Uma indicação apresentada pelo vereador Cleido Braz (União Brasil) na sessão ordinária da Câmara Municipal de Canaã dos Carajás realizada na última terça-feira, 11 de agosto, abriu uma nova e explosiva discussão política no município.
Em seu primeiro mandato, Cleido Braz apresentou a Indicação nº 067/2026, solicitando à Prefeitura de Canaã dos Carajás a alteração da nomenclatura da atual Secretaria Municipal da Mulher e Juventude (SEMMJU) para Secretaria Municipal da Família, acompanhada de mudanças em suas atribuições.
O texto oficial da indicação solicita:
“A alteração da nomenclatura da atual Secretaria da Mulher e Juventude para Secretaria Municipal da Família, com adequação de suas atribuições, ampliando o alcance das políticas públicas específicas ao da instituição familiar.”
Na prática, a proposta significa substituir a atual identidade institucional de uma secretaria criada especificamente para desenvolver políticas públicas direcionadas às mulheres e à juventude, transformando-a em uma pasta voltada à família.
A iniciativa rapidamente ultrapassou as paredes do Legislativo. Vídeos da manifestação do parlamentar passaram a circular pelas redes sociais e provocaram forte reação entre mulheres, jovens e integrantes de movimentos sociais do município.
Vereadores aprovam indicação; única mulher na Câmara deixa plenário
O episódio ganhou contornos ainda mais fortes porque, segundo informações da sessão, os vereadores presentes aprovaram a indicação de Cleido Braz. A exceção política foi justamente a única mulher que ocupa atualmente uma cadeira no Legislativo canaense, a vereadora professora Elenjussen Martins (MDB), que se retirou do plenário durante o episódio.
A atitude da parlamentar tornou-se simbólica diante de uma discussão que atinge diretamente uma estrutura pública destinada à proteção e promoção dos direitos das mulheres.
Secretaria nasceu em 2021
A Secretaria Municipal da Mulher e Juventude foi criada na primeira gestão da prefeita Josemira Gadelha, a partir da reorganização administrativa promovida pela Lei Municipal nº 944/2021, aprovada pela própria Câmara Municipal. Desde então, a SEMMJU passou a ocupar papel estratégico na formulação, coordenação e execução das políticas públicas municipais destinadas às mulheres e aos jovens.
Entre suas atribuições oficiais estão o planejamento de políticas de promoção e proteção dos direitos das mulheres, o combate à violência, a articulação com outras instituições, o apoio ao Conselho Municipal da Mulher, o desenvolvimento de estudos sobre a condição feminina e a promoção de ações voltadas à autonomia econômica e social.
A própria prefeitura define entre as responsabilidades da SEMMJU a adoção de medidas para garantir os direitos das mulheres, combater discriminações e ampliar sua participação na vida econômica, social, política e cultural do município.
Uma rede que já acolheu mais de 1.300 mulheres
A discussão acontece justamente quando Canaã dos Carajás consolidou uma ampla rede municipal de enfrentamento à violência contra a mulher.
Dados divulgados pela Prefeitura mostram que, entre 2021 e 2025, 1.334 mulheres foram acolhidas pela rede municipal, com ações destinadas ao enfrentamento de situações de violência doméstica e familiar. Essa estrutura reúne equipamentos e serviços como a Casa da Mulher, o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), a Patrulha Maria da Penha e a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM).
A Casa da Mulher oferece acolhimento e ações de capacitação destinadas à autonomia e independência das mulheres. O município também iniciou, em 2026, a construção de um Fluxo e Protocolo Municipal de Atendimento, acompanhado da formação de um Comitê Gestor para integrar os diferentes órgãos responsáveis pelo enfrentamento à violência.
É justamente essa estrutura de políticas específicas para as mulheres que torna a proposta apresentada na Câmara especialmente sensível.
Brasil ainda enfrenta números assustadores de violência contra a mulher
A polêmica ocorre em um momento em que o país continua enfrentando uma realidade dramática. Mesmo com importantes conquistas históricas — entre elas a Constituição de 1988, a Lei Maria da Penha, de 2006, e a legislação de combate ao feminicídio —, a violência de gênero continua fazendo vítimas em todas as regiões brasileiras.
Dados oficiais do Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que 741 mulheres foram vítimas de feminicídio somente no primeiro semestre de 2026. Embora o número represente redução de 2,5% em relação ao mesmo período de 2025, significa que centenas de brasileiras continuam sendo assassinadas em crimes classificados como feminicídio.
São números que demonstram por que políticas públicas de prevenção, acolhimento, proteção e autonomia continuam ocupando posição central no enfrentamento à violência.
Cleido Braz coleciona controvérsias no primeiro mandato
Eleito vereador pelo União Brasil e exercendo seu primeiro mandato, Cleido Braz já esteve no centro de outras controvérsias políticas em Canaã dos Carajás.
Uma das mais graves ocorreu depois de declarações dirigidas ao secretário municipal de Educação, Leonardo Cruz, que provocaram acusação pública de conteúdo homofóbico e uma nota de repúdio da família do secretário. O episódio desencadeou forte repercussão política e social no município.
Segundo informações apresentadas por movimentos locais, o caso também levou ao protocolo de um pedido popular de impeachment contra o vereador — episódio apontado pelos responsáveis pela iniciativa como o primeiro pedido dessa natureza contra um parlamentar na história política recente do município.
Agora, com a Indicação nº 067/2026, Cleido Braz volta ao centro de uma discussão de grande repercussão.
Mulheres prometem lotar a Câmara
E a reação promete sair das redes sociais e chegar diretamente ao plenário.
Integrantes de grupos e movimentos de mulheres de Canaã dos Carajás anunciam mobilização para comparecer em peso à próxima sessão ordinária da Câmara Municipal e protestar contra a proposta apresentada pelo vereador. A expectativa é de plenário lotado.
Para essas organizações, não está em discussão apenas o nome estampado na fachada de uma secretaria. O debate envolve a preservação de um espaço institucional construído especificamente para formular e executar políticas destinadas às mulheres e à juventude.
Canaã dos Carajás construiu nos últimos anos uma estrutura pública de proteção que hoje reúne secretaria especializada, Casa da Mulher, CRAM, Patrulha Maria da Penha, DEAM e mecanismos integrados de acolhimento.
Em um país onde 741 mulheres foram vítimas de feminicídio em apenas seis meses de 2026, mexer na identidade e nas atribuições de uma secretaria especificamente dedicada às políticas para mulheres inevitavelmente provoca questionamentos.
A Indicação nº 067/2026 está aprovada no Legislativo, mas, pelo tamanho da reação que começa a ganhar as ruas e as redes sociais, o debate político está apenas começando.
E a próxima sessão da Câmara Municipal de Canaã dos Carajás promete ser marcada pela presença e pela voz das mulheres.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627