Em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela, aconteceu na última sexta (24) a quinta edição do Julho das Pretas em Marabá, ocorrido na Unidade I da Unifesspa. A organização do evento é coordenada pela professora doutora da Faculdade de Educação do Campo Flávia Marinho Lisbôa, que idealizou o evento em 2022, quando ocorreu a primeira vez, e hoje faz parte da agenda do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Unifesspa.
A programação do evento contou com oficinas, apresentações de trabalhos, rodas de conversa, palestras, exposições artísticas e atividades culturais, tendo como atração musical Nic Dias, rapper e DJ, originária da Amazônia urbana (Belém do Pará), carregando em seu trabalho as vivências e tecnologias da mulher negra do Norte do Brasil.
Para a professora Flávia, o evento é uma forma de visibilizar as desigualdades que precisamos superar para alcançarmos uma sociedade justa, igualitária e democrática.
“No corpo da mulher negra incidem opressões que estruturam a sociedade brasileira e por isso digo que a cara da nossa sociedade é a cara da mulher negra: sobre ela recaem os maiores índices de violência, é ela quem paga mais impostos, compõe o maior contingente da força de trabalho, é responsável pela manutenção da maioria das famílias e também é protagonista na proteção e fortalecimento da cultura negra no Brasil em suas diversas formas de manifestação”, destaca a professora.

“Então, para avaliar se as políticas públicas de fato têm êxito, é preciso sair da superficialidade apenas de gênero e apenas de raça e cruzar essas diversas camadas que compõem o corpo da mulher negra para verificar se ela foi contemplada. Se não chegar, são políticas falhas, por não alcançarem um contingente tão significativo em nossa sociedade e tão socialmente vulnerável”, conclui.
Nesse sentido foi que os debates no período da tarde se deram. O primeiro momento tratou dos desafios locais na luta contra o racismo, com mesa composta por Rosemayre Bezerra (Movimento Consciência Negra) e Heidiany Moreno (Instituto Instrelas), seguido da conferência “Mulheres negras e a radicaliação da democracia: conspirando resistências e futuros possíveis”, proferida por Ieda Leal, sindicalista, vinculada ao Movimento Negro Unificado (MNU) e atual secretária nacional de imprensa e divulgação da CNTE.
A programação também contou, pela manhã, com um importante espaço de debates: o V Colóquio Raça e Interseccionalidades na Amazônia, fomentando o compartilhamento das pesquisas e projetos desenvolvidos na região sobre território, educação, saúde e relações étnico-raciais na intersecção com gênero, raça, sexualidade e outros sistemas de opressão.
Ao comentar sobre o colóquio, o professor Daniel Nogueira, da Faculdade de Ciências Econômicas da Unifesspa e coordenador de um dos eixos temáticos do Colóquio, destacou uma percepção compartilhada pelos pesquisadores durante as apresentações: muitos disseram que foi a primeira vez que perceberam como raça, gênero e sexualidade eram importantes para as suas pesquisas.
Em vários trabalhos esses aspectos apareciam de forma indireta, mas a chamada do evento foi responsável por provocar essas discussões em pesquisas que nem tinham se atentado para a importância do olhar interseccional e “o debate mostrou que ele ocupa um lugar central”, comenta o professor.
A programação também abriu espaço para exposições artísticas, que ficaram por conta das artistas Clara Guido e Dani Pimentel. Enquanto Clara buscou em sua exposição evidenciar as mulheres que fazem parte de sua trajetória e cotidiano, Dani apresentou diferentes tonalidades de pele para provocar reflexões sobre identidade e pertencimento. “É muito comum ouvirmos que alguém é clara demais para ser considerada negra ou escura demais para ser considerada branca”, explica.
A dança também teve espaço na programação. Na oficina ministrada pelo Grupo Kizomba, os bailarinos Lette Trindade e Warllen Borges conduziram os participantes ao conhecimento de elementos do carimbó e de outras manifestações culturais da região Norte. Segundo Warllen, a procura pela atividade chamou atenção.
“A sala ficou lotada. No final, muita gente dizia que gostaria de uma oficina com mais dias para conseguir apresentar o que aprendeu. O carimbó faz parte da nossa história e da nossa cultura”.
No final do dia, as atividades que encerraram a programação incluíram a exibição do audiovisual “Registrar para existir: memória e experiências de mulheres negras em Marabá”, apresentações no Palco Aberto e um show de Nic Dias.
Ao comentar a experiência de participar da quinta edição do Julho das Pretas, Dani Pimentel resumiu o sentimento que, segundo ela, marcou o evento. “É um sentimento de inclusão. É muito gratificante ver a nossa cultura sendo tirada dos livros e tornada realidade”.
Esse olhar de Dani, contempla a avaliação da coordenadora do evento, que destaca os avanços do evento nesses 5 anos: “A cada ano percebo mais reconhecimento do evento, o que se nota na participação das pessoas com público muito diverso, das entidades que desejam vincular suas imagens ao evento, do impacto que as lentes da interseccionalidade tem gerado nas pesquisas por meio do que o evento provoca a pensar. É muito importante perceber o evento como esse instrumento de conscientização e também de celebração para o povo negro, especialmente porque não temos em nosso município uma política pública de valorização e reconhecimento da contribuição da população negra para construção da sociedade”, destaca Flávia Lisbôa.
Apoio
Essa edição do evento foi realizado com apoio de diversos movimentos sociais, Fundação Casa da Cultura de Marabá, Sindicato dos Bancários, SindUnifesspa, Sebrae e outros espaços da universidade, como o Laboratório de Contas Regionais da Amazônia (Lacam), o Grupo de pesquisa “Políticas Públicas de Mitigação e Adaptação Climática na Amazônia Oriental Brasileira a partir da Bioeconomia (PPMAC), a Faculdade de Educação do Campo (Fecampo) e o Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia).
(Fonte: Neabi Unifesspa)