cacauicultura transformou a realidade econômica de diversos municípios.
Medicilândia é uma das maiores referências nacionais na produção de cacau. O município possui extensa área cultivada, produtores especializados e uma cadeia produtiva que movimenta o comércio, os serviços e o transporte regional. Uruará, Placas, Brasil Novo, Anapu, Altamira e Novo Repartimento também desempenham papéis relevantes nesse cenário.
Segundo o relatório estadual da safra de 2025, divulgado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), o Pará registrou produção estimada de 141.452 toneladas, com produtividade média de 814 quilos por hectare. O levantamento também identificou aproximadamente 173.191 hectares em produção e destacou a participação de 86,3% da região da Transamazônica na produção estadual, conforme a regionalização adotada pelo estudo.
Produção estimada de cacau nos principais municípios paraenses em 2025
Medicilândia liderou o levantamento, com aproximadamente 37.564 toneladas, seguida por Uruará, com 21.426 toneladas, e Placas, com 17.052 toneladas. Brasil Novo registrou produção estimada de 10.818 toneladas, enquanto Altamira alcançou 8.968 toneladas. Novo Repartimento apresentou produção estimada de 8.855 toneladas, seguido por Anapu, com 7.280 toneladas, e Vitória do Xingu, com 5.217 toneladas. Pacajá registrou aproximadamente 3.650 toneladas, enquanto Rurópolis apresentou produção estimada de 1.340 toneladas.
Os números são provenientes do relatório técnico da safra paraense de 2025 e representam estimativas de acompanhamento agrícola, não devendo ser confundidos com os resultados definitivos da Produção Agrícola Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os dados evidenciam a importância da Transamazônica para a economia cacaueira brasileira. A atividade também possui relevância social, pois é desenvolvida por milhares de agricultores familiares, responsáveis pela geração de emprego, renda e circulação de recursos nos municípios produtores.
Além disso, o cultivo pode ser integrado a sistemas agroflorestais, com espécies destinadas ao sombreamento e à diversificação da produção, contribuindo para a recuperação produtiva de áreas anteriormente utilizadas por outras atividades agropecuárias.
Novo Repartimento: cacau ganha importância na economia rural
Localizado no sudeste do Pará, Novo Repartimento ocupa posição importante na produção estadual de cacau. A estimativa de 8.855 toneladas para 2025 demonstra a dimensão econômica da atividade no município.
Segundo o mesmo levantamento, Novo Repartimento possuía aproximadamente 2.684 produtores vinculados à cacauicultura, com área total estimada em 16.278 hectares, dos quais cerca de 11.807 hectares estavam em produção. A produtividade média estimada era de 750 quilos por hectare.
Esses indicadores demonstram que a cultura deixou de representar apenas uma alternativa de diversificação e passou a integrar de maneira significativa a economia rural do município.
Entretanto, a dependência das cotações internacionais expõe os produtores a riscos.
Uma queda brusca nos preços pode reduzir a receita das propriedades justamente em períodos nos quais os agricultores precisam investir em adubação, controle fitossanitário, mão de obra e manutenção das lavouras. Por outro lado, momentos de valorização internacional podem estimular novos investimentos e ampliar a circulação de recursos no comércio local.
O desafio é evitar que a expansão das plantações seja baseada exclusivamente em períodos de preços excepcionalmente elevados.
Canaã dos Carajás: prefeitura incentiva produção de cacau e diversificação da economia
Em Canaã dos Carajás, município conhecido nacionalmente pela importância de seus projetos de mineração, a cacauicultura começa a ganhar espaço nas estratégias de diversificação da produção rural.
A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Produção Rural (Sempru), mantém iniciativas destinadas ao fortalecimento da agricultura e ao incentivo de novas atividades econômicas no campo. Entre essas iniciativas está o Procacau, linha de incentivo vinculada ao Procampo, que busca inserir Canaã na cadeia produtiva do cacau por meio de sistemas agroflorestais.
Conforme as condições divulgadas pela administração municipal, o programa prevê apoio aos produtores com fornecimento de mudas clonadas de cacaueiro, fertilizantes destinados ao plantio, mudas de banana e açaí para cultivo consorciado e espécies florestais, como pequizeiro, castanheira e mogno. A iniciativa também contempla, conforme os critérios do programa, equipamentos de irrigação para áreas de até um hectare, capacitações e acompanhamento técnico.
Entre as condições informadas para participação está a disponibilidade de área mínima de um hectare, além do atendimento aos requisitos de preparação da propriedade e participação nas atividades de capacitação.
O Procacau representa uma possibilidade de diversificação econômica em um município cuja arrecadação e dinâmica produtiva ainda estão fortemente associadas à atividade mineral. Embora a produção de cacau em Canaã dos Carajás permaneça pequena quando comparada aos grandes polos da Transamazônica, a implantação de novas áreas pode ampliar a participação da agricultura na economia municipal.
É necessário, entretanto, considerar que o cacaueiro demanda alguns anos até alcançar produção comercial significativa. Portanto, os resultados dos investimentos atuais deverão ser avaliados ao longo dos próximos ciclos agrícolas. O crescimento sustentável da atividade dependerá da assistência técnica, da adaptação das lavouras às condições locais, da produtividade, da qualidade das amêndoas e da existência de canais de comercialização.
O que os produtores podem fazer para reduzir os riscos?
A experiência internacional demonstra que a valorização extraordinária de uma commodity não representa garantia de preços elevados permanentemente.
Para os produtores paraenses, algumas estratégias podem contribuir para reduzir a exposição às oscilações do mercado. Entre elas estão o fortalecimento das cooperativas, a melhoria dos processos de fermentação e secagem, a diversificação das atividades agrícolas, o acompanhamento dos custos de produção e a busca por compradores que valorizem amêndoas de qualidade superior.
A agregação de valor também representa uma oportunidade. Em vez de depender exclusivamente da venda das amêndoas, parte da cadeia produtiva pode avançar para a fabricação de chocolate, manteiga de cacau, nibs e outros derivados, desde que existam viabilidade econômica, estrutura industrial e acesso aos mercados consumidores.
O fortalecimento da assistência técnica e da organização comercial dos agricultores é igualmente importante. Para os pequenos e médios produtores, a adoção de planejamento financeiro e o conhecimento do custo por quilo produzido podem fazer diferença nos períodos de preços mais baixos.
A comercialização organizada, especialmente por meio de cooperativas e associações, também pode ampliar o poder de negociação dos agricultores e facilitar o acesso a mercados diferenciados.
O futuro do cacau: entre as oportunidades e as incertezas
O mercado mundial do cacau continuará influenciado por fatores climáticos, produtividade das lavouras africanas, comportamento do consumo, estoques internacionais e condições econômicas dos países importadores. A recuperação parcial da produção mundial contribuiu para reduzir os preços em relação aos recordes históricos, mas a experiência recente demonstra que a oferta permanece vulnerável a novos problemas.
Para o Brasil, especialmente para o Pará, o cenário apresenta desafios e oportunidades.
O estado possui uma base produtiva expressiva, agricultores experientes e municípios que desenvolveram conhecimento técnico na cultura ao longo de décadas. Novo Repartimento e os municípios da Transamazônica demonstram a importância econômica da atividade. Canaã, por sua vez, começa a construir sua participação nesse mercado por meio de incentivos à produção rural.
O grande desafio será transformar o crescimento das lavouras em desenvolvimento econômico duradouro, sem comprometer a estabilidade financeira das famílias produtoras. Afinal, a trajetória recente do cacau deixa uma lição importante: o mesmo mercado internacional que proporciona ganhos extraordinários em períodos de valorização pode provocar perdas expressivas quando as cotações mudam de direção.
Para quem vive da terra, produzir mais é importante. Mas produzir com qualidade, planejamento, assistência técnica e segurança comercial será cada vez mais necessário.
Carlos Magno
Jornalista associado ao Sinjor, Fenaj e Fij – DRT/PA 2627
Historiador e profundo conhecedor da história política, administrativa e econômica de Canaã e da região de Carajás. Especialista em Gestão Pública pela UFPA e em Desenvolvimento, Meio Ambiente e Comunicação Institucional pela FGV.





