O poeta sem livro que roubou a cena na segunda noite de Salão em Marabá

Mesmo aos 70 anos de idade, com voz embargada pela fragilidade da saúde, Ademir Braz ainda encanta pela profundidade de suas palavras e conhecimento histórico
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O Salão do Livro do Sul e Sudeste do Pará, em Marabá, chega neste domingo ao terceiro dia, contabilizando milhares de visitantes até aqui. O evento acontece no Centro de Convenções Carajás, reúne 32 exposições, vários poetas independentes apresentando seus produtos e ainda estandes de escritores amazônicos.

Há 15 anos, Ademir Braz, o Pagão, não publica um novo livro, e, em geral, os visitantes de salões e feiras do gênero assediam os autores da moda. Mas o criador de “Esta Terra”, “Rebanho de Pedras” e “Antologia Tocantina” não tem exemplar de nenhuma obra sua para vender no evento. Mesmo assim, professores universitários, acadêmicos e jornalistas o rodearam antes e após a Roda de Conversa na noite deste sábado, 27. Ele estava ao lado da professora Liliane Batista Barros, da Unifesspa e de Vanda Melo dos Santos, num bate papo mediado pelo poeta Airton Souza sobre literatura e negritude.

Na Roda de Conversa, sua voz entaramelada era acompanhada por longos hiatos entre algumas frases e o maior poeta marabaense – um dos maiores jornalistas também – falou sobre o início da carreira como correspondente do Jornal Estado de São Paulo em Marabá durante a ditadura militar e a incursão da Guerrilha do Araguaia; de como produzia poesia de trincheira paralelamente, enquanto era ameaçado até de morte por seu posicionamento firme contra o poder opressor; e do abandono do ofício de jornalista nos últimos anos em razão do profundo comprometimento dos veículos de comunicação com a política.

Exaltou o grandioso espaço do Centro de Convenções, local em que ele ainda não tinha pisado e reconheceu que os artistas locais sempre se ressentiram com a falta de um espaço cultural, principalmente múltiplo. “Em 1996, fiz parte de uma jornada de escritores patrocinada pela Secretaria de Cultura do Estado para fazer palestras em várias cidades do Estado, enquanto outros colegas de outras regiões vieram fazer o mesmo no sul e sudeste do Pará. Este Centro de Convenções atende nossas necessidades históricas”.

Numa entrevista antes de rolar a Roda de Conversa, à jornalista Kelia Santos, Ademir falou sobre literatura e negritude, a quem ele conceituou de preconceito de cor, observando que nesta região, nas décadas passadas, sempre foi disfarçado de cinismo. “As pessoas eram preconceituosas, mas tinham um jeito delicado de manifestar, sem agressividade. Me chamavam de o “Nego da Don’Anna”. Era puro preconceito, porque eu era um menino como qualquer outro”, recorda.

Por outro lado, Pagão ressaltou que nunca trabalhou o tema negritude em seus livros e nem nos poemas que estão fora deles. Disse que tem receio e cuidado com o direcionamento da poesia e leitura a uma única questão ou causa. “Temos outros preconceitos pesados, como o social”, argumenta.

Após sua participação na Roda de Conversa, Ademir Braz disse ao repórter do blog que se ressente da ausência dos amigos, que ainda sonha em publicar livros que estão no congelador à espera de quem o patrocine. E que em breve quer voltar a fazer poesia e reativar seu blog Quaradouro. “Preciso disso, amigo, porque minha vida sempre foi ligada à literatura e ao jornalismo”, confessou. (Ulisses Pompeu)

Abaixo, acompanhe o poema “Futuro”, extraído do livro “Esta Terra”, publicado no início da década de 1980 por Ademir Braz:

 “Repara bem neste verde filho. Atenta
para o mistério desse cantar de pássaros inúmeros.

Procura ouvir o sussurro mágico dessas fontes,
desses córregos, desses fios d’agua tão pura e fria,
Repara bem neste verde filho.

Guarda-o na tua memória. Um dia, quando
eu for semente que não dá mais frutos,
e os filhos de teu sêmen perguntarem a ti
sobre símbolos perdidos (iara, peixe-boi,
cobra norato, açaizeiros, castanhais e flores)
e nada mais houver senão o deserto imenso
e nu desta Amazônia,
fala-lhes do verde, das plumas dessas árvores irreais,
desses fantasmas de bronze que um tempo se confundiam
na sombra dos arvoredos e se chamavam xavantes,
xicrins, parakanans, pássaros inúteis.”

 Profética poesia caro amigo e colega, lamentavelmente profética e já realidade diante dos nossos olhos sessentões. Pior será o que verão nossos netos.

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