Roque Santeiro está de volta: o fenômeno que fez o Brasil parar diante da televisão

Quatro décadas depois de conquistar o país e se transformar em um dos maiores símbolos da teledramaturgia nacional, a obra-prima de Dias Gomes retorna à Globo. Mas fica a pergunta: em tempos de streaming, redes sociais e novos hábitos, Roque Santeiro conseguirá repetir o fenômeno dos anos 1980?

Há novelas que fazem sucesso. Há novelas que marcam uma época. E há aquelas raríssimas produções que ultrapassam os limites da televisão para se transformar em verdadeiro fenômeno cultural.

“Roque Santeiro” pertence a essa última categoria.

A TV Globo anunciou a volta de um dos maiores clássicos de sua história. A novela retorna à televisão a partir de 5 de outubro, na faixa “Edição Especial”, trazendo novamente para o público personagens inesquecíveis que atravessaram quatro décadas e continuam presentes na memória afetiva dos brasileiros.

Exibida originalmente entre 1985 e 1986, Roque Santeiro foi muito mais do que uma novela de enorme sucesso. Foi um fenômeno de audiência e de comportamento.

Naqueles anos, em muitas noites, parecia que o Brasil tinha encontro marcado diante da televisão. Famílias se reuniam na sala, ruas ficavam mais silenciosas e os acontecimentos de Asa Branca se transformavam no assunto do dia seguinte nas casas, escolas, repartições, bares e locais de trabalho.

Era o tempo em que a televisão aberta exercia um poder de concentração de audiência dificilmente imaginável pelas novas gerações.

E Roque Santeiro soube ocupar esse espaço como poucas produções conseguiram.

ASA BRANCA E A INDÚSTRIA DE UM SANTO

Escrita por Dias Gomes, com colaboração de Aguinaldo Silva, a novela construiu uma das mais inteligentes sátiras sociais já apresentadas pela televisão brasileira.

A história acontece na fictícia cidade de Asa Branca, onde Roque Santeiro, interpretado magistralmente por José Wilker, havia sido transformado em herói e santo popular. Segundo a lenda construída pelos moradores, Roque teria morrido defendendo a cidade do temido bandido Navalhada. Com o passar dos anos, sua suposta morte se transformou em mito.

Milagres começaram a ser atribuídos a ele. Romeiros passaram a visitar Asa Branca. Medalhas, imagens e lembranças eram comercializadas.

A fé movimentava dinheiro. E o mito passou a sustentar interesses econômicos, políticos e religiosos.

Até que acontece o impensável: Roque Santeiro está vivo.

Dezessete anos depois de ser considerado morto, ele retorna a Asa Branca, e sua volta coloca em risco todo um sistema construído sobre sua ausência. Afinal, para muita gente poderosa daquela cidade, Roque morto valia muito mais do que Roque vivo.

Essa era uma das grandes genialidades do texto de Dias Gomes. Por trás do humor e dos personagens caricatos estava uma crítica mordaz às relações entre poder, dinheiro, fé, política e interesses econômicos.

PERSONAGENS QUE ENTRARAM PARA A HISTÓRIA

Poucas novelas brasileiras conseguiram reunir tantos personagens marcantes.

José Wilker deu vida ao próprio Roque Santeiro, o homem que retorna para uma cidade onde sua imagem já não lhe pertence.

Regina Duarte eternizou a extravagante Viúva Porcina, uma das personagens femininas mais famosas da história da televisão brasileira. Rica, espalhafatosa, apaixonada e cheia de personalidade, Porcina era apresentada como a viúva de Roque — embora jamais tivesse sido casada com ele.

E havia ainda o inesquecível Sinhozinho Malta, vivido por Lima Duarte.

Poderoso fazendeiro, coronel e figura central da política e da economia de Asa Branca, Sinhozinho Malta entrou definitivamente para o imaginário brasileiro. Seu gesto com os relógios nos braços e, principalmente, seu bordão atravessaram gerações:

“Tô certo ou tô errado?”

Ao redor deles, um elenco extraordinário ajudava a construir o universo de Asa Branca.

Paulo Gracindo como Padre Hipólito; Ary Fontoura, interpretando o prefeito Florindo Abelha; Armando Bógus como Zé das Medalhas; e Lucinha Lins vivendo Mocinha, a mulher que havia esperado durante anos pelo retorno de Roque.

O reencontro entre Roque e Mocinha e a aproximação dele com Porcina formavam parte do núcleo romântico da história, enquanto Sinhozinho Malta via naquele retorno não apenas uma ameaça sentimental, mas também uma ameaça à estrutura de poder existente na cidade.

UMA OBRA-PRIMA DE DIAS GOMES

Entre tantas obras extraordinárias produzidas por Dias Gomes, “Roque Santeiro” ocupa um lugar especial. Para este jornalista, foi a mais brilhante novela escrita pelo grande dramaturgo brasileiro.

Dias Gomes conseguiu fazer algo extraordinariamente difícil: falar de assuntos sérios fazendo o Brasil rir.

Por meio da fictícia Asa Branca, colocou diante dos brasileiros um espelho do próprio país.

Ali estavam o coronelismo, a exploração da fé popular, a influência política, os interesses econômicos, a fabricação de mitos, as relações entre poderosos e autoridades e, sobretudo, as contradições de uma sociedade capaz de transformar até mesmo um morto em instrumento de poder e riqueza.

Talvez por isso a novela tenha envelhecido tão bem.

Quarenta anos depois, muitas das provocações apresentadas por Dias Gomes continuam impressionantemente atuais.

O BRASIL PARAVA PARA ASSISTIR A ROQUE SANTEIRO

Quem viveu aquela época sabe que é difícil explicar às novas gerações a dimensão que uma novela podia alcançar no Brasil dos anos 1980.

Não havia internet. Não havia redes sociais. Não existiam plataformas de streaming. Não carregávamos milhares de opções de entretenimento na palma da mão.

A televisão era o grande ponto de encontro das famílias brasileiras. E quando começava Roque Santeiro, milhões de brasileiros acompanhavam juntos as histórias de Asa Branca.

No dia seguinte, o capítulo estava nas conversas. Viúva Porcina era imitada. Sinhozinho Malta era reproduzido.

Os bordões estavam nas ruas. Os personagens deixavam a ficção e passavam a fazer parte do cotidiano nacional.

O Brasil parava diante da televisão para assistir a Roque Santeiro. Pouquíssimas produções conseguiram alcançar tamanho impacto popular.

Sem dúvida, Roque Santeiro permanece como um dos maiores fenômenos da história da televisão brasileira — e, para quem acompanhou a dimensão que a novela alcançou nos anos 1980, há fortes razões afetivas e culturais para considerá-la um fenômeno sem paralelo.

QUARENTA ANOS DEPOIS, A GRANDE PERGUNTA

Mas agora surge uma questão fascinante: será que Roque Santeiro conseguirá conquistar novamente o Brasil?

Quarenta anos se passaram.

O país mudou. A televisão mudou. E, principalmente, o telespectador mudou.

Hoje, a TV aberta divide a atenção do público com celulares, YouTube, redes sociais, serviços de streaming e uma quantidade praticamente infinita de conteúdos disponíveis a qualquer hora.

A família que antigamente se reunia diante de um único aparelho de televisão agora pode estar na mesma sala enquanto cada pessoa acompanha uma tela diferente.

É exatamente por isso que a reprise de Roque Santeiro representa também uma experiência interessante.

O que acontecerá quando um dos maiores fenômenos da televisão analógica encontrar o público da era digital?

Os brasileiros que viveram os anos 1980 certamente reencontrarão velhos amigos em Asa Branca.

Viúva Porcina estará lá. Sinhozinho Malta estará lá. Mocinha estará lá.

E Roque Santeiro, naturalmente, estará novamente vivo.

Mas haverá também uma nova geração conhecendo pela primeira vez aquele universo criado por Dias Gomes.

Será que os jovens terão a mesma identificação? Será que o humor continuará funcionando com a mesma intensidade? Será que a crítica social será compreendida da mesma maneira?

E, sobretudo: será possível, em pleno 2026, fazer novamente o Brasil parar diante da televisão?

A resposta começará a ser conhecida a partir de 5 de outubro.

Uma coisa, entretanto, já está garantida. Quando os personagens de Asa Branca reaparecerem na tela, milhões de brasileiros não estarão simplesmente assistindo à reprise de uma novela. Estarão reencontrando uma parte de suas próprias vidas.

Porque algumas novelas terminam quando vai ao ar o último capítulo. Roque Santeiro nunca terminou.

Quarenta anos depois, continua vivo na memória, nos bordões, nos personagens e na história da televisão brasileira.

Carlos Magno
Jornalista — DRT/PA 2627

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