Marcha pela memória: milhares caminham rumo à Curva do S em homenagem aos trabalhadores rurais mortos no Massacre de Eldorado dos Carajás

Cerca de 3 mil trabalhadores participam de mobilização que reforça a memória e a luta por reforma agrária no sudeste do Pará

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Cerca de 3 mil trabalhadores rurais sem terra, ligados a movimentos sociais — com destaque para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) — realizam nesta quarta-feira (15) uma grande caminhada pelas margens da rodovia PA-275, no trecho entre Curionópolis e Eldorado do Carajás, no sudeste do Pará.

A marcha tem como destino a histórica Curva do S, cenário do Massacre de Eldorado dos Carajás, episódio que marcou profundamente a luta pela reforma agrária no país e deixou um rastro de dor, indignação e resistência. Em 17 de abril de 1996, 21 trabalhadores rurais foram mortos pela Polícia Militar durante uma ação de desobstrução da rodovia, tornando-se um dos mais emblemáticos casos de violência no campo no Brasil.

A mobilização deste ano reforça a memória dessas vítimas, transformadas em símbolo da luta pela terra e pelos direitos humanos. A estrutura da caminhada impressiona: cerca de 100 veículos dão suporte logístico, com barracas montadas ao longo da estrada para alimentação e descanso dos participantes. A própria organização dos trabalhadores mantém equipes de segurança que orientam o trânsito, que segue em meia pista, sem registro de incidentes até o momento.

Memória viva na Curva do S

O local do massacre permanece como um espaço de memória e resistência. O principal símbolo é o Monumento das Castanheiras Mortas, instalado na própria Curva do S. A obra é composta por troncos de castanheiras queimadas, representando as 21 vidas ceifadas, dispostas de forma a lembrar o mapa do Brasil — uma denúncia silenciosa da violência no campo e um chamado permanente à justiça.

Apesar de já ter sofrido atos de vandalismo ao longo dos anos, o espaço segue sendo preservado pelos próprios trabalhadores e reconhecido como local de memória pelo Ministério Público Federal, que recomenda sua conservação como forma de evitar que tragédias como aquela se repitam.

Além do monumento principal, o local recebe intervenções simbólicas frequentes. Jovens pintam pedras de vermelho, representando os trabalhadores feridos, ampliando o significado do espaço como um território de memória coletiva e denúncia social.

Outro marco importante foi o monumento projetado por Oscar Niemeyer, erguido em Marabá ainda em 1996, mas posteriormente destruído — evidenciando as tensões históricas que cercam o tema da reforma agrária na região.

Programação e significado

A caminhada segue até sexta-feira (17), data que marca mais um aniversário do massacre. A expectativa é de uma grande programação na Curva do S, reunindo trabalhadores, lideranças sociais, organizações de direitos humanos e autoridades, em um ato que mistura homenagem, denúncia e reafirmação da luta por justiça e reforma agrária.

Mais do que uma marcha, o movimento representa um grito coletivo contra o esquecimento. A cada passo na estrada, os trabalhadores reafirmam que a memória dos que tombaram em 1996 permanece viva — e que a luta por dignidade no campo continua.


Carlos Magno
Jornalista DRT/PA 2627

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